Capítulo 1: Prólogo

Ponto de vista de Sia

O vestido de noiva era lindo.

Era tudo o que uma garota de dezesseis anos teria sonhado em vestir um dia. Camadas de renda marfim delicada desciam em cascata até o chão de madeira polida; minúsculas pérolas cintilavam sob a luz suave; e a longa cauda se espalhava atrás de mim como um rio de seda. Alguém tinha entrelaçado rosas brancas frescas no meu cabelo escuro, e os brincos de diamante pendurados nas minhas orelhas brilhavam toda vez que eu me mexia.

Eu parecia uma princesa.

Eu me sentia um sacrifício.

Uma lágrima escorreu pela minha bochecha antes que eu conseguisse impedir, deixando um rastro brilhante através das camadas cuidadosas de base espalhadas na minha pele. Eu a enxuguei com os dedos trêmulos, mas outra veio em seguida, e mais outra, até eu estar chorando em silêncio no meu colo.

Do lado de fora do quarto da noiva, eu conseguia ouvir a melodia distante do órgão da igreja aquecendo.

Os convidados estavam chegando. Cada nota soava como mais um passo em direção ao fim da minha vida.

Apertei os olhos com força. Talvez, se eu rezasse o bastante, alguma coisa aconteceria.

Talvez o papai mudasse de ideia. Talvez o noivo nem aparecesse. Talvez alguém percebesse o quão errado era aquilo.

Talvez...

A seda do vestido de noiva parecia pesada e sufocante contra a minha pele agora. Eu me sentei na beirada do banquinho de veludo da penteadeira no quarto da noiva, a respiração vindo em engasgos irregulares e silenciosos. Olhei para a garota no espelho — uma estranha.

Eu era uma criança brincando de se fantasiar dentro de um pesadelo.

As lágrimas vinham havia horas, abrindo trilhas ardentes através da camada grossa de base e pó. Eu não me importava. Meu peito parecia estar sendo esmagado por um peso invisível.

Durante semanas, eu lutei. Eu gritei até a garganta ficar em carne viva, implorei até não ter mais palavras e, por fim, tentei fugir. Eu arrumei uma bolsa pequena e cheguei até a beirada da propriedade antes que os seguranças, cumprindo ordens do meu pai, me arrastassem de volta pelos braços.

A punição pela minha rebeldia foi rápida e absoluta. Fui arrancada da escola, meus livros foram queimados, e eu fui colocada em prisão domiciliar. Meu celular sumiu, minha porta era trancada pelo lado de fora, e as únicas pessoas que eu via eram as empregadas, que me olhavam com uma mistura de pena e medo.

Meu pai tinha deixado claro: eu não era mais uma filha; eu era uma transação.

A porta rangeu ao se abrir, e minha mãe entrou. Ela estava radiante, os olhos brilhando com uma empolgação superficial que embrulhou meu estômago. Mas, assim que o olhar dela pousou em mim, o sorriso desapareceu. O rosto se contorceu numa máscara de irritação.

— Pelo amor de Deus, Sia! — ela disparou, vindo depressa na minha direção.

Ela não perguntou por que eu estava chorando. Não me abraçou nem disse que ficaria tudo bem. Em vez disso, segurou meu queixo com força demais, inclinando minha cabeça para trás para inspecionar o estrago. — Olha a sua cara! Você estragou a maquiagem. Você tem ideia de quanto custou a estilista?

Ela começou a dar batidinhas apressadas nas minhas bochechas com uma esponja, com movimentos bruscos e impacientes. — Pare com isso agora mesmo. Pare de agir como se estivesse tão infeliz. Você está deslumbrante e está prestes a entrar num mundo com o qual a maioria das garotas só pode sonhar.

— Eu não quero — sussurrei, a voz falhando. — Eu tenho dezesseis anos, mãe. Por favor... por favor, não me faça fazer isso.

Minha mãe parou, os olhos se estreitando. — Adrian Stone é um homem maravilhoso. Ele é sofisticado, poderoso e incrivelmente rico. Ele não vai apenas cuidar de você; ele é o único motivo pelo qual a empresa do seu pai não está indo pelo ralo. Ele está salvando todos nós.

— Eu não me importo com a empresa — soluçei, a represa finalmente se rompendo. — Eu odeio ele! Eu nem conheço ele! Eu só quero voltar pra escola. Eu quero a minha vida de volta!

— A sua vida é o que nós fazemos dela! — ela sibilou. — Você quer que a gente vá à falência? Quer ver seu pai humilhado? Quer que a gente tenha que implorar na rua, dormindo em abrigos, porque você foi teimosa demais para cumprir o seu papel?

Olhei nos olhos dela, o desespero se transformando num lampejo de desafio cru. “Sim”, consegui dizer, engasgando. “Eu prefiro mendigar nas ruas a ser vendida para um estranho.”

O som do tapa ecoou pelo cômodo.

A força dele virou minha cabeça para o lado, deixando minha bochecha ardendo, quente. Eu ofeguei, apertando o rosto, encarando-a em choque. Minha mãe não parecia arrependida; parecia enojada.

“Sua pirralha ingrata e egoísta”, ela cuspiu, a voz baixa e perigosa. “Você só pensa em você mesma. Acha que os seus ‘sentimentos’ importam mais do que a sobrevivência desta família? Você vai caminhar até aquele altar, vai sorrir e vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para agradar aquele homem. Entendeu?”

Eu não conseguia falar. Eu só conseguia tremer.

O trajeto até a capela foi um borrão de céu cinzento e silêncio sufocante. Quando chegamos, o ar estava frio, com cheiro de terra úmida e lírios de velório.

Ficamos parados do lado de fora das pesadas portas de carvalho da igreja. Meu pai finalmente se aproximou de mim. Ele não olhou nos meus olhos; olhou para a renda do meu véu, como se eu fosse um móvel que ele estava preparando para entregar.

Ele pegou minha mão quase como se fosse uma obrigação. O aperto não era reconfortante; era uma ordem.

“Faça meu amigo feliz, Sia”, ele murmurou, a voz desprovida de qualquer calor paterno. “Não me envergonhe. Apenas seja obediente e, talvez, sua vida não seja tão difícil quanto precisa ser.”

Uma onda de náusea me invadiu. Senti uma vontade física de vomitar ali mesmo, sobre o caminho de pedra impecável.

A traição doía como uma ferida de verdade, um rasgo irregular no meu peito que nunca cicatrizaria. Eram as pessoas que me criaram, as pessoas que deveriam me proteger do mundo, e, ainda assim, eram elas que estavam me entregando ao lobo.

As portas se abriram.

O interior da capela era sombrio, iluminado por velas trêmulas que projetavam sombras longas e dançantes nas paredes. Havia pouquíssimas pessoas presentes — apenas alguns associados de negócios e parentes distantes.

Enquanto eu caminhava pelo corredor, o silêncio era opressivo. Eu sentia os olhos deles em mim e, pela primeira vez, eu vi: pena.

Eles sabiam. Sabiam que eu era uma criança. Sabiam que eu estava sendo sacrificada. E, ainda assim… não diziam nada.

E então eu o vi.

Adrian Stone estava diante do altar. Tinha trinta e cinco anos, quase o dobro da minha idade, com um terno impecavelmente ajustado e um olhar que parecia o de um predador marcando território. Ele não estava carrancudo; estava sorrindo.

Não era um sorriso de amor ou gentileza; era o sorriso de um homem que acabara de arrematar uma posse valiosa num leilão. Ele me olhava não como uma noiva, mas como um troféu — algo bonito, frágil e inteiramente dele.

Meu pai chegou ao altar e, sem uma única palavra de despedida ou um olhar demorado, entregou minha mão a Adrian. A transição foi perfeita, um negócio fechado num piscar de olhos. Meu pai deu um passo para trás e se retirou, deixando-me sozinha no aperto de um estranho.

O padre começou os votos, a voz dele como um zumbido monótono ao fundo.

Eu parei de ouvir. Olhei por cima do ombro de Adrian, vasculhando a pequena plateia, os olhos arregalados e suplicantes.

Olhei para minha mãe, mas ela desviava o olhar. Olhei para os convidados, esperando — rezando — que alguém se levantasse. Que alguém dissesse que aquilo estava errado. Que alguém segurasse minha mão e me puxasse para fora desse pesadelo.

Mas ninguém se mexeu. Ninguém falou. O mundo permaneceu em silêncio, cúmplice da minha destruição.

Quando Adrian se inclinou, o hálito quente e com cheiro de colônia cara roçando na minha orelha, ele sussurrou algo que eu nunca vou esquecer.

“Você é ainda mais deliciosa do que nas fotos, Sia. Mal posso esperar para ficar a sós com você.”

Um arrepio de puro terror desceu pela minha espinha. Naquele instante, enquanto o padre nos declarava marido e mulher, a luz do meu mundo se apagou.

Naquele dia, aprendi a lição mais cruel da minha vida: às vezes, as pessoas que deveriam te proteger são as que mais te machucam.

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