Capítulo 5 Dreaming of You
"Late at night when all the world is sleeping / I stay up and think of you."
Ryan
Eu senti a pele macia e alva de Chloe contra a minha, os pequenos gemidos que ela soltava só me faziam querer explorar mais. Era o som mais sexy que já ouvi, especialmente quando ela sussurrava meu nome. Minha mão encontrou seu pescoço, puxando-a para mais perto, e nossos lábios se encontraram de novo, eu me perdi em seus suspiros. Se eu morresse agora, com ela em cima de mim, nua e relaxada, morreria feliz…
Abri os olhos com um sobressalto, e frustrado mais uma vez.
Já fazia um mês e meio, talvez até mais, que esses sonhos vinham me assombrando, e estava ficando ridículo. Não me lembrava da última vez que uma mulher me rejeitou, especialmente depois de uma noite tão incrível. Talvez fosse esse o motivo de eu estar tão obcecado por Chloe e a noite que compartilhamos.
Levantei-me da cama, o lençol escorregando para o chão, e caminhei até o banheiro. Arranquei a cueca no meio do caminho, e entrei no boxe, ajustando o chuveiro para a água fria, esperava que a temperatura baixa me trouxesse algum alívio para o turbilhão de pensamentos, mas o frio da água caiu sobre minha pele, e não fez nada para esfriar a imagem dela queimada na minha mente.
Depois do banho, vesti uma calça de moletom e uma camiseta de malha, então sair do quarto em direção à cozinha. Encontrei Alissa lá, ainda com o rosto amassado de sono, tomando seu café. Sorri ao vê-la, me aproximando e inclinando-me para beijar o topo da sua cabeça.
“Bom dia, maninha.” Falei com um pequeno sorriso.
“Bom dia.” Ela murmurou sem ânimo algum, e com um tom levemente irritado. “Até vim morar com você, eu acordava no mínimo às oito da manhã. Agora, com algumas semanas aqui, meu sono já está se esvaindo às seis, mesmo que meu corpo queira dormir mais.”
Ri do resmungo dela, pegando minha caneca e enchendo-a com o café fumegante.
“Eu preciso me exercitar, gosto de fazer isso logo cedo, antes de treinar com o time.”
Alissa revirou os olhos e balançou a cabeça.
“A sua vida saudável está acabando com a minha vida sedentária.”
Sentei-me à mesa ao lado dela, dando um gole no café.
“Você vai ter alguns dias de folga de mim, porque eu vou para Nova York daqui a dois dias. Tenho que resolver algumas coisas com uma marca de esportes que eu represento, e depois jogo em Jersey no final de semana.”
Ela acenou, ainda meio adormecida.
“Não sei como você consegue viajar tanto. Se eu tivesse um trabalho que exigisse tantas viagens pelo país, já teria mudado de profissão.”
Dei de ombros, porque esse estilo de vida, era algo que já tinha me habituado.
“Já estou acostumado.” Falei.
“Fácil pra você agora, porque é solteiro e não tem uma família. Quando você encontrar uma garota para estabilizar e tiver filhos, essas viagens vão ficar mais complicadas,” ela disse, com um sorriso que não alcançou os olhos.
Parei por um momento, considerando as palavras dela.
“Não vejo isso acontecendo tão cedo. Por enquanto, vou aproveitar a vida de solteiro, com minha conta bancária cheia e fazendo o que amo.”
Ela sorriu, mas não era um sorriso genuíno que ela costumava me dar. Sabia que isso tinha a ver com o trabalho dela, ou a falta dele. Alissa se formou em arquitetura, mas nunca exerceu a profissão porque logo depois de se formar conheceu o ex-marido. Eles noivaram e se casaram rápido, e ele insistiu que ela ficasse em casa para quando tivessem filhos. Eu queria ajudá-la a encontrar um emprego, mas ela não queria nada que viesse do meu dinheiro ou da minha influência, então só me restava assistir enquanto ela se animava com entrevistas de emprego e depois se frustrava porque as empresas queriam alguém com mais experiência.
Decidi mudar de assunto, para não a deixar ainda mais chateada.
“Quais são seus planos para hoje?”
Ela deu de ombros, mexendo o café distraidamente.
“Não muito. Só vou colocar algumas roupas na lavadora.”
Franzi a testa, esse tipo de merda, não era algo que ela precisava fazer.
“Você não precisa fazer isso. Eu tenho gente que cuida dessas coisas para mim. Antes de você se mudar, a lavadora e a secadora eram praticamente decoração.”
Alissa revirou os olhos, ignorando meu comentário.
“Não vou discutir isso de novo. Vou lavar e secar as roupas, e depois tenho uma reunião com a Chloe.”
Ao ouvir o nome dela, mexi-me desconfortavelmente no meu lugar.
“Eu não sabia que você tinha um encontro com Chloe hoje.”
Alissa, ignorante dos meus sentimentos conflitantes, respondeu sem hesitar.
“A assistente dela ligou dois dias atrás, marcando para hoje.”
Limpei a garganta e cocei a nuca, tentando parecer casual.
“Por que você não me contou antes? Foi Chloe que pediu para você ir sozinha?”
Ela franziu a testa, me estudando por um momento, como se estivesse tentando decifrar minhas palavras.
“Por que ela faria isso? Ela é sua advogada também.”
Desviei o olhar, sentindo-me exposto.
“Achei estranho você não mencionar que veria Chloe hoje.”
Alissa deu de ombros, sem dar muita importância.
“Eu não pensei sobre isso. Nas últimas duas vezes que me encontrei com ela, você estava fora da cidade por causa dos jogos.”
Assenti lentamente, ficando em silêncio por um momento.
“Vou com você hoje.” Anunciei quase sem pensar.
Ela sorriu, provavelmente achando a minha reação estranha, engraçada.
“Tudo bem, o encontro é às duas da tarde.”
Levantei-me, não queria dar parecer mais estranho do que estava sendo com essa coisa de Chloe. Tinha impressão que mais duas palavras minhas, minha irmã perceberia toda a merda.
“Vou correr um pouco e depois treinar com o time. Estarei pronto às duas para irmos juntos ver Chloe.” Falei, bebendo o resto do meu café.
Sair da cozinha e fui correr; na esperança que os exercícios tirassem um pouco minha cabeça de onde ela não deveria está, mas foi em vão. Passei todo o tempo pensando em Chloe e que em algumas horas a veria de novo.
Quando chegamos ao prédio onde ficava o escritório da minha advogada, ainda faltava meia hora para o horário marcado, e a única coisa que martelava em minha cabeça era que eu não devia estar ali. Fazia mais de um mês desde a última vez que a tinha visto, e a memória daquele encontro ainda me incomodava. A forma como saí de lá… era como se tivesse levado um chute na bunda. Agora, aqui estava eu, de novo, me colocando em uma situação que provavelmente só ia me causar mais incômodo.
Alissa já tinha resolvido algumas coisas com Chloe nas outras reuniões. Elas estavam se entendendo bem, organizando os passos para a audiência de divórcio. O único motivo pelo qual eu estava ali era apenas a vontade de olhar para Chloe, e ver sua reação ao me ver. Era como se eu estivesse buscando algo, alguma justificativa para a obsessão que vinha me consumindo desde a noite que passamos juntos.
Alissa estava ansiosa, seus passos curtos e rápidos me diziam que ela queria acabar logo com aquilo, descobrir se os papéis do divórcio finalmente haviam sido enviados. Eu, por outro lado, sentia uma mistura estranha de antecipação e nervosismo, como se estivesse prestes a entrar em um campo minado. Estávamos na recepção elegante e minimalista do andar de Chloe. Felicity, a recepcionista, ergueu os olhos de sua tela quando nos aproximamos de sua mesa e, como sempre, seu olhar arregalado encontrou o meu por um segundo a mais do que o necessário.
Isso sempre me divertia.
"Bom dia, Felicity," disse Alissa, tentando soar tranquila, mas eu podia notar a ansiedade em sua voz. "Eu tenho uma reunião com a Chloe, mas acho que cheguei um pouco adiantada."
Felicity piscou algumas vezes, se recompondo.
"Ah, claro, Alissa. Bom dia para você também," respondeu ela, e então, virando-se para mim, acrescentou. "Sr. Mitchell, bom dia." Suas bochechas ficaram rosadas quando ela falou comigo, e eu quase ri, mas me contive. "Chloe saiu para o almoço," continuou Felicity, tentando soar profissional, mas a leve tremida em sua voz me indicava que ela estava um pouco nervosa. "Ela nunca demora muito, então acredito que logo estará de volta. Enquanto isso, que tal um café? Podem esperar na sala de espera."
"Obrigado, Felicity. Vamos esperar, sem problemas," respondi, educado. Alissa assentiu ao meu lado, e seguimos para a sala de espera.
Assim que nos sentamos, notei que os joelhos de Alissa estavam saltando incontrolavelmente, e suas mãos estavam retorcidas no colo.
Ela estava a um passo de desmoronar.
"Ei," falei suavemente, tentando chamar sua atenção. "Vai dar tudo certo. Chloe está cuidando de tudo."
Alissa soltou um suspiro trêmulo.
"Eu sei, Ryan. Mas é que... eu só quero que isso acabe logo, sabe? O Ed tem me perseguido de todas as formas possíveis, e eu estou tão cansada disso."
Apertei sua mão, oferecendo o apoio silencioso que ela precisava.
"Chloe é a melhor. Ela vai resolver isso."
Minhas palavras não eram só para acalma-la, eu realmente acreditava nisso.
Enquanto ficamos sentados esperando, o tempo pareceu se arrastar, eu estava a ponto de me levantar e começar a demonstrar minha ansiedade andando de um lado para o outro quando ouvimos o elevador se abrir. Chloe saiu rindo de dentro, acompanhada de um cara loiro de terno e gravata. Uma pontada de desconforto foi imediata e apertou meu estômago enquanto eu via a proximidade entre eles. Eles não nos viram de imediato, pois estávamos numa sala recuada. Chloe se aproximou de Felicity, que estava na linha de visão do elevador, e começou a conversar com ela.
“Vance está aqui para pegar os papéis do processo de Chris Volti.” Ouvi Chloe dizer.
“Não precisava subir senhor Vance, se o senhor tivesse ligado, eu teria levado ao seu andar.” Ouço a voz de Felicity em seguida.
“Não é trabalho nenhum para mim. Eu adoro a companhia da sua chefe, por isso sempre encontro motivos para estar com ela.” O tal do Vance respondeu.
Revirei os olhos, irritado com a familiaridade entre os dois. Alissa, ao meu lado, notou minha reação e franziu a testa para mim. Enquanto isso, ouvir Chloe soltar uma risada suave.
“Você nunca cansa, não é, Vance?” Ela disse de muito bom humor.
O tipo de tom de voz que ela nunca usaria comigo, eu sabia.
“Chloe os clientes do horário das duas já estão esperando por você,” Ouvimos a voz da secretaria de Felicity novamente e eu me remexi na cadeira.
“É a Srta. Mitchell, certo?” A voz de Chloe soou à distância, mas clara o suficiente para eu ouvir.
“É sim.” Felicity confirmou. “Ela está na sala de espera, já algum tempo.
“Você pode ir para seu horário de almoço, eu assumo daqui e a levo para o meu escritório, Felicity.” Chloe responde.
Em seguida, ouvimos passos, então minha visão se estreitou quando Chloe finalmente apareceu no meu campo de visão. Ela estava ao lado do cara loiro, e ele tinha um tipo de sorriso fácil que me irritava.
“Vou dar uma olhada no processo e devolvo amanhã mesmo.” Ele disse mostrando a pasta que a secretária de Chloe tinha dado a ele, e se moveu para entrar no elevador, mas antes, ele fez um gesto casual, apertando o ombro de Chloe de forma amigável.
Algo naquela cena me causou uma fisgada estranha, uma sensação que não consegui digerir. Mesmo sendo um gesto aparentemente inofensivo, parecia íntimo demais para o meu gosto. A forma como Chloe sorriu para ele só intensificou esse desconforto. Quando o elevador fechou as portas com Felicity e o tal do Vance, Chloe se virou agora em direção a sala de espera, e imediatamente congelou quando me viu, mas foi muito rápido, porque logo recuperou a compostura. Parecia que algo dentro dela tinha se endurecido de uma hora para outra, e o sorriso fácil que ela tinha mostrado para Vance sumiu instantaneamente. Ela caminhou para a sala de espera e então se aproximou de Alissa com o sorriso voltando caloroso, enquanto a abraçava.
“É muito bom vê-la novamente, Alissa. Desculpe pela espera.”
“É bom vê-la também, Chloe. Chegamos cedo porque eu estava ansiosa,” Alissa respondeu, ainda sorrindo.
Chloe então se virou para mim, seu sorriso perdendo o calor ao me estender a mão.
“Sr. Mitchell, é um prazer revê-lo.”
Peguei sua mão, e olhei diretamente em seus olhos, deixando o silêncio se prolongar por um segundo.
“Bom vê-la também, Chloe,” respondi com a voz seca.
Ela soltou minha mão rapidamente, quase como se estivesse queimando, e respirou fundo.
“Me sigam.” Ela disse acenando com a mão em direção a saída da sala de espera.
Enquanto andávamos, Alissa lançou-me um olhar curioso, mas não disse nada. Eu sabia que ela queria saber o que estava acontecendo entre mim e Chloe, mas não havia nada que eu pudesse dizer a ela — pelo menos, nada que eu estivesse pronto para admitir.
Assim que entramos no escritório de Chloe, ela se dirigiu diretamente à sua mesa, e Alissa e eu a seguimos. Ela estava claramente evitando olhar em minha direção, o que não ajudava a aliviar a tensão que eu sentia. Chloe abriu uma gaveta e, enquanto buscava algo, pediu que nos sentássemos. O gesto parecia automático, profissional.
Minha advogada retirou uma caixa vermelha e, de dentro dela, pegou o par de óculos brancos que colocou com um gesto cuidadoso sobre o rosto. A visão dela com aqueles óculos me parecia um tanto impessoal, era como se fosse uma barreira entre ela e o mundo. Assim como ela, evitei seu olhar, e concentrei-me em Alissa, que estava claramente nervosa ao meu lado.
“Bom, vamos direto ao ponto.” Começou Chloe, quebrando o silêncio. Seu tom era firme, mas com um toque de gentileza. “Os papéis do divórcio finalmente foram enviados para Ed.”
Senti a mão de Alissa se contrair na minha. Segurei-a com firmeza.
“Isso é uma boa notícia.” Falei, tentando manter a calma. “Estamos um passo mais perto de nos livrar desse idiota.”
Chloe assentiu.
“Exatamente. Com os papéis agora com a outra parte, esperamos que tudo se resolva de forma amigável. Esse é o cenário ideal.”
Alissa soltou um suspiro, sua expressão tensa.
“Eu tenho dúvidas de que ele vai assinar,” ela disse. “E se ele não o fizer? O que acontece em seguida?”
Chloe fez uma pausa, estudando minha irmã, e eu notei o olhar compreensivo dela.
“Se ele recusar ou contestar o que foi pedido, nós teremos que entrar com uma petição e ir para o tribunal, como discutido em nossas reuniões anteriores.” O som da palavra “tribunal” fez Alissa parecer ainda mais ansiosa. Chloe percebeu isso e tentou acalmá-la. “Não se preocupe, Alissa, eu estarei com você em todo o caminho. Eu não costumo perder batalhas como essas.”
Alissa sorriu tristemente.
“Eu só quero que isso acabe logo. Não entendo por que Ed insiste com esse casamento quando nenhum dos dois é feliz.”
Olhei para Chloe, e depois voltei para minha irmã.
“Geralmente, pessoas infelizes querem que todos ao seu redor sejam igualmente infelizes. É isso que Ed está fazendo.”
Chloe me lançou um olhar de compreensão e confirmou.
“Seu irmão está certo, Alissa. A melhor maneira de lidar com pessoas assim é se mostrando forte e seguindo em frente, longe do alcance delas.”
Alissa suspirou.
“Um jeito de ser feliz seria arranjar um emprego rapidamente e parar de atrapalhar a vida de Ryan.”
Imediatamente, repliquei.
“Você não está atrapalhando minha vida. A casa é sua por quanto tempo você precisar.”
Alissa me olhou com um olhar de gratidão e um sorriso que era quase como um alívio.
“Eu sei disso, Ryan. Sou muito sortuda por ter você, mas eu realmente quero começar a reerguer minha vida.”
“Em que área você está procurando trabalho?” Chloe interrompeu o momento entre nós, voltando sua atenção totalmente para Alissa.
Minha irmã hesitou antes de responder.
“Eu me formei em arquitetura, mas a essa altura, aceitaria qualquer coisa.”
“Eu acho que posso te ajudar.” Chloe sorriu.
A hesitação de Alissa era evidente e quando ela abriu a boca provavelmente era para dizer para Chloe não se incomodar.
“Não diga não logo de cara.” Chloe disse, passando por cima do que quer que Alissa fosse falar. “Antes de você recusar, ouça o que eu tenho a dizer.” Alissa sorriu e acenou com a cabeça, e eu senti um profundo alívio por ver minha irmã se animando. Chloe continuou: “O noivo de uma amiga minha, Francesca, tem uma empresa de arquitetura. Eles acabaram de perder uma arquiteta que saiu de licença maternidade e não voltará mais. Duvido que eles tenham encontrado alguém desde então. Posso falar com ele e ver se a vaga já foi preenchida, e marcar uma entrevista.”
A reação de Alissa foi instantânea; ela olhou para mim, e eu dei de ombros.
“Se eu fosse você, agarraria essa oportunidade sem pensar duas vezes.”
Voltando para Chloe, ela mordeu o lábio ainda um pouco indecisa.
“Se você puder fazer isso, eu ficaria eternamente grata.” Alissa respondeu, com um brilho genuíno nos olhos.
Chloe deu uma piscadela para ela.
“Não é nada demais. As garotas têm que se ajudar.”
O sorriso de Alissa era genuíno, pela primeira vez naquele dia. Um sorriso que me fez sentir que havia esperança, e era graças a Chloe.
A garota que eu não conseguia tirar da cabeça, e que diferente de mim, que parecia ter apagado a nossa noite da memória com uma facilidade que eu achava impressionante.
