Capítulo 4 Blame It

"Blame it on the goose, got you feeling loose / Blame it on the Henny, got you in your feelings Blame it on the alcohol."

Chloe

Ainda nem tinha começado o leilão e eu já estava na minha terceira taça de champanhe. Eu estava engolindo álcool como uma alcoólatra recém-saída da reabilitação, porque, se parasse de beber e ficasse com as mãos livres, eu provavelmente teria socado os dois idiotas misóginos sentados à mesa comigo. E meu irmão Liam me ensinou bem, ainda no ensino médio, como acertar um soco.

Vance se inclinou para mais perto, a voz baixa e preocupada.

"Chloe, você precisa se acalmar," ele sussurrou, o tom tentando ser tranquilizador.

Eu forcei um sorriso, tentando disfarçar a raiva que ainda borbulhava dentro de mim.

"Estou calma," respondi, minha voz soando mais agressiva do que eu deveria me dirigir a ele.

Ele lançou um olhar para minhas mãos, que estavam apertando a taça de champanhe com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.

"Diga isso para suas mãos," ele murmurou, levantando as sobrancelhas em um misto de preocupação e humor.

Como se o universo quisesse me testar, ouvi um dos babacas soltar mais uma de suas "piadas". E dessa vez foi diretamente para mim.

"Você sabe o que dizem sobre mulheres na área de direito, não é? Elas são ótimas em fazer o café e preparar documentos, mas deixam o pensamento crítico para os homens."

A raiva subiu pela minha garganta, e eu precisei engolir o resto da bebida na minha taça para não mandar aquele imbecil enfiar as palavras dele onde o sol não bate. Peguei a taça de Vance ao meu lado, sorri para o misógino tentando conter minha raiva, e virei o resto da bebida.

"Vou ao bar buscar um pouco de água para você." Vance disse, já se levantando.

Coloquei a mão em seu braço, impedindo-o de ir.

"Não precisa, eu mesma vou," respondi, já me levantando. "Mas, em vez de água, vou encher meu copo com algo mais forte para aguentar o resto da noite."

Vance franziu o cenho, levantando-se junto comigo.

"Chloe, se continuar assim, você vai acabar bêbada."

Cheguei mais perto, encarando-o com seriedade.

"É melhor sair bêbada do que algemada e sem emprego por bater naquele idiota," murmurei, minha voz baixa o suficiente para que só ele ouvisse.

Ele ficou em silêncio por um momento, procurando o que dizer, mas não conseguiu encontrar uma resposta.

Saí da mesa e caminhei em direção ao bar, tentando afastar a raiva que ainda borbulhava dentro de mim. Antes mesmo de chegar ao balcão, avistei um rosto familiar: Ryan, encostado no bar, segurando um copo de uísque. Quando me aproximei, ele levantou o olhar e sorriu.

“Você pode beber no meio da temporada?” Sem pensar, perguntei. “Porque, se seu rendimento cair no próximo jogo, eu vou ficar muito brava.”

Ele riu, uma risada rica e profunda que me atingiu de um jeito que eu não esperava.

“Tenho uma semana de folga antes de voltar aos jogos,” explicou. “Então estou liberado para beber.”

Olhando para o barman que chegou até mim do outro lado do balcão, eu sorri.

“Por favor, você pode abastecer esses copos para mim com champagne,” o homem assentiu pegando as taças

Enquanto ele enchia, eu escolhi manter meu olhar seguro no trabalho do barmen, mas senti o olhar de Ryan quente em cima de mim, e isso me deixou inquieta.

“E como está a sua noite?” Perguntei, me virando para ele, tentando quebrar o clima estranho.

“Entediante e solitária,” ele respondeu, dando de ombros.

Revirei os olhos, deixando escapar uma risada curta.

“Difícil acreditar nisso. Você é bonito, charmoso e famoso. Duvido que esteja realmente sozinho.”

Ryan arqueou uma sobrancelha, um sorriso malicioso se formando em seus lábios.

"Você me acha charmoso, é?"

Eu balancei a cabeça, mordendo o lábio para não sorrir demais.

“Você realmente precisa pescar elogios?”

"Não, mas vindo de você, Chloe, eu quero ouvir." Ele respondeu, com um tom que me fez sentir um calor subir pelas minhas bochechas.

Olhei para ele por um momento antes de desviar o olhar, agradecida que o barman trouxe minhas taças de volta agora cheias, eu agradeci a ele e as peguei pronta para voltar para a mesa.

“Então como está sendo a sua noite?” Ryan perguntou antes que eu fosse.

Eu suspirei, voltando a encará-lo.

"Regada a álcool para não bater em um idiota." Confessei, o que provocou outra risada dele.

Ele inclinou a cabeça, curioso.

"Posso saber o que esse idiota fez para tirar a disciplinada e sempre profissional Chloe Parker do sério?"

Revirei os olhos, tentando não explodir de novo apenas com a lembrança.

"Ofendendo a mim e a todas as mulheres do mundo com piadas misóginas e comentários desnecessários."

"idiota", Ryan murmurou, e eu assenti em concordância. Ele olhou para o copo em sua mão, depois para a taça que eu segurava. "Se quiser uma companhia para beber um pouco enquanto começa o leilão e evitar sua mesa, estou disponível."

Soltei uma pequena risada, realmente impressionada com a insistência dele em suas propostas. Minha risada morreu e eu fiquei em silêncio por um momento, e mais uma vez, para minha surpresa eu ponderei sua proposta, enquanto via a expectativa em seu rosto.

Olhei na direção da minha mesa, onde o babaca de antes ria alto de provavelmente outra idiotice que violava algum direito da mulher. Então, voltei meus olhos para Ryan e, com um sorriso, falei realmente algo inesperado para nós dois.

"Parece que hoje é seu dia de sorte, porque finalmente vou aceitar seu convite.”


Acordei com a sensação de uma cabeça pesada, como se um tonel de chumbo estivesse pousado sobre meus ombros. Meus olhos não queriam abrir, e o calor e conforto ao meu redor me faziam querer permanecer naquela bolha aconchegante. Mexi um pouco e me acomodei ainda mais entre as cobertas, então o corpo por trás de mim, me abraçou com força, como se não quisesse que eu me afastasse. Foi quando meus olhos abriram, ignorando qualquer protesto para ficar fechado e meu coração começou a pulsar forte nos meus ouvidos.

Ao olhar para baixo, vi uma mão grande repousada sobre minha barriga, escondida sob os cobertores. Fechei os olhos com força, esperando o sonho acabar, e eu  acordar sozinha; mas, ao invés disso, flashes da noite anterior invadiram minha mente: a chegada ao evento ao lado de Ryan, as piadas misóginas do idiota na mesa, a ida ao bar encontrando Ryan e aceitando sua proposta de fugir da minha mesa, então nós dois conversando e bebendo, Ryan fazendo um lance exorbitante em uma viagem a Paris com acompanhante e brincando que me levaria com ele…

Sussurrei um “meu Deus” em voz baixa, horrorizada, então mais imagens — agora bem mais claras vieram a minha mente. Ele me trazendo para casa, insistindo para entrar no prédio comigo e se mostrando o cavalheiro que sua mãe lhe ensinou a ser, segundo ele. Na porta do meu apartamento, ele se inclinando, aproximando-se com um sorriso, e comentando que a noite tinha sido incrível comigo, e que eu tinha tornado tudo muito melhor. Esse sendo o empurrão que eu precisava para agir com influência do álcool no meu corpo, e beijá-lo. A conexão entre nós se tornando intensa, e sem romper o contato, entrando no meu apartamento. Ryan me pressionando contra a parede do corredor e o beijo se aprofundando, levando-me a perder completamente os sentidos.

Voltando a minha realidade atual m, com muito cuidado, segurei o braço de Ryan e o tirei de cima de mim. Ele se mexeu um pouco, mas continuou em seu sono profundo. Me afastei dele e me sentei na cama, sentindo minha cabeça latejar, prenúncio de uma ressaca que seria muito mais do que física. Pegando meu robe, que estava dobrado sobre a mesinha ao lado da cama, o vesti para cobrir meu corpo nu. Sentei-me novamente na cama e fechei os olhos, murmurei para mim mesma, “maldita bebida”.

A culpa e a frustração me dominaram. Não deveria ter ultrapassado aquele limite, especialmente com um cliente tão importante e  ainda por cima muito famoso. Se meu chefe me viu sair com Ryan, eu podia muito bem está em apuros, talvez até ser despedida na segunda-feira.

“Maldita, maldita bebida!” exclamei novamente, mais furiosa agora.

“Então nós vamos colocar a culpa na bebida?” a voz perguntou, cheia de ironia.

Meu coração saltou quando ouvi a voz grossa atrás de mim, e em seguida meu estômago revirou. Minha cabeça latejava, minha boca estava seca, e a confusão se misturava com a vergonha conforme eu me virava na cama, e com a visão que fui recebida meu coração quase parou. Ryan podia muito bem ganhar o título agora do homem mais lindo que eu já havia visto, mesmo todo amarrotado pelo sono, e provavelmente de ressaca.

Um suspiro escapou dos meus lábios antes que eu pudesse me controlar, e ele sorriu para mim, um sorriso que eu senti até a espinha.

“Bom dia.” Murmurou com a voz grossa, me fazendo congelar.

“Bom dia.” Respondi imediatamente, a voz saindo um pouco mais ansiosa do que eu gostaria.

Tratar Ryan como meu cliente era uma coisa; eu dominava essa parte. Mas vê-lo na minha cama, sabendo que ele estava pelado e lembrando de tudo o que aconteceu na noite anterior, isso me deixava completamente fora do meu jogo... E eu odiava isso.

“Então... você vai responder à minha pergunta?” Ryan perguntou, seus olhos brilhando com diversão.

Franzi a testa, tentando recordar do que ele estava falando.

“Que pergunta?”

O sorriso dele se alargou, claramente se divertindo mais do que eu com a situação.

“Se vamos colocar a culpa da noite de ontem na bebida?”

Soltei um suspiro, tentando parecer mais tranquila do que me sentia.

“De uma coisa eu tenho certeza, sem a bebida, você nunca estaria na minha cama nesta manhã.” Disse, o encarando.

Eu vi o rosto dele endurecer, a diversão desaparecendo de seus olhos, e percebi que minhas palavras o afetaram mais do que eu esperava.

“Não leve para o pessoal, Ryan. Mas você é meu cliente, e eu não... não durmo com clientes.” Tentei amenizar minha frase anterior.

Ele arqueou uma sobrancelha.

“Talvez seja tarde demais para você dizer isso agora.” O sarcasmo em sua voz era cortante.

Desviei o olhar, fixando-o nas minhas mãos que descansavam em cima da perna dobrada.

“A noite passada foi um erro.” Minha voz soou fraca, quase um sussurro.

Ouvi Ryan soltar uma risada seca, o som áspero e desapontado. Ele tirou o cobertor de cima do corpo musculoso e se levantou, pegando a cueca do chão e a vestindo.

“Já entendi,” disse enquanto vestia a peça. “Mesmo depois de tudo, você ainda está dizendo ‘não’ para as minhas propostas.”

Ouvi o farfalhar das roupas enquanto Ryan se vestia, e meu coração afundou um pouco mais a cada som. Eu engoli o constrangimento daquela conversa, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. Sabia que precisava ser profissional, mesmo que a situação fosse qualquer coisa menos isso.

Respirei fundo e então perguntei, tentando manter a voz firme.

“Ryan… Isso vai ser um problema? Eu continuar como sua advogada?”

“Não se preocupe, Chloe. Seu trabalho e sua carreira estão intactos. A noite passada foi um erro para mim também. Eu vou deletar isso da minha mente.” Ele falou com uma frieza que para minha surpresa me atingiu profundamente.

Acertaram diretamente meu orgulho, mas eu sabia que não tinha o direito de me sentir assim, porque eu havia dito quase a mesma coisa a ele.

Vi Ryan caminhar pelo quarto, pegando o terno jogado em um canto e os sapatos espalhados. Quando ele se virou para mim, já vestido, seu rosto estava fechado.

“Tenha um bom dia,” ele disse com a  voz dura, e depois se virou e saiu pela porta do quarto.

Eu fiquei sentada na cama, sentindo-me estranha pela situação, então fechei os olhos por um momento.

“Isso é o melhor, isso é o melhor,” murmurei para mim mesma, tentando me convencer.

Ryan era meu cliente, e alguém que estava o tempo todo na mídia. Isso não encaixava na vida que eu tinha, nem na vida que eu queria. Mesmo que a noite passada tivesse sido fantástica, era melhor mantermos as coisas apenas como advogado e cliente. Era a decisão certa, eu sabia, mas o vazio que eu senti quando ele deixou o quarto poderia muito bem  ser  contrário.

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