Capítulo 1 O PRIMEIRO SENTIMENTO DE GAEL

RELEMBRANDO OS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS...

O tempo tinha passado depressa demais.

Às vezes, eu ainda conseguia enxergar meu filho como aquele menino que corria pela casa sem se preocupar com nada, mas bastava observá-lo por alguns segundos para perceber que aquele garoto já não existia mais.

Gael havia crescido.

Primeiro veio a fase em que ele deixou de ser criança. Depois, a adolescência, cheia de descobertas, questionamentos e aquela necessidade de provar que já era independente.

Agora, aos dezoito anos, eu começava a enxergar diante de mim um homem.

E aquilo me assustava um pouco.

Não porque eu não confiasse nele.

Mas porque eu sabia que o mundo não era tão simples quanto ele imaginava.

Japa também havia percebido isso.

Por isso, quando Gael começou a falar sobre assumir responsabilidades maiores dentro da família, ela foi direta.

Se algum dia ele quisesse assumir o comando, precisaria estar preparado.

Assim como o pai havia estudado, ele também precisaria estudar.

Eu mesmo tinha cursado Administração e depois me especializado em Contabilidade. Não porque alguém tivesse me obrigado, mas porque eu sabia que conhecimento também era uma forma de proteção.

Gael não reclamou.

Pelo contrário.

Disse que, se aquela era a única exigência, faria o mesmo curso.

Aquilo nos encheu de orgulho.

Nos primeiros meses da faculdade, porém, descobrimos que os estudos não seriam a única novidade na vida dele.

Ele havia se apaixonado.

Ou, pelo menos, era isso que eu começava a suspeitar.

A garota era dois anos mais nova e vinha de uma família rica. Havia entrado na faculdade por mérito e antes mesmo do esperado, algo que chamou minha atenção imediatamente.

Japa, como sempre, foi investigar.

Não por preconceito.

Por proteção.

E o que descobrimos nos surpreendeu.

Dinheiro não faltava naquela casa.

Afeto, aparentemente, sim.

O pai e a madrasta pouco se importavam com a menina. Ela ainda tinha um irmão e uma irmã que, segundo as informações que chegaram até nós, costumavam humilhá-la.

Quando contei tudo a Gael, ele ficou sério.

Disse que já havia visto o irmão mais novo puxá-la pelo braço com força.

Meu primeiro conselho foi simples:

— Tenha cuidado. Você não namora essa garota e não pode sair se metendo em problemas por alguém que mal conhece.

Ele me respondeu com aquele sorriso de canto de boca que eu conhecia muito bem.

— Eu sou um anjo, pai. O que os olhos não veem, o coração não sente.

Eu quase revirei os olhos.

Abusado.

Tinha puxado a mãe.

E aquilo me preocupava.

Porque eu conhecia muito bem a mulher com quem havia me casado.

Japa podia ser baixinha, mas conseguia colocar medo em muita gente.

Inclusive em mim.

Eu ainda tinha amor suficiente pela vida para não querer descobrir até onde ela iria para defender alguém que amava.

Só que meu conselho durou menos de vinte e quatro horas.

Naquela noite, Gael entrou em casa sorrindo.

Não era um sorriso comum.

Era aquele sorriso de quem tinha feito alguma coisa e sabia perfeitamente que deveria contar antes que descobríssemos por outra pessoa.

Olhei para ele.

— O que você aprontou?

Ele levantou as mãos.

— Calma, coroa.

— Quando você me chama de coroa desse jeito, já sei que vem problema.

Ele riu.

Sentou-se no sofá e começou a contar.

— Eu estava passando pela faculdade tranquilo. Não estava procurando confusão com ninguém. Só que aquela menina passou por mim...

Ele fez uma pausa.

— A irmã dela veio logo atrás. Começou a rir e puxou o cabelo dela.

Meu sorriso desapareceu.

Gael continuou.

A garota carregava uma maquete enorme, provavelmente um trabalho no qual havia passado horas ou até dias trabalhando. Quando a irmã puxou seu cabelo, ela perdeu o equilíbrio e deixou a maquete cair.

Tudo se quebrou.

E, em vez de ajudá-la, a irmã começou a rir.

O irmão apareceu logo depois.

E piorou tudo.

Segundo Gael, ele ainda pisou no trabalho.

— Eu não pensei, pai. Só fui até ele.

Fiquei olhando para meu filho.

— E então?

Gael deu de ombros.

— Dei um soco nele.

Fechei os olhos por alguns segundos.

— Gael...

— Ele caiu na mesma hora.

— E a irmã?

— Começou a gritar comigo. Disse que eu era louco.

Ele fez uma pequena pausa.

— Eu só olhei para ela.

— Só olhou?

— Só.

Pelo jeito como ele falou, eu sabia que aquele olhar tinha sido suficiente.

Respirei fundo.

— E o que aconteceu depois?

— Ele quis saber por que eu tinha batido nele. Expliquei.

— Explicou?

— Com toda a paciência do mundo.

Não consegui evitar uma risada.

— Claro.

— E falei que ele e a irmã iriam refazer a maquete.

— Você obrigou os dois?

— Não.

Ele abriu um sorriso.

— Só deixei bem claro que seria melhor se fizessem.

Balancei a cabeça.

— Gael, o que você fez?

— Nada, pai. Só dei uma pequena ameaça.

— Pequena?

Ele riu.

— Relaxa, coroa. Eu não machuquei ninguém.

Fiquei sério novamente.

— Eles moram na pista.

O sorriso dele diminuiu.

— Eu sei.

— E lá as coisas podem ser resolvidas de maneira muito diferente.

— Eu sei também.

Ele se levantou.

— Ninguém sabe onde eu moro. E, se descobrirem, também não vão mexer comigo tão fácil.

Aquilo não me tranquilizou.

Muito pelo contrário.

— Sua mãe já sabe disso?

Gael ficou imóvel.

Depois respondeu:

— Eu sou jovem demais para morrer.

Ele subiu as escadas rapidamente.

Eu fiquei sentado no sofá, tentando decidir se ria ou se começava a me preocupar.

Não tive tempo para escolher.

A porta da frente se abriu com força.

Japa entrou.

— GAEL!

Meu filho parou no meio da escada.

— Desce aqui agora que eu sei muito bem que você está em casa!

Olhei para ela.

— O que aconteceu, amor?

Ela apontou para mim.

— Esse garoto justiceiro aprontou na faculdade.

Fechei os olhos.

Gael apareceu devagar.

— O que houve, mãe?

— Você me diz.

Ela segurava o celular.

— Recebi um e-mail da faculdade informando que você infringiu algumas regras. Quero saber exatamente o que aconteceu.

Gael respirou fundo.

Sentou-se.

E contou tudo.

Japa ouviu em silêncio.

Quanto mais ele falava, mais vermelha ela ficava.

Quando chegou ao final, ela respirou profundamente.

— Você tem noção da confusão que isso pode causar?

Gael abaixou os olhos.

— Tenho.

— Você tem apenas dezoito anos.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Então levantou o rosto.

E foi naquele momento que percebi que aquilo não era apenas uma história sobre uma briga na faculdade.

Meu filho estava realmente envolvido.

— Talvez eu ainda não saiba exatamente o que é amar, mãe.

A voz dele saiu diferente.

Mais baixa.

Mais sincera.

— Mas eu gosto muito dela.

Japa ficou quieta.

— Quando eu não vejo ela, fico preocupado. E quando encontro ela daquele jeito... com os olhos vermelhos, chorando... eu sinto vontade de simplesmente chegar perto e dizer que ela não está sozinha.

Ele engoliu em seco.

— Eu não sei explicar o que estou sentindo. Só sei que, quando ela sorri, parece que meu dia fica melhor.

Japa perdeu parte da dureza no olhar.

Eu também.

Porque naquele instante deixei de enxergar o garoto que havia dado um soco em outro estudante.

Vi meu filho.

Um jovem descobrindo pela primeira vez que gostar de alguém também significava se preocupar, proteger, respeitar e aprender a controlar os próprios impulsos.

Japa respirou fundo.

— Você sabe quem é o pai dela?

— Sei.

— E sabe que ele foi anunciado hoje como candidato a deputado federal?

Gael assentiu.

— Sei.

— Se alguma coisa envolvendo os filhos dele vier a público, isso pode causar problemas. E, se ele descobrir que você se envolveu com a filha dele...

— Eu não tenho medo dele.

— Não é sobre ter medo.

Japa se aproximou.

— É sobre entender as consequências.

Gael abaixou a cabeça.

— Eu só não quero que ele faça alguma coisa contra ela.

Foi quando Japa percebeu que havia algo ainda mais profundo por trás daquela preocupação.

— O que você pretende fazer?

Gael respirou fundo.

— Pedi o número dela.

Japa ergueu as sobrancelhas.

— E?

— Estamos conversando.

Ele sorriu discretamente.

— Eu quero ser sincero com ela. Não quero decidir nada por ela. Se ela quiser ficar perto de mim, eu vou estar aqui. Se não quiser, vou respeitar.

Japa permaneceu em silêncio.

— E se o pai e a madrasta expulsarem ela de casa?

A pergunta saiu mais séria.

Gael não hesitou.

— Se ela quiser e vocês permitirem, eu quero trazer ela para cá.

Japa abriu a boca, mas ele continuou.

— Não estou falando de morar comigo ou de qualquer coisa desse tipo. Somos jovens. Eu só quero que ela tenha um lugar seguro para ficar. Quero mostrar que ela não está sozinha.

Olhei para Japa.

Ela estava emocionada, embora tentasse esconder.

— Gael...

Ela se aproximou dele.

— Eu nunca vou virar as costas para você.

Ele levantou os olhos.

— Mesmo quando eu tiver vontade de te dar uns bons tapas por causa das suas decisões?

Ele sorriu.

— Principalmente nessas horas.

Ela respirou fundo.

— Eu vou lutar por você e te defender enquanto puder. Mas preciso que você entenda uma coisa.

Gael ficou atento.

— Não brinque com os sentimentos dessa menina.

Ele assentiu.

— Ela já sofreu demais.

Gael ficou alguns segundos em silêncio.

Então respondeu:

— Eu não quero brincar com ela, mãe.

Ele sorriu de leve.

— Quero ser o ponto de apoio dela.

Japa cruzou os braços.

— E depois?

O sorriso dele aumentou.

— Quem sabe, um dia, eu possa ser algo mais.

— Mais o quê?

Ele respirou fundo.

— Talvez o marido dela.

Japa arregalou os olhos.

— Garoto, eu ainda não estou preparada para essa fase.

Gael riu.

— Eu te amo, mãe.

— Vai para o seu quarto antes que eu mude de ideia!

Ele subiu as escadas rindo.

Ficamos sozinhos na sala.

Japa olhou para mim.

Eu olhei para ela.

E nós dois entendemos a mesma coisa.

Nosso filho havia crescido.

E, pela primeira vez, ele estava descobrindo o amor.

E talvez aquela fosse apenas a primeira de muitas mudanças que ainda estavam por vir.

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