Capítulo 2 A PROTEGIDA DA JAPA

GAEL NARRANDO

Eu poderia fingir que estava tudo bem.

Poderia sentar na minha cama, olhar para o teto e agir como se o tapa que minha mãe tinha me dado no dia anterior não tivesse deixado minha bochecha ardendo.

Mas seria mentira.

Minha mãe era baixinha.

Muito baixinha.

Só que aquela mulher tinha uma mão que parecia ter sido treinada por anos para acertar exatamente onde doía mais.

— Puta que pariu... — murmurei, passando a mão pelo rosto.

Eu ainda conseguia ouvir a voz dela na minha cabeça.

“Você tem noção da confusão que isso pode causar?”

Tinha.

Claro que tinha.

Só não sabia como explicar para ela que, quando eu via Mirela sofrendo, alguma coisa dentro de mim simplesmente não conseguia ficar parada.

No dia seguinte, cheguei à faculdade decidido a manter distância.

Pelo menos era o que eu tinha prometido a mim mesmo.

Durou pouco.

Assim que entrei no pátio, meus olhos encontraram Mirela.

Ela estava sentada sozinha.

Como quase sempre.

Tinha alguns livros sobre a mesa, o celular ao lado e uma expressão distante que me fez esquecer completamente a promessa que eu havia feito.

Mirela não parecia apenas triste.

Parecia cansada.

Cansada de ter que fingir que estava tudo bem.

Eu sabia que éramos jovens demais.

Talvez até imaturos demais para entender o que estava acontecendo entre nós.

Mas havia algo que meus pais sempre me ensinaram.

Algumas coisas acontecem independentemente da nossa vontade.

E, quando acontecem, não adianta correr.

Eu estava começando a descobrir que talvez aquele fosse o meu caso.

Porque eu gostava dela.

Muito mais do que deveria.

E isso me assustava.

Minha vida já tinha um caminho praticamente traçado.

Desde os quinze anos, eu vinha sendo preparado para assumir responsabilidades dentro da família. Aprendia, observava, acompanhava meu pai e escutava minha mãe.

Eu gostava daquela vida.

Queria provar que era capaz.

Queria construir meu próprio nome.

Queria, um dia, olhar para tudo aquilo e saber que tinha conquistado meu espaço.

Mas minha mãe havia colocado uma condição.

Eu só assumiria o comando depois de terminar a faculdade.

No começo achei que fosse uma tentativa de me fazer desistir.

Depois percebi que não.

Eles acreditavam em mim.

Só queriam que eu estivesse preparado.

E eu respeitava isso.

Então Mirela apareceu.

A garota mais bonita que eu já tinha visto.

Mas não era apenas a beleza.

Era o jeito como ela tentava esconder suas dores.

Era aquele sorriso pequeno quando achava que ninguém estava olhando.

Era a maneira como abaixava os olhos quando alguém levantava a voz.

Eu queria poder tirar tudo aquilo dela.

Queria abraçá-la e dizer que ninguém mais faria mal a ela.

Só que eu ainda não sabia se aquilo era amor.

Talvez fosse apenas vontade de proteger.

Talvez fosse amizade.

Talvez fosse o começo de alguma coisa que eu ainda não tinha coragem de dar nome.

Minha dúvida acabou naquele mesmo dia.

O pai dela apareceu na faculdade.

E, pelo jeito como chegou, parecia acreditar que o sobrenome e o dinheiro seriam suficientes para colocar todos em seus lugares.

A reclamação dos filhos tinha chegado até ele.

E, como um bom filho, fiz o que qualquer pessoa sensata faria.

Liguei para minha mãe.

Japa chegou pouco tempo depois.

Dentro de um carro blindado, usando salto alto, roupa impecável e aquele olhar que fazia qualquer ambiente ficar em silêncio.

Eu tinha orgulho daquela mulher.

Muito orgulho.

Ela podia ter pouco mais de um metro e meio.

Mas quando entrava em algum lugar, parecia ocupar o espaço inteiro.

Assim que entramos na diretoria, ela olhou para a família de Mirela de cima a baixo.

Eu quase ri.

Quase.

Mas conhecia minha mãe.

Se eu risse naquele momento, provavelmente levaria outro tapa.

O pai de Mirela fez questão de se apresentar pelo cargo político que havia acabado de conquistar.

Minha mãe ouviu.

Esperou.

Então apresentou o próprio sobrenome.

O efeito foi imediato.

O homem perdeu parte da confiança.

Ele conhecia aquele nome.

Todos os que circulavam nos lugares certos conheciam.

Minha mãe não precisou ameaçar ninguém.

Não precisou levantar a voz.

Bastou um olhar.

Os professores explicaram o ocorrido e decidiram dar a Mirela um novo prazo para terminar a maquete.

O pai dela não discutiu.

Saiu dali apressado, completamente diferente do homem que havia entrado.

Eu fui atrás da minha mãe.

Quando chegamos ao estacionamento, encontramos alguns estudantes tirando fotos perto do carro dela.

Minha mãe parou.

Respirou fundo.

Pegou o controle.

Apertou o botão.

O alarme disparou.

Os estudantes saíram correndo.

Eu não aguentei.

Comecei a rir.

— Você é inacreditável.

Ela me encarou.

— Está achando graça?

— Um pouco.

— Ótimo.

Ela entrou no carro.

— Tem mais alguma aula importante?

— Vou pegar carona com a senhora.

— Eu não te ofereci carona.

— Grossa.

Ela segurou o riso.

E seguimos para o morro.

Antes, porém, minha mãe precisava fazer uma entrega.

Por coincidência, o endereço ficava no mesmo condomínio onde Mirela morava.

Foi então que vimos alguma coisa estranha.

As luzes da casa estavam acesas.

Havia música.

E Mirela saiu apressada para o lado de fora.

Atrás dela vinha um homem que parecia ter bebido demais.

Meu estômago apertou.

— Mãe...

Ela já estava olhando para a cena.

— Eu também vi.

Foi então que percebi outras pessoas.

A irmã de Mirela.

Algumas amigas.

Todas com celulares nas mãos.

Minha mãe estreitou os olhos.

— Isso está com cara de armação.

— Eu também acho.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Agora entendo por que você ficou tão preocupado com essa menina.

Olhei para ela.

— Ela não merece isso.

— Não.

Minha mãe respirou fundo.

— Não merece mesmo.

Aquela foi a primeira vez que vi Japa realmente irritada.

Ela saiu do carro.

Eu fui atrás.

Não porque queria confusão.

Mas porque alguma coisa dentro de mim dizia que Mirela precisava de ajuda.

Quando chegamos perto, minha mãe assumiu a situação.

Não houve disparos.

Não houve espetáculo.

Apenas uma mulher determinada deixando muito claro que ninguém colocaria as mãos naquela garota novamente.

— Chega.

A voz dela cortou o ambiente.

Todos ficaram em silêncio.

Mirela estava chorando.

Minha mãe se aproximou dela e estendeu a mão.

— Vem comigo.

Mirela hesitou.

Depois segurou a mão dela.

Foi simples.

Mas aquele gesto mudou tudo.

Minha mãe olhou para os outros.

— Vocês podem continuar essa brincadeira se quiserem.

Ninguém respondeu.

— Mas, a partir de hoje, ela não está mais sozinha.

O pai de Mirela chegou alguns minutos depois.

Veio cheio de confiança.

Até enxergar minha mãe.

A postura dele mudou.

— Podemos conversar?

Minha mãe cruzou os braços.

— Podemos.

Ele tentou justificar a situação.

Falou sobre os filhos.

Sobre mal-entendidos.

Sobre reputação.

Minha mãe ouviu tudo.

Até perder a paciência.

— Seus filhos tentaram transformar a própria irmã em espetáculo.

Ele ficou calado.

— E você, como pai, deveria ter sido o primeiro a protegê-la.

Mirela abaixou os olhos.

Minha mãe continuou:

— A partir de agora, ela vai ficar sob a minha proteção.

O homem tentou protestar.

Minha mãe sequer piscou.

— Você pode continuar preocupado com sua candidatura. Eu vou me preocupar com a sua filha.

Ele ficou em silêncio.

Naquele momento, entendi que havia muito mais naquela mulher do que eu conhecia.

Minha mãe virou para mim.

— Gael, ajude Mirela a pegar as coisas dela.

Olhei para Mirela.

Ela parecia não acreditar.

Entramos na casa.

Quando chegamos ao quarto, percebi algo que me surpreendeu.

As malas estavam prontas.

— Você já pretendia sair daqui?

Ela abaixou a cabeça.

— Eu não tinha para onde ir.

Sua voz tremia.

— Tenho algumas economias. Mas não aguentava mais viver assim.

Olhei para as malas.

Depois para ela.

— Você não precisa passar por isso sozinha.

Ela enxugou uma lágrima.

— Obrigada.

Então sorriu.

— E sua mãe...

Ela riu baixinho.

— Sua mãe é incrível.

— Eu sei.

— Queria ter uma mãe assim.

Eu sorri.

— Ela pode ser sua amiga.

Mirela me olhou.

— Ou sua sogra?

Meu rosto esquentou.

Ela riu.

— Você é impossível.

— Estou apenas dizendo que ela gosta de você.

Ela ficou em silêncio.

Então segurou minha mão.

Foi apenas isso.

Nenhuma declaração.

Nenhum beijo.

Nada exagerado.

Apenas a mão dela dentro da minha.

E, naquele instante, eu tive certeza de que queria protegê-la, mas também queria aprender a caminhar ao lado dela.

Descemos juntos.

Minha mãe abriu o porta-malas.

Mirela olhou uma última vez para a casa.

Depois entrou no carro.

No caminho de volta, quase ninguém falou.

Ela parecia perdida nos próprios pensamentos.

Talvez estivesse tentando entender como seria sua vida dali para frente.

Depois de alguns minutos, finalmente falou:

— Obrigada por me tirarem daquele lugar.

Minha mãe olhou pelo retrovisor.

— Você não precisa agradecer.

— Mas vocês nem tinham obrigação de fazer isso.

— Talvez não tivéssemos.

Minha mãe sorriu.

— Mas agora temos.

Mirela sorriu também.

Eu olhei pela janela.

O morro estava ficando cada vez mais próximo.

E, pela primeira vez, percebi que aquela história não era apenas sobre mim e Mirela.

Havia alguma coisa acontecendo ao redor.

Alguma coisa envolvendo o passado da minha mãe.

Quando ela recebeu uma ligação, ouvi apenas algumas palavras.

— Depois conversamos sobre isso.

Desligou.

Fiquei olhando para ela.

— Mãe...

— O quê?

— Você conhecia a madrasta da Mirela?

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Já cruzamos caminhos.

— Isso significa o quê?

Ela sorriu de lado.

— Significa que você ainda tem muita coisa para descobrir sobre sua mãe.

Aquilo despertou minha curiosidade.

Eu sempre achei que conhecia meus pais.

Mas talvez não conhecesse.

Talvez existisse uma parte da história deles que nunca havia sido contada.

E, naquele momento, percebi que minha vida estava começando a mudar.

Eu estava descobrindo o amor.

Mirela estava ganhando uma nova chance.

E eu começava a descobrir que meus pais tinham vivido uma história muito maior do que eu jamais imaginei.

Talvez aquela fosse apenas a primeira página.

E, sinceramente?

Eu estava pronto para descobrir o restante.

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