Capítulo 2: O preço de uma reputação

Ponto de vista de Julian

— Você queria me ver?

Empurrei a pesada porta de carvalho sem esperar convite. O escritório do Christian parecia exatamente o mesmo de ontem, e de anteontem, e provavelmente de todos os dias da última década. Prateleiras de madeira escura forravam as paredes, condecorações militares descansavam em fileiras perfeitas, e não havia um único arquivo fora do lugar.

Meu irmão gostava de ordem. Infelizmente para ele, eu tinha o hábito de chegar trazendo caos.

Christian não ergueu os olhos do jornal aberto sobre a mesa.

— Feche a porta.

Eu fechei, embora algo no tom dele fizesse o sorriso no meu rosto desaparecer.

Christian era o padrão-ouro. O filho perfeito, o executivo impecável, o homem que vivia segundo um projeto de precisão e decoro. Eu, por outro lado, era a falha no legado da família.

Sem dizer uma palavra, Christian pegou o jornal e o lançou na minha direção com um gesto seco. Ele deslizou pela superfície polida, parando bem na beirada da mesa. A manchete estava impressa numa fonte em negrito, agressiva, que parecia gritar comigo:

HERDEIRA BILIONÁRIA REGISTRA QUEIXA CONTRA O CONSULTOR DE SEGURANÇA JULIAN CROSS.

Abaixo do texto havia uma foto granulada, estilo paparazzi, de mim saindo de um hotel cinco estrelas ao amanhecer, com a aparência desgrenhada, e uma mulher linda e transtornada vindo logo atrás. Para o mundo, parecia o rescaldo de uma noite escandalosa de paixão. Para mim, parecia uma terça-feira.

— Você gosta de tornar a minha vida difícil? — a voz de Christian saiu baixa, perigosa, sem nenhum afeto fraternal.

Encostei as costas na porta, cruzei os braços e tentei manter uma fachada de despreocupação. — Você vai ter que ser mais específico — respondi, num tom leve, embora meu coração martelasse nas costelas. — Eu torno a vida de muita gente difícil. É praticamente um hobby.

Christian finalmente levantou o olhar. Os olhos dele estavam duros, espelhando o aço dos arranha-céus que cercavam nossa sede. Ele não achou graça. Nunca achava.

Ele se levantou, gesticulando com impaciência para o tablet sobre a mesa, que rolava um feed de tabloides e threads de redes sociais.

— Olha isso, Julian! A internet está te devorando vivo. A filha de um dos nossos maiores associados diz que você passou a noite na suíte dela. Ela registrou uma queixa formal. A narrativa já está pronta: Julian Cross, o playboy irresponsável, usa a posição de confiança para predar as famílias dos clientes.

— Eu não fiz nada disso! — retruquei, o verniz de indiferença escorregando.

Dei um passo à frente, a voz subindo. — Ela me ligou. Estava tendo um ataque de pânico, dizendo que corria perigo. Eu fui lá para ajudá-la, para garantir o perímetro, para ter certeza de que ela estava segura. A “noite” que passamos juntos foi eu sentado numa cadeira ao lado da porta enquanto ela chorava até dormir. Isso está sendo completamente distorcido por gente que adora um escândalo.

Christian suspirou, um som de exaustão profunda. Esfregou a ponte do nariz, me encarando com uma mistura de pena e frustração.

— A essa altura, Julian, é a sua palavra contra a dela. E ela não é qualquer uma; é filha de um magnata dos negócios. Sua reputação já está em frangalhos. E esta não é a primeira vez que você é ligado a um “mal-entendido” envolvendo uma mulher bonita e uma quebra de limites profissionais.

— Eu sou consultor de segurança, Christian! — rebati. — Eu lido com situações de alto estresse e gente instável. Às vezes, por fora, parece ruim, mas eu sempre entreguei o resultado.

— O “resultado” não é só o que acontece no fim; é a imagem — Christian retrucou, a voz ficando mais cortante. — A Cross Elite Security Services (CESS) é construída em confiança, discrição e uma reputação inabalável. Nós não somos apenas seguranças; somos o escudo invisível das pessoas mais poderosas do mundo. Como vamos vender “discrição” quando o nosso consultor-chefe vira escândalo de capa a cada dois meses?

Senti uma onda de frustração, um ardor quente de raiva que me deu vontade de chutar a mesa. — Então o que você quer de mim? O que eu posso fazer para você acreditar em mim? Eu não fiz nada errado dessa vez. Isso não é culpa minha!

Christian hesitou. Por um segundo fugaz, a máscara de executivo caiu, e eu vi meu irmão — o homem que me tirou de encrenca uma dúzia de vezes desde que éramos crianças. — Eu acredito em você, Julian — ele disse, baixo. — No fundo, eu sei que você é arrogante demais para ser tão desastrado. Mas o mundo não vai acreditar. O conselho de administração não vai.

Aquilo me gelou por dentro. O conselho.

“O conselho já está questionando se você sequer é elegível para se tornar o próximo CEO”, Christian continuou, a voz recuperando o tom profissional. “Eles veem um passivo, não um líder. Estão se perguntando se o legado dos Cross vai ser entregue a um homem que trata a própria carreira como um parquinho.”

As palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe físico. Eu fazia o papel do rebelde, do sedutor, do cara que não ligava para regras, mas aquilo era só um escudo. Por baixo das piadas e do sorriso de canto, eu ansiava pela aprovação do Christian.

Eu queria que ele me olhasse não como uma bagunça para limpar, e sim como um igual. A ideia de eu ser considerado inapto para herdar a empresa pela qual nossos pais sangraram parecia uma traição à minha própria identidade.

“O serviço foi deixado para mim pelos nossos pais”, argumentei, embora a convicção estivesse escapando da minha voz. “O conselho não deveria ter tanta voz na minha herança, a menos que... a menos que você acredite que eu precise de uma punição disciplinar.”

Christian me encarou por um longo tempo. O silêncio se estendeu, pesado e sufocante. “Eu venho limpando as suas bagunças há muito tempo, Julian. E sim... eu tenho minhas dúvidas. Eu me pergunto se você algum dia vai amadurecer, ou se vai continuar queimando pontes até não sobrar mais lugar onde você possa ficar de pé.”

Desviei o olhar, incapaz de sustentar o dele. O silêncio era minha penitência.

“No entanto”, Christian disse, alcançando uma pasta grossa de papel pardo sobre a mesa. “Eu ainda não estou pronto para desistir de você. Vou te dar uma última chance de provar que você consegue ser o profissional que esta empresa exige. Um caso. Um cliente. Sem escândalos, sem flertes, sem ‘mal-entendidos’. Se você der conta disso com precisão e discrição absolutas, eu mesmo vou dizer ao conselho que você está apto para o cargo.”

Ele empurrou a pasta pela mesa na minha direção. Eu a peguei, e o peso dela pareceu um desafio. Abri a capa e passei os olhos pelos documentos.

Cliente: Sia Laurent.

Status: Herdeira bilionária.

Nível de ameaça: Severo.

Parei, com os olhos presos à foto anexada ao dossiê. Ela era deslumbrante, mas havia algo no olhar dela que me tirou o ar. Não eram olhos de uma herdeira mimada; eram frios, distantes e assombrados. Ela parecia ter visto o fim do mundo e decidido que não gostou.

Um sorriso de canto puxou meus lábios. Eu já tinha ouvido falar dela. Nos círculos de elite da segurança e da riqueza, ela era uma lenda de um tipo diferente.

“A Rainha de Gelo da alta-costura?”, murmurei, o apelido soando como uma provocação.

A expressão de Christian endureceu na hora. Ele se inclinou para a frente, a voz em tom de aviso. “Isso não é um jogo, Julian. Sia Laurent não é como as outras mulheres que você já encontrou. Ela é frágil de um jeito que você não entende e perigosa de um jeito que você não consegue imaginar. O nível de ameaça dela é severo por um motivo. Ela é alvo o tempo todo, e o estado mental dela é... precário.”

Ele apontou o dedo para mim, o olhar perfurante. “Não flerte com essa. Não tente usar seus encantos. Nem pense em tratar isso como uma visita social. Você vai estar lá para ser um fantasma — um escudo que ela nem precise reconhecer. Se você sequer respirar na direção dela do jeito errado, você está fora. Ficou claro?”

Olhei de novo para a foto da mulher de olhos congelados. O desafio era tentador demais.

A “Rainha de Gelo da alta-costura” parecia exatamente o tipo de quebra-cabeça que eu gostava de resolver. Se eu precisava ser profissional para salvar minha herança, eu conseguia. Mas a ideia de atravessar aquela camada de gelo? Isso era um bônus ao qual eu não conseguia resistir.

Fechei a pasta com um estalo seco e sorri para o meu irmão, o velho Julian voltando num lampejo.

“Claríssimo, Christian”, eu disse, a voz pingando confiança. “Vou me comportar da melhor forma. Prometo provar meu valor.”

Quando me virei para sair do escritório, o sorriso se abriu ainda mais. Eu já conseguia sentir a adrenalina da caçada.

Saí do escritório e entrei no corredor agitado da CESS, com o barulho da máquina corporativa vibrando ao meu redor. Eu sabia que Christian achava que estava me colocando na coleira, mas tudo o que ele tinha feito era me dar um novo alvo.

Eu não sabia quem Sia Laurent era, nem por que ela tinha tanto medo do mundo, mas eu estava prestes a me tornar a única coisa entre ela e a escuridão.

“Agora eu fiquei realmente interessado”, sussurrei para mim mesmo, com a pasta bem firme debaixo do braço.

E se eu tivesse que derreter um pouco de gelo pelo caminho, bem... isso fazia parte do serviço.

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