Capítulo 4 A voz que não cala
Analu
Eu precisava manter aquele emprego a qualquer custo para pagar o remédio caro da minha avó e as contas atrasadas da nossa casa pequena, mas o patrão arrogante, de olhos de mel e voz cortante, transformava cada minuto sob o mesmo teto em uma guerra silenciosa de orgulho e provocações.
Depois do confronto da hora do almoço, ele sumiu. Não apareceu no corredor, não mandou recado, não deixou nem o eco dos sapatos de sola fina no piso de madeira. Só voltou faltando dez minutos para o fim do expediente, como se o meu tempo fosse um detalhe descartável. Entrou no escritório da cozinha sem bater, soltou a frase seca e já deu as costas:
— Não jantarei em casa.
Senti o calor subir pelo pescoço. Aquele homem tinha o dom de chegar e tirar o ar do ambiente. Enquanto ele sumia pela porta, imitei a voz grave e autoritária, curvando os ombros e franindo a testa:
— “Não vou jantar em casa.”
Verinha, que secava a última panela, soltou um sorriso curto e balançou a cabeça.
— Ah, menina, tome juízo!
— Um pouco de humor não mata ninguém, Verinha. Desde que ele chegou, esta casa parece de luto. Eu hein. Deus é mais!
Juntei a bolsa, o fone e o casaco leve. Beijei a bochecha morena de Verinha, abracei Otávio — que cheirava a sabão e terra — e mandei um beijo no ar para Morgana. A menina ainda estava de cara fechada por causa do esporro da manhã, mas eu já planejava amolecê-la no dia seguinte com um bombom escondido no bolso. Cruzei o portão de ferro enferrujado e enfiei o fone nos ouvidos antes mesmo de pisar na calçada. A playlist alta, o baixo batendo no peito, era o único antídoto contra a abstinência forçada pelo “poderoso chefão”. A música preenchia os espaços que a arrogância dele esvaziava.
O caminho até casa era curto, mas cada passo trazia o cheiro de terra molhada e de flores do quintal. Quando abri o portão baixo — aquele que qualquer criança saltava —, o aroma da sopa de legumes subiu como um abraço. Parei um segundo, fechei os olhos e deixei o alívio descer pelos ombros tensos. Nossa casa era humilde: muro baixo, caminho de cimento rachado ladeado de comigo-ninguém-pode, copo-de-leite, espada-de-São-Jorge e um pezinho de rosa branca que a vó cuidava como se fosse ouro. A varanda tinha piso vermelho de barro, rede branca balançando e parede descascada. Dois quartos, um banheiro, sala e cozinha. No fundo, goiabeira, amoreira, manga-espada e a hortinha onde ela plantava tudo o que cabia. Um lugar que cheirava a paz e a resistência.
— Boa noite, minha vó! A sua bênção! — gritei assim que entrei, já vendo a silhueta fina na cozinha.
Ela se virou. Setenta e dois anos, cabelos brancos presos num coque frouxo, avental floral sobre a saia que batia nas canelas finas. Secou as mãos no pano e veio ao meu encontro. Beijou minha testa com a boca quente de quem acabara de provar o caldo.
— Deus te abençoe, minha neta. Como foi o serviço hoje?
— Vozinha, tenho babados pra te contar. Mas primeiro deixa eu tomar um banho. Depois a gente come essa sopa que tá cheirando até no portão.
O banho tirou o cheiro de cozinha alheia e o peso do dia. Vesti a camisola de algodão comprida — “pra espantar namorado”, segundo ela — e sentei à mesa. Dois pratos fumegantes, pedaços de pão duro para molhar, o vapor subindo e embaciando os óculos da velha. Minha avó tentara a vida inteira corrigir a minha boca nervosa, mas eu sabia a verdade: aprendera com ela. As respostas afiadas, o riso no meio do caos, a fé misturada com deboche — tudo vinha daquela mulher de setenta e dois anos que ainda plantava, cozinhava e enfrentava o mundo de cabeça erguida.
— Então vamos lá, Analu. Quais são esses babados?
Ri, agora que a humilhação já tinha virado história.
— A senhora acredita que eu tava na minha melhor performance de cantora de banheiro quando o patrão chegou?
— Meu Jesus Cristinho! E aí?
— E aí que o homem ficou uma fera. Insinuou que eu era menina demais e que não dava conta do serviço.
Ela arqueou as sobrancelhas brancas.
— Você não respondeu ele, né, Aninha?
— Ora, com toda certeza do mundo que sim. Mas o pior foi o confronto na hora de servir o almoço.
Contei tudo. A conversa “agradável” — e o sarcasmo na minha voz deixou claro o quanto não fora. A avó riu, mas os olhos já estavam preocupados.
— Ai, meu pai eterno, desse jeito você não fica lá nem mais um mês.
— Se eu não ficar, corro atrás de outro, vó. Preciso desse dinheiro. O remédio da senhora não paga sozinho.
Ela ficou em silêncio por um segundo, depois perguntou:
— Mas me conte: como é o seu patrão?
Fechei os olhos por um instante e vi a imagem dele saindo. Calça jeans preta, camisa social preta de manga longa, todo de preto. Só a luz nos olhos de mel queimava no meio daquela escuridão. Um homem bonito demais para ser tão odioso.
— Vó, ele é arrogante, prepotente e um grande babaca. E é só o que tenho pra falar.
— Só isso?
— Até o presente momento, sim. Tivemos pouco tempo hoje. Mas acredito que em breve ele me surpreenda com muitos outros defeitos. Porque é só isso que aquele homem tem.
Ela continuou tomando a sopa em silêncio. Mudei de assunto antes que viesse alguma pérola de conselho. Arrumamos a cozinha juntas: uma lavando, a outra guardando. Depois sentamos no sofá velho, assistimos a novela com o volume baixo e, às dez horas, já estávamos nos braços de Morfeu.
Mas o meu sono não veio fácil. Deitada no quarto escuro, ouvindo a respiração leve da avó no quarto ao lado, eu relia mentalmente cada palavra do patrão. A forma como ele me olhara de cima a baixo, o tom de quem não acreditava que eu aguentasse o tranco. Eu precisava daquele emprego. Precisava do dinheiro. Precisava provar — para ele e para mim mesma — que não era menina demais. Que a voz que ele tentava calar no banheiro ainda ia ecoar pela casa inteira.
Quando finalmente adormeci, sonhei com a melodia que cantava no banheiro e com os olhos de mel que me observavam do outro lado da porta.
No dia seguinte, ao abrir os olhos, senti o coração bater mais forte. Levantei, vesti o uniforme e, antes de sair, apertei a mão da avó com força demais, como se o toque pudesse carregar coragem até o portão da mansão.
