Capítulo 3 ~ Um problema diferente
{DeLuca}
Erros me irritam.
Não porque erros aconteçam — eles sempre acontecem —, mas porque, em geral, erros significam que alguém parou de prestar atenção… e quando as pessoas param de prestar atenção no meu mundo, as consequências costumam sair caro.
O erro desta noite estava bem no meio da minha sala de reuniões, esfregando os pulsos onde a fita havia sido cortada e olhando em volta como se tivesse entrado no prédio errado.
O alvo era para ser a filha do Viper, mas a moça à minha frente não era a filha dele. O que significava que alguma coisa tinha dado errado.
Eu a observei em silêncio.
Ela analisava a sala, a mesa comprida, os homens sentados ao redor dela e os seguranças ao longo das paredes. A maioria das pessoas reagia a salas como aquela com medo ou desespero, mas aquela garota reagia com uma curiosidade estranha.
E curiosidade era incomum.
Ela ergueu os olhos de volta para mim.
— Ok — disse devagar. — Estou começando a ter a impressão de que alguma coisa deu muito errado esta noite.
O tom agora era cauteloso, embora o sarcasmo de antes não tivesse desaparecido por completo. Ainda estava ali, pairando sob a superfície como um reflexo que ela não conseguia controlar.
Hum.
Ao redor da mesa, meus homens da linha principal aguardavam. Franzi a testa e voltei minha atenção para um deles, Fritzo.
— Explique.
Ele se endireitou na mesma hora, a postura rígida de uma tensão burra.
— N-nós seguimos a informação exatamente como foi passada, chefe — disse depressa. — O alvo devia sair do prédio às oito e meia. Mulher. Cabelo escuro. Mesma altura.
Não disse nada.
O silêncio tem um efeito útil nas pessoas; força elas a continuarem falando.
Fritzo engoliu em seco.
— O veículo chegou no horário correto — continuou. — Ela saiu sozinha e a equipe a… garantiu imediatamente.
Olhei de novo para a garota, que agora alternava o olhar entre nós.
— “Garantiu” — ela repetiu, baixinho. — Uma palavra divertida pra sequestro.
Ninguém lhe deu atenção. Fritzo continuou falando.
— Nossas fontes confirmaram que o alvo seria a filha do Viper, e essa garota apareceu com características semelhantes. — Ele disse, e eu percebi que o nome não significava nada para ela.
Eu via isso pelo jeito como a expressão dela permanecia vazia. Ela era a pessoa errada… mas aquele nome significava alguma coisa para todo mundo na sala.
O Viper.
Um homem que comandava uma das poucas organizações capazes de desafiar o império DeLuca — o homem que matou minha mãe e o homem a quem eu não vou dar descanso até enterrar o corpo e esmagar a alma.
Voltei-me para a garota.
— Qual é o seu nome?
Ela hesitou um instante antes de responder.
— Daisy — disse. — Daisy Bennett.
Eu a examinei melhor.
— Você não tem ligação com o Viper — eu disse.
Ela me encarou.
— Eu não faço a mínima ideia de quem seja. Mas eu quero confirmar: você está falando de uma pessoa de verdade ou de uma cobra? — perguntou, inutilmente, como resposta, mas a confusão pareceu genuína.
Em seguida, ela olhou em volta de novo, como se tentasse entender a situação.
— Só pra confirmar — acrescentou —, o motivo de eu estar aqui é porque vocês acharam que eu era outra pessoa?
— Sim. — alguém respondeu, e ela soltou o ar devagar.
— Bem — disse ela —, isso é reconfortante de um jeito profundamente perturbador. E também foi muito burrice de vocês.
Vários homens ao redor da mesa se remexeram nas cadeiras diante disso. Eu os ignorei e a avaliei.
Ela era jovem, começo dos vinte. Mais ou menos da minha idade, e as roupas eram simples e baratas: tênis gastos, moletom de faculdade e jeans desbotado. Não havia nada na aparência dela que sugerisse riqueza, influência ou ligação com o Viper. Isso me deu desgosto.
Tudo nela sugeria o contrário.
— Como você veio parar aqui esta noite? — perguntei, e ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu não “vim parar”, senhor — disse. — Eu fui sequestrada.
Esperei.
Ela suspirou.
— Eu estava saindo da biblioteca do campus — ela continuou. — Eu trabalho lá à noite, porque a mensalidade não se paga sozinha.
Havia um traço de amargura no tom dela agora.
— Eu atravessei o estacionamento — ela prosseguiu —, e então alguém me agarrou por trás. A próxima coisa de que eu me lembro é de acordar numa van, com fita adesiva nos meus pulsos.
O olhar dela desviou para Fritzo por um instante.
— O que, aliás — acrescentou —, foi uma péssima apresentação.
Fritzo não disse nada.
Eu considerei as palavras dela com cuidado.
A história era simples e coerente com o que meus homens haviam relatado, o que significava que o erro tinha acontecido antes do sequestro em si.
A nossa fonte tinha nos dado informações incorretas… e essa possibilidade era mais preocupante do que o erro em si. Eu senti a raiva crescer.
A garota viu minha expressão mudar e reagiu a isso.
— Tá — disse ela, cautelosa. — Esse olhar parece importante.
Eu não tinha motivo nenhum para responder, mas respondi mesmo assim.
— É.
Ela cruzou os braços.
— Eu posso saber por quê? — perguntou ela e, como ninguém respondeu, teve a resposta.
Ela assentiu uma vez.
— Certo.
Agora ela olhou para os homens sentados ao redor da mesa.
— A propósito — murmurou —, eu só queria apontar que isso aqui é um ambiente de grupo bem intimidador. Esses ternos combinando dão a vocês uma… aura. É legal. — Ela disse, e ninguém devolveu nada em resposta.
Ela se virou de volta para mim.
— E eu imagino que você seja quem manda aqui.
— Ele é — disse Fritzo, severo, de um jeito que era para alertá-la. Não alertou.
— Faz sentido — disse ela, e seus olhos passaram por mim de novo, me avaliando de um jeito que a maioria das pessoas não ousaria.
— Porque todo mundo aqui parece nervoso — acrescentou — e você não.
Eu ignorei a observação dela e tratei do que importava.
— Você viu os homens que te levaram — eu disse.
Ela passeou o olhar pelo ambiente.
— Vi.
— Ouviu nomes.
— Sim.
— E viu o caminho por onde eles dirigiram.
Ela hesitou.
— Ah… sim. Meio que sim.
Esse era o problema.
Ela tinha visto demais… e pessoas que testemunhavam coisas assim não simplesmente voltavam à vida normal depois. Carregavam informação, e informação criava risco.
Ela pareceu perceber que alguma coisa tinha mudado na sala, porque seus ombros se endireitaram um pouco.
— Tá — ela disse, devagar. — Agora eu estou começando a ficar preocupada. O que está acontecendo?
Olhei o relógio e voltei meu olhar para eles.
— O que ela viu?
Fritzo respondeu na hora.
— Nada importante, chefe.
Eu esperei… e ele se corrigiu.
— Ela… ela viu a van, alguns dos guardas e, possivelmente, este endereço — ele disse, o que significava que ela tinha visto o suficiente.
Ela acompanhou a conversa com atenção, a expressão se fechando à medida que as implicações ficavam mais claras.
— Só por curiosidade — disse ela —, vocês estão discutindo se vão me matar ou não? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
— Porque o clima aqui está sugerindo que sim.
Eu me virei para o grupo à mesa, os membros da linha principal.
— Deixem-nos — eu disse, e a sala hesitou por um momento, até cadeiras rasparem e os homens se levantarem.
Um por um, os homens da linha principal começaram a sair da sala, e os guardas os acompanharam até que todos estivessem fora.
Fritzo foi o último a sair. Ele lançou um olhar para ela e depois para mim, antes de passar pela porta.
As portas se fecharam atrás dele com um clique baixo e definitivo, e o silêncio que veio depois era diferente do de antes, porque agora a sala continha apenas duas pessoas.
A mulher olhou ao redor da sala de reuniões vazia, depois voltou o olhar para mim e, pela primeira vez desde que chegou, a indiferença na expressão dela desapareceu por completo.
Ela soltou o ar devagar.
— Bom… — disse ela, e a voz agora tremia um pouco.
— Isso parece a parte em que as coisas ou ficam um pouco melhores… ou ficam muito piores.
