Capítulo 2 ~ O diabo é calmo e perigoso
{Ponto de vista de Daisy}
Se eu tivesse que dar uma nota para a experiência de sequestro até agora, eu daria uns sólidos três de dez.
Pontos a menos pela fita adesiva. E pontos a mais pelo lugar, porque o local para onde eu tinha acabado de ser arrastada era literalmente um palácio.
As portas enormes da frente se fecharam atrás de nós com um baque profundo que ecoou pelo saguão de entrada gigantesco, e eu fiquei ali por um momento, piscando como alguém que entrou por acidente no set do filme errado.
Pisos de mármore…
Tetos altos…
Um lustre do tamanho de um carro pequeno…
Olhei de novo para os meus pulsos amarrados com fita. Depois para o lustre. Depois para os pulsos. Com o cenário que eu estava vendo, senti que eu merecia pelo menos algemas.
Enquanto isso, eu me sentia deslocada — como se eles pudessem ter sequestrado alguém mais... elegante.
“Tá”, eu disse devagar. “Isso aqui é confuso.”
O sequestrador careca me empurrou para a frente de novo.
“Anda.”
Eu cambaleei alguns passos pelo piso de mármore, meus tênis rangendo num som constrangedoramente alto no silêncio.
Ótimo.
Até o chão estava me julgando.
O interior da mansão era tão ridículo quanto o exterior. Colunas altas alinhavam o corredor e quadros enormes pendiam das paredes, do tipo que parecia pertencer a museus onde as pessoas cochicham com respeito e fingem entender arte abstrata.
Câmeras de segurança estavam instaladas nos cantos, e homens de terno escuro ficavam parados ao longo das paredes, quietos, como estátuas muito caras.
Todos me olharam. Não de um jeito casual ou curioso. Era mais o jeito como as pessoas olham para algo que é perigoso ou extremamente idiota.
O que, em minha defesa, eu não era no momento. Eu acho.
Virei levemente a cabeça para o careca caminhando ao meu lado.
“Então”, comecei. Ele não reagiu.
“Só pra esclarecer”, continuei, “a gente vai falar sobre essa história de sequestro e sobre o papel que eu tô fazendo aqui?” perguntei.
Nenhuma resposta.
Público difícil.
Continuamos andando.
O corredor parecia não ter fim, o mármore polido refletindo as luzes do teto com tanta intensidade que eu praticamente conseguia ver meu reflexo nele.
O que era lamentável, porque meu reflexo no momento parecia o de uma refém usando moletom largo demais.
Minha vida tinha dado uma guinada muito estranha.
Lá na frente, dois homens com roupas de rua mais pesadas estavam parados perto de uma estátua masculina de aparência estranha, falando baixo. Conforme nos aproximamos, a conversa deles chegou aos meus ouvidos.
“… então o DeLuca não vai levar isso na brincadeira.”
O segundo homem assentiu.
“E não devia mesmo! Essa merda já dura tempo demais.”
Meus ouvidos se aguçaram.
Ah. DeLuca, o nome misterioso da van.
Eu diminui um pouco o passo, tentando ouvir mais, mas o sequestrador careca agarrou meu braço de novo e me puxou para a frente.
“Continua andando.”
“Você tá sendo desnecessariamente rude, sabia”, eu resmunguei, e então seguimos até parar diante de um par de portas duplas enormes.
Madeira escura, painéis entalhados; o tipo de porta que parecia levar a salas onde pessoas extremamente sérias tomavam decisões extremamente sérias.
Um dos homens perto da porta olhou para os meus pulsos, depois para os meus sequestradores.
Ele franziu a testa.
“Isso é…?”
“Só abre a porta”, o careca disse depressa, e o homem empurrou as portas para abrir.
Com isso, eu fui escoltada para dentro e imediatamente odiei cada acontecimento que tinha me levado até aquele momento.
A sala era enorme, e não era aquele enorme de sala de conferência normal. Era mais um enorme de conselho de guerra secreto de bilionários. Eu não estou exagerando. E, pela primeira vez desde que essa noite maluca começou, senti uma pontada de medo bem concreta.
Todo aquele cenário era poderoso demais para não ter implicações terríveis… mas não era só isso.
Uma longa mesa preta se estendia pelo centro do ambiente, e homens em ternos caros estavam sentados ao redor dela, a atenção deles se voltando para mim no instante em que eu entrei.
Eram pelo menos dez, talvez mais, e cada um deles tinha cara de que conseguiria arruinar a vida de alguém antes do café da manhã. Enquanto isso, havia mais criminosos do lado, com cicatrizes e toda aquela estética agressiva típica de bandido.
Soltei um suspiro pesado e fiquei ali, parada de um jeito constrangedor no meio do salão, enquanto todo mundo encarava — o que logo percebi que era falta de educação.
Se você vai sequestrar alguém, o mínimo que pode fazer é oferecer uma cadeira ou um lugar pra sentar.
Com isso, mudei o peso do corpo de leve.
“É… Oi. Belos ternos”, eu disse.
Silêncio.
Fantástico.
O cara careca soltou meu braço e deu um passo para trás, de modo que eu fiquei só ali; no meio de uma sala cheia de estranhos com cara de poderosos.
Um dos homens se inclinou para outro e sussurrou alguma coisa, enquanto um terceiro checava o relógio. O clima estava mudo e, em pouco tempo, ficou desconfortável, então tentei falar de novo, mas, de repente, alguma coisa mudou…
No começo foi sutil.
Uma cadeira arrastou baixinho no chão e alguém endireitou a postura de supetão, enquanto um dos guardas perto da parede ficou ainda mais rígido.
A tensão na sala se aguçou como se todo mundo tivesse lembrado da mesma coisa ao mesmo tempo… então alguém perto da porta disse, baixo:
“Ele chegou.”
Segui as palavras com o olhar e, naquele instante, o silêncio ficou ainda mais silencioso — se é que isso é possível.
As portas se abriram atrás de mim… e passos marcaram o mármore.
Lentos.
Medidos.
Eu me virei na hora e vi a nova figura.
Era um homem, um que não parecia se apressar para lugar nenhum.
Ele se movia com a confiança calma de alguém que nunca, em toda a vida, tinha sido intimidado.
Alto, muito alto. Cabelo escuro, ombros largos, um físico perigosamente sereno. Vestia um terno preto sob medida e a presença dele era palpável.
— o tipo de presença que fazia qualquer outra pessoa na sala parecer um pouco menos importante só por comparação.
Os homens à mesa se endireitaram automaticamente e ninguém voltou a trocar palavra.
Então, o olhar do recém-chegado varreu o ambiente uma vez, absorvendo tudo. Depois parou em mim… e ficou.
Eu encarei de volta.
Porque eu ia fazer o quê?
Enquanto isso, meu cérebro fazia o possível para processar a situação.
Ok.
Então.
Provavelmente era o DeLuca, o que significava que a pessoa misteriosa sobre quem todo mundo cochichava tinha acabado de entrar na sala.
E, infelizmente para a minha estabilidade emocional, ele também era absurdamente bonito.
Tipo… irritantemente bonito.
Parecia mais jovem do que todos os outros homens ali, mas carismático o bastante para deixá-los intimidados, com um físico forte e uma mandíbula marcada que daria para cortar minhas faturas de dívida de uma vez só.
Ele tinha olhos verdes intensos e uma expressão controlada que sugeria que ele mandava.
Fantástico.
O CEO do Sequestro tinha chegado.
Ele me estudou por um momento sem dizer nada, e o silêncio se estendeu enquanto todo mundo esperava… o que deixou a situação perturbadoramente desconfortável.
Limpei a garganta.
“Tá”, eu disse, finalmente quebrando o silêncio, e todas as cabeças na sala se viraram para mim.
Fiz um gesto vago ao redor.
“Antes de essa reunião extremamente tensa continuar, alguém pode me explicar por que eu tô aqui?”
O silêncio respondeu à minha pergunta, mas então eu apontei para o homem lindamente imponente.
“E outra coisa”, acrescentei. “Você é o chefe ou o assistente intimidador? Eu quero clareza sobre isso.” E a sala congelou.
Congelou mesmo, como se alguém tivesse pausado a realidade. Vários homens me encararam em horror, e a boca de um deles chegou a escancarar.
Com isso, o homem à minha frente ergueu uma única sobrancelha e então falou, com calma:
“Esta não é a filha do Viper.”
Ele não desviou o olhar de mim ao dizer isso. Em vez disso, o olhar ficou mais intenso, como se ele tentasse enxergar a minha alma.
“Quem”, murmurou, “é esta?”
