Capítulo 4 COMUNIDADE
BOTA FORA — COMUNIDADE
Saboreando o prazer de estar de volta.
Porque vamos combinar?
Eu sei que vocês sentiram falta das fofocas.
E eu também.
Então, preparem o café, sentem no lugar favorito de vocês e vamos conversar, porque coisa para contar não falta.
Que eu sou praticamente cadela dos chefes, vocês já sabem.
Mas agora preciso admitir uma coisa:
O filho deles cresceu.
E, minha gente...
Gael é uma mistura perigosa de beleza, confiança, deboche e aquele sorriso que faz metade da comunidade esquecer até o que estava fazendo.
O garoto puxou os pais.
Não tem jeito.
Eu escutei por alto que o herdeiro estava acompanhado de uma mulher.
E não era qualquer mulher.
Dizem que o rapaz, tão novo, já estava com aquele olhar de quem tinha encontrado alguém especial.
Só que a menina...
Ah, a menina parecia uma gata escaldada.
Assustada.
Desconfiada.
Sempre olhando ao redor como se estivesse esperando alguém aparecer para acabar com sua felicidade.
Eu ainda não conheço todos os detalhes dessa história.
Mas, pelo que ouvi, ela parece ser a mesma jovem que começou a aparecer nas notícias.
A filha negligenciada do deputado.
Aquela história que tomou conta da internet.
O político negou as acusações, claro.
Mas as imagens e os relatos fizeram a reputação dele despencar.
Se for realmente a mesma garota, só posso dizer uma coisa:
Querida, você não poderia ter encontrado uma família melhor para te acolher.
Porque, se tem uma coisa que eu aprendi convivendo com essa gente, é que eles podem ser tudo...
Menos indiferentes com quem amam.
E falando em amor...
Eu ainda suspiro quando vejo o chefe andando pelo morro com aquela cara fechada.
Aquele homem parece ter nascido de mau humor.
Passa por você assim:
Olhar sério.
Postura firme.
Cara de poucos amigos.
A gente olha e pensa:
“Meu Deus...”
Aí passa a Japa.
E acabou o suspiro.
Porque a mulher anda por aí com aquela confiança toda e, para completar, ainda gosta de deixar bem claro que não está para brincadeira.
Eu tenho amor à minha vida.
Então, quando vejo aquela mulher andando com a arma presa à cintura, minha admiração passa rapidinho.
Bonita?
Sim.
Elegante?
Também.
Perigosa?
Com certeza.
Quero distância suficiente para continuar respirando.
Agora vamos falar de Gael.
O menino vem sendo preparado há alguns anos.
Desde cedo, acompanhando o pai, observando a mãe e aprendendo que liderança não é apenas mandar.
É responsabilidade.
É saber tomar decisões.
É entender que cada escolha tem consequência.
Mas ninguém sabe exatamente quando ele vai assumir o comando.
A Japa sempre deixou uma coisa muito clara:
Primeiro a faculdade.
Depois o resto.
E, conhecendo o filho que ela criou, tenho certeza de que ele vai seguir essa regra.
Bom...
Pelo menos ele deveria.
Porque Gael herdou o talento da mãe para desafiar limites.
E o deboche do pai.
Uma combinação perigosíssima.
Agora vamos entrar em outro assunto.
As novas moradoras.
Não vou citar nomes.
Sou fofoqueira, não sou irresponsável.
Mas dizem que algumas chegaram ao morro cheias de confiança.
Confiança demais.
Em menos de uma semana, já descobriram uma regra básica:
Não mexa com a família dos outros.
Principalmente com a família da Japa.
Porque aquela mulher pode até ignorar muita coisa.
Mas quando alguém mexe com quem ela ama...
A história muda.
O marido e o filho são preciosos demais para ela permitir que qualquer pessoa ultrapasse determinados limites.
E, aparentemente, algumas recém-chegadas ainda não entenderam isso.
Mas vão entender.
Aqui, informação circula mais rápido que notícia na internet.
E por falar em cena...
Vocês sabem que eu adoro assistir às coisas de longe.
A Japa apareceu.
Silêncio.
Todo mundo olhando.
Ela simplesmente passou pelo lugar com aquela tranquilidade de quem sabe exatamente onde está pisando.
Gael estava por perto.
E, claro, não perdeu a oportunidade de provocar.
— Mãe, passa mais forte!
Eu quase caí na gargalhada.
Esse menino não tem salvação.
Ele puxou o deboche da família inteiro.
A mãe olha para ele.
Ele sorri.
Ela revira os olhos.
E eu só penso:
“Esse garoto ainda vai dar muito trabalho.”
Mas, no fundo, dá para perceber que existe algo muito bonito entre eles.
Aquele tipo de cumplicidade que só existe quando mãe e filho realmente se conhecem.
Ela briga.
Ele provoca.
Ela ameaça tirar o celular.
Ele ri.
E, cinco minutos depois, estão juntos novamente.
Família.
É isso.
Agora vamos às notícias da pista.
O deputado resolveu aparecer.
Negou tudo.
Disse que as acusações eram exageradas.
Afirmou que tudo estava sendo distorcido.
E ainda fez algumas declarações que poderiam ser interpretadas como um recado para a Japa.
Só que...
Meu querido...
Talvez você ainda não tenha entendido com quem está mexendo.
Não estou falando de violência.
Estou falando de consequências.
Porque agora existem pessoas olhando.
Existem documentos.
Existem testemunhas.
E existe uma garota que finalmente decidiu não permanecer calada.
Você pode negar.
Pode tentar mudar a narrativa.
Pode contratar assessores.
Pode fazer discursos.
Mas não pode simplesmente apagar aquilo que aconteceu.
E a Japa?
Bem...
Ela não parece nem um pouco preocupada.
Na verdade, tenho a impressão de que está apenas esperando ele dar o próximo passo.
Então, deputado...
Escolha bem suas próximas palavras.
Porque, pelo jeito, sua tão sonhada carreira política pode ter acabado antes mesmo de começar.
E eu?
Vou continuar observando tudo de camarote.
Porque essa família ainda vai render muita história.
Tem o Gael descobrindo o primeiro amor.
Tem a Mirela tentando reconstruir a própria vida.
Tem a Japa descobrindo que pode estar prestes a ganhar uma nora.
E, se depender dela...
Uma neta ou um neto só daqui a muitos e muitos anos.
Porque, quando alguém menciona essa possibilidade, ela quase tem um ataque.
E eu confesso:
Adoro.
Então é isso, meus queridos.
Volto assim que surgir mais uma novidade.
Porque, nesta comunidade, silêncio nunca dura muito.
Beijos.
E até a próxima fofoca!
EXTRA — ENQUANTO A FOFOCA NÃO ACABA...
E como eu sei que vocês adoram uma fofoca bem contada, ainda tem mais uma coisa que eu descobri.
Mirela está começando a se adaptar ao morro.
No primeiro dia, ela praticamente não sabia onde colocar as mãos.
Andava devagar, observava tudo e parecia esperar alguém dizer que ela não poderia estar ali.
Mas ninguém fez isso.
Muito pelo contrário.
Maria cuidou dela como se já a conhecesse há anos.
Algumas mulheres da comunidade apareceram para conversar.
Uma levou roupas.
Outra trouxe produtos de higiene.
Outra apareceu simplesmente para dizer:
— Se precisar de alguma coisa, chama.
E Mirela ficou emocionada.
Porque talvez fosse a primeira vez que recebia ajuda sem que alguém esperasse alguma coisa em troca.
Gael observava tudo de longe.
Ele não queria pressioná-la.
Sabia que ela precisava de tempo.
Mas também não conseguia esconder o sorriso toda vez que ela sorria.
E foi exatamente isso que a Japa percebeu.
Ela estava na cozinha quando viu o filho parado na porta, olhando para Mirela conversando com Maria.
— Está apaixonado?
Gael quase engasgou com a água.
— Mãe!
— O quê?
— Para com isso.
Ela cruzou os braços.
— Eu só fiz uma pergunta.
— Não estou apaixonado.
Japa levantou uma sobrancelha.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Ele respirou fundo.
— Eu só gosto dela.
A expressão da mãe suavizou.
— Então cuide desse sentimento.
Gael ficou quieto.
— E cuide dela sem tentar decidir tudo por ela.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Japa sorriu.
— Então talvez eu esteja criando um homem.
— Talvez?
— Não se empolga.
Ele riu.
— Você nunca dá um elogio completo.
— Se eu der, você fica convencido.
— Já sou.
— Eu sei.
Os dois riram.
Mais tarde, Gael encontrou Mirela sentada na varanda.
Ela estava olhando para as luzes da comunidade.
Ele se aproximou.
— Posso sentar?
Ela assentiu.
Gael se sentou ao lado dela.
Por alguns minutos, ficaram em silêncio.
Não era um silêncio desconfortável.
Era tranquilo.
— Você está bem?
Mirela demorou para responder.
— Acho que sim.
— Acha?
Ela sorriu.
— É estranho.
— O quê?
— Acordar e não ter medo.
Gael ficou sério.
— Você não precisa mais ter medo aqui.
Ela olhou para ele.
— Eu sei.
— Mas também não precisa confiar em mim só porque minha família te ajudou.
Mirela sorriu.
— Eu já confio.
O coração dele acelerou.
— Confia?
— Confio.
Ela abaixou os olhos.
— Você foi a primeira pessoa que olhou para mim e perguntou se eu estava bem sem querer alguma coisa em troca.
Gael não soube responder.
Então fez a única coisa que parecia certa.
Estendeu a mão.
Mirela olhou para ela.
Depois entrelaçou os dedos nos dele.
Nenhum dos dois falou nada.
E talvez aquele tenha sido o momento mais bonito entre eles.
Não houve promessas.
Não houve declarações exageradas.
Apenas duas pessoas jovens descobrindo, aos poucos, que poderiam encontrar segurança uma na outra.
Lá dentro da casa, Japa observava pela janela.
O marido apareceu atrás dela.
— Está espionando?
— Estou cuidando.
— Claro.
Ela virou para ele.
— Nosso filho cresceu.
Ele sorriu.
— Cresceu.
— E eu não gostei disso.
— Você sabia que aconteceria.
— Eu sei.
Ela suspirou.
— Só não sabia que aconteceria tão rápido.
Ele passou o braço pelos ombros dela.
— É a vida.
Japa apoiou a cabeça nele.
— Então vamos aproveitar cada fase.
— Vamos.
E, naquela noite, enquanto Gael e Mirela conversavam na varanda, ninguém percebeu que uma nova história estava começando.
Uma história que ainda teria dificuldades.
Ainda teria medo.
Ainda teria escolhas.
Mas também teria algo que nenhum deles esperava encontrar tão cedo:
Um amor construído devagar.
Com respeito.
Com cuidado.
E com a possibilidade de, um dia, se transformar em algo muito maior.
