Capítulo 3 JAPA
BÔNUS — JAPA NARRANDO
Ver o medo estampado no rosto daquele homem foi quase satisfatório.
Quase.
Porque, por mais que eu tivesse vontade de colocar algumas coisas no devido lugar, havia algo muito mais importante acontecendo diante dos meus olhos.
Minha protegida estava finalmente deixando aquele lugar.
Mirela vinha logo atrás de Gael, com os olhos baixos e uma expressão que misturava medo, vergonha e, talvez, um pouco de esperança.
Ela carregava poucas coisas.
Poucas demais para alguém que havia passado a vida inteira naquela casa.
Aquilo dizia muito.
O homem tentou se aproximar.
— Minha filha não pode simplesmente ir embora.
Eu parei.
Virei-me lentamente.
— E por que não?
Ele ficou em silêncio.
— Porque aqui ela tem uma família?
Dei uma risada sem humor.
— Uma família que deixou sua própria filha ser humilhada todos os dias?
Mirela abaixou ainda mais a cabeça.
Meu coração apertou.
— Você não pode questionar minha decisão agora. Durante todo esse tempo, você deveria ter sido o pai dela. Deveria ter percebido o que estava acontecendo dentro da própria casa.
Ele tentou falar.
— Eu não sabia...
— Não sabia?
Minha voz saiu mais baixa.
— Essa é a pior desculpa que poderia dar.
Ele ficou parado.
— Um pai não precisa esperar uma denúncia para perceber que a filha está sofrendo.
Não queria gritar.
Não precisava.
Eu só queria que ele entendesse que aquela menina não voltaria para aquela casa.
— Mirela está sob minha proteção agora. E eu espero sinceramente que você respeite isso.
Ele me encarou.
— Você está me ameaçando?
— Não.
Dei um pequeno sorriso.
— Estou deixando uma coisa bem clara.
Olhei para Mirela.
Depois voltei os olhos para ele.
— Ela merece paz.
Ele respirou fundo.
— E a minha candidatura?
— Isso é problema seu.
Eu não precisava destruir ninguém.
As próprias escolhas dele já tinham criado consequências suficientes.
Ele havia construído uma imagem pública de homem de família, enquanto ignorava o sofrimento dentro da própria casa.
E uma hora a verdade sempre encontrava uma maneira de aparecer.
Virei-me.
— Gael, vamos.
Meu filho pegou as últimas malas.
Mirela veio atrás.
Quando entramos no carro, olhei pelo retrovisor.
Ela estava chorando silenciosamente.
Não era um choro desesperado.
Parecia mais um choro de quem finalmente conseguia respirar depois de muito tempo.
Coloquei a mão sobre a dela.
— Está tudo bem.
Ela levantou os olhos.
— Obrigada.
Sorri.
— Ainda não me agradeça. Você vai ter que me aguentar por bastante tempo.
Ela soltou uma risada pequena.
Foi a primeira vez que vi Mirela sorrir de verdade.
E aquilo valeu mais do que qualquer discussão que eu pudesse ter vencido naquele dia.
Quando chegamos ao morro, percebi imediatamente que ela estava nervosa.
Não era difícil entender.
A vida dela tinha acabado de mudar completamente.
E agora estava entrando em um lugar completamente diferente.
Meu marido estava nos esperando.
Assim que viu Gael sair do carro com as malas, depois Mirela, ele ficou alguns segundos em silêncio.
Então olhou para mim.
— Amor...
Suspirei.
— Antes que você pergunte, sim. Temos uma novidade.
Ele olhou para Mirela.
Depois para Gael.
E finalmente voltou os olhos para mim.
— O que aconteceu?
— Longa história.
— Tenho tempo.
— Então senta.
Ele riu.
— Isso nunca é uma boa notícia.
Entramos.
Maria já havia preparado o quarto de hóspedes, exatamente como eu havia pedido por mensagem.
Mirela ficou parada na porta.
Parecia sem jeito.
— Você pode entrar — falei.
Ela entrou devagar.
Olhou para a cama arrumada, para o pequeno armário e para a janela.
— É tudo para mim?
— Claro.
Ela passou a mão pelo lençol.
— Eu nunca tive um quarto assim.
Aquilo me doeu.
Uma garota cercada de dinheiro, mas que nunca havia tido a sensação de possuir um lugar realmente seu.
— Agora tem.
Ela me abraçou.
Foi inesperado.
Por alguns segundos, fiquei parada.
Depois abracei de volta.
E percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse acabado de ganhar uma filha.
Não de sangue.
Mas de coração.
Mais tarde, quando finalmente ficamos sozinhos, meu marido me encarou.
— Então me conta tudo.
Contei.
Desde a faculdade até o momento em que encontramos Mirela naquela situação.
Ele ouviu em silêncio.
Quando terminei, pegou o celular.
— O que você está fazendo?
— Algumas ligações.
— Para quem?
Ele sorriu.
— Pessoas que podem ajudar a esclarecer algumas coisas.
Não precisei perguntar mais.
Eu sabia que ele estava pensando em tudo.
Inclusive nas consequências políticas que poderiam surgir.
Aquele homem havia construído a própria imagem em cima da palavra família.
Era curioso.
Porque, dentro da própria casa, havia deixado justamente sua filha desamparada.
Meu marido colocou o celular sobre a mesa.
— Vamos fazer tudo pelos caminhos certos.
Assenti.
— É isso que eu quero.
Ele me olhou por alguns segundos.
Então sorriu.
— Sabe o que eu estava pensando?
— Lá vem.
— Nosso filho cresceu.
Olhei para a escada.
Gael provavelmente estava conversando com Mirela.
Meu coração apertou.
— Cresceu mesmo.
— E se tornou um homem de valor.
Sorri.
— Apesar de todas as nossas falhas.
— Apesar delas.
Ele segurou minha mão.
— Acho que fizemos um bom trabalho.
Ri.
— Você acha?
— Tenho certeza.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Depois olhei para ele.
— Eu tenho orgulho da nossa família.
Ele apertou minha mão.
— Eu também.
Nossa história nunca tinha sido simples.
Tínhamos errado.
Caído.
Recomeçado.
Passado por momentos que poderiam ter nos separado.
Mas permanecemos juntos.
E agora estávamos diante de uma nova fase.
Uma nova responsabilidade.
Uma nova pessoa entrando na nossa família.
— Agora temos uma nova missão — falei.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Qual?
— Cuidar da nossa nova filha.
Ele sorriu.
— Filha?
— Por enquanto.
— E depois?
Dei de ombros.
— Nora.
Ele começou a rir.
— E daqui a pouco você vai estar falando em netos.
— Nem pense nisso.
Ele riu ainda mais.
— Gael vai adorar saber que a mãe dele está preocupada com isso.
— Eu ainda não estou preparada para ser chamada de sogra.
Ele continuou rindo.
— Muito menos de avó!
— Mulher...
Ele balançou a cabeça.
— Se Gael escutar isso, vai te perturbar pelo resto da vida.
Cruzei os braços.
— Você adora me colocar em situações difíceis.
— Eu? Jamais.
— Mentiroso.
Ele se aproximou e me abraçou.
— Eu tenho muito orgulho de você.
Meu sorriso desapareceu por alguns segundos.
— Mesmo quando eu sou exagerada?
— Principalmente quando é.
Dei um tapa leve no braço dele.
— Palhaço.
Ele beijou minha testa.
— Estou aqui.
Fechei os olhos.
— Eu sei.
— E sempre vou estar ao seu lado.
Sorri.
— Eu também.
Ficamos assim por alguns segundos.
Até ouvirmos uma voz vindo do corredor.
— Mãe?
Nos afastamos imediatamente.
Gael apareceu na porta.
Olhou para nós.
Depois estreitou os olhos.
— Vocês estavam falando de mim?
Meu marido começou a rir.
Eu respirei fundo.
— Não.
— Estavam sim.
— Vai dormir, Gael.
Ele sorriu.
— Boa noite, mãe.
— Boa noite.
Ele começou a sair.
Então voltou.
— E, mãe?
— O quê?
— Obrigado.
Meu coração apertou.
— Pelo quê?
— Por não desistir de mim.
Sorri.
— Eu nunca vou desistir de você.
Ele assentiu.
— Eu te amo.
— Eu te amo mais.
Gael saiu.
Fiquei olhando para a porta fechada.
Meu marido segurou minha mão.
E naquele momento compreendi que a vida tinha acabado de nos entregar uma nova responsabilidade.
Talvez Mirela fosse apenas o primeiro capítulo de uma nova fase.
Talvez Gael ainda tivesse muito para aprender sobre o amor.
E talvez eu também.
Mas uma coisa eu sabia.
Nossa família podia crescer de muitas maneiras.
E, independentemente do que viesse pela frente, ninguém enfrentaria aquilo sozinho.
Porque família, para mim, nunca foi apenas sangue.
Família era escolha.
Era cuidado.
Era permanecer.
E, naquela noite, eu escolhi permanecer ao lado de todos eles.
Como sempre fiz.
