Capítulo 5 A RATA VOLTOU
JAPA NARRANDO
Eu estava sentada no sofá acompanhando as últimas entrevistas daquele deputado quando precisei me controlar para não jogar o controle da televisão pela janela.
O homem realmente não tinha amor à própria paz.
Depois de tudo o que havia acontecido, ainda tinha coragem de aparecer em rede nacional insinuando que estava sendo perseguido.
Perseguido.
Eu quase ri.
Era impressionante como algumas pessoas conseguiam transformar as próprias escolhas em culpa dos outros.
Ele havia negligenciado a própria filha.
Tinha permitido que a esposa e os filhos a humilhassem.
Agora que tudo começava a vir à tona, queria encontrar alguém para responsabilizar.
E, aparentemente, esse alguém seria eu.
— Esse homem está pedindo para comprar uma passagem só de ida para o problema — murmurei.
Meu marido, sentado do outro lado da sala, abaixou o celular.
— O que você pretende fazer, amor?
Olhei para ele.
— Eu já estou fazendo.
Ele conhecia aquele olhar.
— Japa...
— Relaxa.
Levantei-me.
— A rata já foi localizada.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Aquela mulher fazia parte do meu passado.
Um passado que eu preferia manter enterrado.
Durante anos, achei que nunca mais teria que olhar para aquele rosto.
Mas algumas pessoas parecem ter o dom de voltar justamente quando você finalmente encontra paz.
E ela tinha cometido um erro.
Mexeu com a pessoa errada.
Mirela não tinha culpa das escolhas dos pais.
Não tinha culpa da família em que nasceu.
E muito menos deveria pagar pelos erros dos outros.
Só que a mulher que agora ocupava o posto de esposa do deputado não era inocente.
Eu sabia.
Ela sabia.
E, em breve, todo mundo saberia.
Meu celular vibrou.
Olhei a mensagem.
— Já chegou.
Meu marido me encarou.
— A mulher?
Assenti.
— E o pessoal da pista mandou dizer que a encomenda também está subindo.
Ele suspirou.
— Você realmente não consegue ter uma semana tranquila.
— Eu tentei.
— E?
— Não funcionou.
Ele riu.
— Volta inteira.
— Sempre.
Peguei minha bolsa.
Antes de sair, voltei-me para ele.
— E não deixa o Gael se meter nisso.
— Pode deixar.
— Estou falando sério.
— Eu sei.
O galpão estava silencioso quando entrei.
Algumas pessoas conversavam mais ao fundo, mas o ambiente mudou assim que atravessei a porta.
Ela estava sentada em uma cadeira.
Quando levantou o rosto e me viu, ficou completamente imóvel.
Eu quase sorri.
Anos.
Foram anos desde a última vez que havíamos nos encontrado.
E, pelo jeito como ela me encarava, tinha certeza de que não esperava me ver novamente.
— Você...
Cruzei os braços.
— Eu mesma.
Ela se levantou rapidamente.
— Como você...
— Sobrevivi?
Dei um passo à frente.
— Digamos que você teve algumas oportunidades de terminar essa história antes da hora.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não fiz nada.
Soltei uma risada curta.
— Ainda vai insistir nisso?
— Não sei do que você está falando.
— Claro que sabe.
Aproximei-me.
— E esse sempre foi o seu problema. Você mente tão bem que começa a acreditar nas próprias mentiras.
Ela ficou em silêncio.
— Você fugiu antes que as consequências chegassem.
Continuei:
— Mudou de vida. Mudou de nome. Construiu uma imagem respeitável.
Parei diante dela.
— Casou com um homem poderoso.
Ela desviou os olhos.
— Mas não mudou quem era.
— Você não tem provas.
— Tenho memória.
Ela me encarou.
— E memória, minha querida, é uma coisa difícil de apagar.
Respirei fundo.
— Você traiu pessoas que confiavam em você.
Ela ficou pálida.
— Participou de negócios criminosos.
Silêncio.
— Vendeu informações que poderiam colocar muita gente em perigo.
Ela começou a balançar a cabeça.
— Não.
— E desapareceu quando percebeu que estava sendo procurada.
Ela respirou fundo.
— Eu fiz o que precisava fazer para sobreviver.
— Não.
Minha voz saiu firme.
— Você fez escolhas.
Ela me encarou.
— E agora está descobrindo que toda escolha tem consequência.
Nesse momento, uma porta se abriu.
Um dos homens entrou.
— Japa.
Virei-me.
— Fala.
— A situação está sendo conduzida. Ninguém vai fazer nada sem ordem.
Assenti.
Era exatamente assim que deveria ser.
Eu não queria transformar aquilo em espetáculo.
Queria que a verdade aparecesse.
E que cada pessoa respondesse pelo que fez.
Voltei a olhar para ela.
— Sabe qual é a parte mais interessante?
Ela não respondeu.
— Durante anos, você construiu uma imagem de mulher perfeita.
Sorri sem humor.
— Agora essa imagem está começando a desaparecer.
— Você não pode destruir minha vida.
— Eu não preciso.
Apontei para ela.
— Você fez isso sozinha.
Ela começou a chorar.
— O que você quer de mim?
Pensei por alguns segundos.
— Que Mirela fique em paz.
Ela ficou imóvel.
— Só isso?
— Por enquanto.
Meu celular vibrou novamente.
Olhei a mensagem.
O deputado havia acabado de dar outra entrevista.
Dessa vez, citara meu nome.
Fechei os olhos.
— Ele realmente não sabe quando parar.
O homem que estava próximo à porta perguntou:
— Quer que façamos alguma coisa?
— Não.
Guardei o celular.
— Deixem ele falar.
Todos me olharam.
— Quanto mais ele falar, mais ele mesmo vai se contradizer.
E era verdade.
Às vezes, a melhor resposta não era gritar.
Era deixar alguém falar até revelar aquilo que tentava esconder.
Quando voltei para casa, meu marido estava na sala.
— E então?
Sentei-me ao lado dele.
— Ela está viva.
— Imaginei.
— E vai responder pelo que fez.
Ele assentiu.
— E o deputado?
Peguei o controle.
— Vai continuar falando.
— Isso é bom?
Olhei para ele.
— Para nós?
Sorri.
— Muito.
Ele começou a rir.
— Você está gostando disso.
— Não.
Parei.
— Estou gostando de ver a verdade aparecendo.
Ele me conhecia bem demais.
— Claro.
— Não começa.
Ele levantou as mãos.
— Não falei nada.
Meu celular vibrou.
Olhei.
Uma nova notícia havia acabado de surgir.
O deputado faria outra declaração pública naquela noite.
— Olha só.
Meu marido se aproximou.
— O quê?
— Tem transmissão ao vivo.
Ele sorriu.
— Você quer assistir?
— É claro.
— Fofoqueira.
Olhei para ele com indignação.
— Jamais.
— Amor...
— Eu gosto de acompanhar os fatos.
Ele riu.
— Com detalhes.
— Exatamente.
A transmissão começou.
O deputado apareceu diante das câmeras.
Terno impecável.
Expressão séria.
Discurso ensaiado.
Falava sobre família.
Honra.
Responsabilidade.
Eu quase ri.
Meu marido percebeu.
— Você está bem?
— Estou ótima.
— Está com aquela cara.
— Que cara?
— A cara de quem acabou de descobrir uma fofoca excelente.
— Não é fofoca.
— Claro.
Na televisão, o deputado começou a negar as acusações.
Disse que era vítima de perseguição.
Que tudo estava sendo distorcido.
Que protegeria sua família.
Olhei para meu marido.
— Família?
Ele assentiu.
— Família.
Balancei a cabeça.
— Engraçado.
Ele segurou minha mão.
— Não deixa isso estragar sua noite.
Respirei fundo.
— Não vai.
Porque eu sabia de uma coisa.
Mirela estava segura.
Estava em casa.
Tinha um quarto.
Tinha pessoas que se importavam com ela.
E, principalmente, estava começando a descobrir que não precisava mais implorar por carinho.
Talvez fosse isso que realmente importasse.
Não o deputado.
Não a mulher do passado.
Não as notícias.
Mirela.
E Gael.
Meu filho estava descobrindo o primeiro amor.
E eu estava descobrindo que proteger meu filho também significava ensiná-lo a respeitar a pessoa que escolhesse amar.
Olhei para meu marido.
— Sabe o que é engraçado?
— O quê?
— Nosso filho começou tudo isso tentando proteger uma garota.
Ele sorriu.
— E agora?
— Agora acho que ele vai precisar aprender que proteger alguém não significa resolver a vida dela.
— Significa caminhar ao lado.
Sorri.
— Exatamente.
Na televisão, o deputado continuava falando.
Mas, pela primeira vez naquela noite, eu não estava prestando atenção.
Porque ouvi passos no corredor.
Gael apareceu.
— Mãe?
— Oi.
— Mirela perguntou se pode conversar com você.
Meu coração apertou.
— Claro.
Ele sorriu.
— Ela está no jardim.
Antes que saísse, segurei seu braço.
— Gael.
Ele olhou para mim.
— Obrigado por trazer essa menina para nossa vida.
Ele ficou sem jeito.
— Eu não fiz nada demais.
Sorri.
— Talvez ainda não perceba.
Ele assentiu.
— Eu gosto dela, mãe.
— Eu sei.
— Muito.
— Eu também sei.
Ele sorriu.
— Só não conta para ela que eu disse isso.
Comecei a rir.
— Vai logo.
Ele saiu.
Fiquei olhando pela janela.
Mirela estava sentada no jardim.
Gael se aproximou.
Ela sorriu.
Ele sentou ao lado dela.
E os dois começaram a conversar.
Meu marido apareceu atrás de mim.
— Está emocionada?
— Não.
— Está sim.
— Talvez um pouco.
Ele me abraçou.
— Nossa família está crescendo.
Olhei para os dois jovens no jardim.
— Está.
E, naquele momento, entendi que algumas batalhas não precisavam terminar com alguém destruído.
Algumas terminavam quando uma pessoa finalmente conseguia recomeçar.
E Mirela estava tendo essa chance.
Quanto ao deputado?
Ele teria que lidar com as próprias escolhas.
Sem mim precisar fazer absolutamente nada além de deixar a verdade seguir seu caminho.
E, sinceramente?
Isso era muito mais poderoso do que qualquer ameaça.
EXTRA — UMA CONVERSA NO JARDIM
GAEL NARRANDO
Encontrei Mirela sentada perto das flores.
Ela estava olhando para o céu.
— Posso?
Ela sorriu.
— Pode.
Sentei ao lado dela.
— Minha mãe queria conversar com você?
— Depois.
Ela respirou fundo.
— Eu queria falar com você primeiro.
Meu coração acelerou.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Olhou para as próprias mãos.
— Eu só queria agradecer.
— Você já agradeceu.
— Eu sei.
Ela sorriu.
— Mas ainda não encontrei uma maneira melhor de dizer.
Fiquei em silêncio.
— Quando eu estava naquela casa, achava que nunca teria coragem de sair.
Ela olhou para mim.
— Você apareceu.
— Sua vida já era sua. Eu só ajudei.
— Talvez.
Ela estendeu a mão.
Segurei.
— Mas você me mostrou que eu ainda podia confiar em alguém.
Sorri.
— Então estamos quites.
— Como assim?
— Você me mostrou que eu consigo gostar de alguém sem querer fugir disso.
Ela ficou vermelha.
Eu também.
Nenhum de nós disse mais nada.
Mas nossas mãos continuaram unidas.
E, pela primeira vez, eu não tive pressa.
Talvez amar alguém fosse exatamente isso.
Não tentar possuir.
Não tentar controlar.
Apenas permanecer.
Ao lado.
No tempo certo.
E, olhando para Mirela, eu soube que estava disposto a descobrir esse sentimento junto com ela.
