Capítulo 3 Espresso
"I'm working late, 'cause I'm a singer
Oh, he looks so cute wrapped 'round my finger
My twisted humor makes him laugh so often
My honey bee, come and get this pollen."
Chloe
Estava no meio do quarto, ainda de toalha, quando ouvi o som da porta da frente abrindo. Pouco depois, o grito familiar de Francesca ecoou pelo apartamento.
"Chloe? Onde você tá?"
"Estou no quarto!", respondi, antes de ouvir os passos apressados dela pelo corredor.
Francesca entrou no meu quarto como um furacão, os braços abarrotados de vestidos de festa, parecendo prestes a derrubar tudo no caminho. Com um sorriso grato, observei enquanto ela, com sua habitual energia, jogava-se na minha cama, junto com os vestidos.
"Você tem muita sorte de ter uma amiga como eu", disse Francesca, com um tom de falsa superioridade. "Esse pequeno problema que eu tenho de comprar roupas impulsivamente acaba sendo útil para você."
Dei de ombros, caminhando até a cama e pegando um dos vestidos que ela trouxera — uma linda peça de cetim azul-marinho.
"Foi exatamente por isso que escolhi você como amiga.” Sorri enquanto examinava de perto o vestido. “No primeiro dia na faculdade, quando abri seu guarda-roupa, soube que estava fazendo um investimento de longo prazo."
Francesca soltou uma gargalhada, sua risada era sempre tão sincera, impossível de não acompanhar.
"Mentira! Eu tive que suar muito para quebrar a parede de concreto que você ergueu em torno de si mesma. Aquele seu ar de 'não preciso de ninguém' quase me fez desistir."
Dei uma piscadela para ela, e continuei a vasculhar os vestidos.
"Que exagero... Eu só estava focada. Mas sou grata que você seja persistente."
Francesca puxou um vestido rosé do monte e me entregou, com olhos brilhando de entusiasmo.
"Esse aqui vai ficar perfeito em você." Aceitei o vestido com um aceno de cabeça, mas antes que eu pudesse agradecê-la, Francesca inclinou a cabeça, me observando com curiosidade. "Mas, falando sério, como você consegue ter um evento importante e nem se dar ao trabalho de providenciar um vestido?"
Dei de ombros novamente, agora um pouco envergonhada.
"Me enrolei no trabalho e acabei esquecendo. Só lembrei quando Felicity entrou no meu escritório hoje à tarde dizendo que o chefe ligou para confirmar se eu precisava de um carro."
Francesca balançou a cabeça com uma expressão que misturava preocupação e descrença.
"Você trabalha demais, Chloe. Isso não é saudável."
Suspirei, tirando a toalha e colocando o vestido verde que havia pegado anteriormente.
"Eu sou boa no que faço, e amo o que faço. Não parece um trabalho para mim."
Ela me observou por um momento, provavelmente buscando sinais de cansaço ou estresse que eu preferia ignorar. Eu estava ajustando o vestido no espelho quando ouvi sua pergunta, me pegando de surpresa.
"Há quanto tempo você não transa?"
Virei-me para ela, franzindo a testa.
"O quê?"
"Você ouviu bem", disse ela, com um tom desafiador na voz. "A última vez que eu lembro de você sair em um encontro foi há dois meses, e o cara nem entrou no seu apartamento."
"Como você sabe disso?" perguntei, incrédula.
Francesca deu de ombros, despreocupada.
"Seu apartamento é porta com porta com o meu. Às vezes, eu perco o sono e fico entediada."
"Você está proibida de ficar espionando pela fresta da porta", brinquei, jogando um dos vestidos nela, que apenas sorriu, sem negar.
"Estou falando sério, Chloe. Você precisa ter uma vida além do trabalho."
Revirei os olhos, ajustando o vestido verde no espelho.
"Agora você está parecendo meu pai. Você e ele deviam formar uma dupla."
"Joey é um homem sábio." Retrucou Francesca. "Você deveria ouvir mais os conselhos dele."
Olhei para o reflexo dela no espelho. Ela não iria desistir tão facilmente.
"Tá bom.” Suspire. “Faz mais ou menos três meses, se você quer tanto saber. Não tenho tido tempo para encontros ultimamente."
Francesca soltou um bufo, como se estivesse confirmando o que já suspeitava.
"Você não precisa de um encontro para transar. Você é linda e gostosa. O Vance, por exemplo, ficaria mais do que feliz em ajudar você a tirar as teias de aranha."
Virei-me para ela, incrédula.
"A conversa terminou aqui. Você é a pior conselheira para esse tipo de assunto e, além disso, eu já estou atrasada."
Ela levantou as mãos em rendição, mas não antes de me dar um sorriso travesso.
"Tudo bem, mas eu continuo com a razão."
Terminei de ajustar o vestido e virei-me para o espelho mais uma vez. Ele realmente vestiu como uma luva, o tecido verde esmeralda contrastava com minha pele e o corte do vestido acentuava minhas curvas de um jeito elegante. Meu cabelo já estava arrumado em ondas suaves que caíam sobre minhas costas, a parte da frente presa para deixar meu rosto livre, e a maquiagem leve, apenas para realçar. Francesca se levantou, vindo até mim para fechar o zíper do vestido, então me virou para avaliar o resultado e sorriu satisfeita.
"Você está deslumbrante. Esse vestido foi feito para você."
"Obrigada", respondi, também satisfeita com o reflexo no espelho.
Ela saiu por um momento, voltando com um par de brincos verde-esmeralda que Liam, meu irmão mais velho, me deu de presente no meu aniversário. Enquanto eu os colocava, Francesca me observava com um sorriso orgulhoso.
"Se você quiser resolver esse 'problema' de três meses, com certeza vai ter muitos homens implorando por isso hoje à noite."
Dei uma risada, balançando a cabeça.
"Estou indo a trabalho, Francesca. Vou estar com o meu chefe, não procurando uma aventura."
Ela deu de ombros, piscando para mim.
"Nunca se sabe o que uma noite fora pode render. Quem sabe você encontre o amor da sua vida ou, no mínimo, uma transa incrível. Qualquer um dos dois seria bem-vindo na sua situação."
Dei uma última olhada no espelho com um pequeno sorriso no rosto, ignorando Francesca e seus absurdos. Eu não estava à procura de um homem e poderia resolver meu problema de três meses com um objeto a pilha, a última coisa que eu iria procurar em um evento de trabalho cheio de homem ricos e egocêntricos era uma aventura de uma noite.
Assim que saí do carro, senti o ar frio de Denver me envolver, arrepiando a pele exposta acima do decote do vestido. Francesca tinha razão; se não fosse por ela, eu estaria usando um conjunto de calça social e blazer, claro que com saltos para dar um toque de glamour, afinal isso eu tinha de sobra, sapatos de salto eram minha obsessão. Eu tinha muito deles, e só não os usava em duas únicas ocasiões, quando estava em casa e quando assistia jogos.
Em meu longo vestido verde de cetim, segurando a barra com cuidado para não o deixar arrastar no chão encarei a grandiosa escadaria que levava ao evento. O tapete vermelho que se estendia até a entrada parecia pertencer a um mundo diferente do que eu normalmente habitava. Fotógrafos tiravam fotos dos convidados, e o brilho das luzes me fez hesitar por um momento.
Suspirei, me preparando para subir, quando senti um toque suave no cotovelo. O som de uma voz familiar, cortou meus pensamentos.
"Chloe." Meu nome saiu em um tom grave e baixo.
Virei-me para encontrar Ryan Mitchell ao meu lado, vestindo um smoking preto que se ajustava perfeitamente à sua figura atlética. Ele sempre fora atraente, mesmo em jeans e camisetas simples. Mas naquele smoking... era impossível ignorar o quanto ele se destacava.
"Ryan..." Falei surpresa.
Ele sorriu, um sorriso fácil que parecia destinado a desarmar qualquer um.
A última vez que tinha visto Ryan foi quando ele trouxe a irmã, Alissa, para conversar comigo no começo da semana. Naquela ocasião, passamos horas discutindo tudo o que ela tinha passado. Eu ouvi atentamente, cada detalhe da história dela, e fiquei impressionada com a força que ela demonstrava, mesmo depois de tudo pelo que tinha passado. Alissa sabia o que queria fazer, e eu estava ali para ajudá-la a seguir em frente. Entramos com os papéis do divórcio, e não parei por aí porque também consegui uma ordem de restrição contra o idiota que se dizia marido dela. Em poucas semanas, com um pouco de sorte, ele estaria oficialmente fora de sua vida.
Para ser honesta, minha primeira intenção foi tirar metade de tudo o que aquele babaca possuía. Sabia que ele vinha de uma família muito rica, e queria que Alissa fosse devidamente compensada por tudo o que sofreu. Mas, tanto Alissa quanto Ryan só queriam se livrar dele o mais rápido possível. Entendi o ponto de vista deles e me contive em pedir apenas uma pensão gorda — algo que ele não conseguiria escapar, mesmo com os dois advogados que descobri que a família dele tinha contratado. Foi uma decisão prática, mas uma parte de mim ainda queria ver aquele homem perder mais do que apenas a mulher que ele tanto maltratou. Mas eu sabia que, no final, Alissa estaria melhor assim. E, como advogada, meu trabalho era garantir que ela tivesse a liberdade e segurança para reconstruir sua vida.
Ver Ryan aquela noite dias depois foi realmente uma surpresa para mim, afinal nunca tinha acontecido de nós encontrarmos fora do meu escritório, principalmente de forma aleatória.
"Você está deslumbrante," disse ele, seu olhar passando rapidamente dos meus pés ao meu rosto. "Posso acompanhá-la até lá dentro?"
Eu congelei por um segundo, ponderando a oferta.
Ele era meu cliente, e mesmo não sendo o escritório, isso ainda era um evento de trabalho para mim. Mas olhar para a escadaria, especialmente com esses saltos, me fez reconsiderar. Ele percebeu minha indecisão e seu sorriso se ampliou, e esperou em expectativa como se soubesse que eu acabaria aceitando.
"Claro," respondi, aceitando seu braço.
Começamos a subir a escadaria lado a lado e enquanto subíamos, Ryan voltou a falar.
"Estou surpreso em vê-la aqui esta noite."
"Fui praticamente obrigada a vir," expliquei, sem tentar esconder meu desconforto. "O dono do leilão é um cliente antigo da firma. Meu chefe insistiu que alguns advogados estivessem presentes para representar."
Ryan assentiu.
“E você? Está aqui porque é obrigado a comparecer esses eventos de gala ou tem uma ligação com quem está organizando o evento?” Perguntei genuinamente curiosa.
Eu também não esperava vê-lo ali aquela noite.
"Normalmente, eu não participaria de eventos assim no meio da temporada, mas este é organizado pela família do meu melhor amigo, Logan. Não pude recusar."
"Bom, você parece mais à vontade do que eu." Disse, tentando soar com mais bom humor do que estava. "Como está Alissa?" perguntei depois de um instante de silêncio, sabendo que poderia preenchê-lo com um assunto seguro.
Um sorriso suave curvou os lábios de Ryan, iluminando seu rosto de uma forma que me fez perceber o quanto ele realmente se importava com a irmã.
"Ela está bem. Até começou a procurar emprego,” ele respondeu. “Achei que levaria mais tempo para ela se reerguer, mas ela está superando tudo muito melhor do que eu esperava."
"Mulheres são mais resilientes do que qualquer um imagina," comentei, sorrindo de volta para ele.
Quando finalmente chegamos ao topo da escadaria, soltei meu braço do dele, virando-me pronta para agradecer. Ryan fez o mesmo, e por um instante, ficamos frente a frente, compartilhando um momento de silêncio quase confortável.
"Obrigada por me acompanhar, Ryan," disse, mantendo o tom profissional que sempre usava com ele, mas não conseguindo esconder completamente o calor na minha voz.
"Foi um prazer," ele respondeu, seus olhos brilhando com algo que não consegui identificar. "Se quiser companhia lá dentro, estou à disposição."
Mordi o lábio, surpreendentemente ponderando sua oferta novamente. A companhia dele seria muito mais agradável do que socializar com outros advogados, porém eu estava ali a trabalho e precisava manter o foco.
"Agradeço, mas preciso encontrar meu chefe. Tenho que representar a firma," falei, tentando não parecer muito decepcionada, porque realmente a companhia dele seria melhor.
Ele se afastou um pouco, ainda sorrindo, e respondeu com uma confiança que me fez corar.
"Um dia, Chloe, você vai aceitar meus convites."
Dei-lhe um sorriso que, para minha surpresa, foi um dos mais genuínos que já ofereci a um cliente.
"Boa noite, Ryan." Falei depois de afastar um passo e dei um último aceno.
Virei-me para caminhar em direção à entrada, acenando para meu chefe quando ele me viu. O som dos saltos ecoava no tapete, enquanto o frio de Denver já começava a ser substituído pelo calor do evento que me aguardava.
