Capítulo 1 - Seraphine
A redação sempre tinha um leve cheiro de café queimado, tinta de impressora e um toque de desespero. Os telefones não paravam de tocar, os teclados batiam numa sinfonia maníaca, e sempre tinha alguém gritando por causa de um prazo que já tinha estourado fazia dez minutos. O zumbido das lâmpadas fluorescentes vibrava no teto como um enxame de abelhas furiosas, combinando com a energia nervosa que parecia presa para sempre dentro daquelas paredes.
Meu canto no meio do caos ficava espremido entre a copiadora que tossia poeira de papel e uma pilha de caixas que ninguém se deu ao trabalho de abrir desde a “reestruturação de orçamento” do ano passado. A tela do meu computador tremeluzia como se estivesse se agarrando à vida enquanto eu rolava mais uma matéria local sem sal — gatos desaparecidos, um bazar beneficente de doces, uma cerimônia de inauguração de um lava-rápido novo. O tipo de encheção que jogavam para cima de mim porque, aparentemente, eu tinha cara de “fofa e inspiradora”, não fogo para a capa.
Eu estava na metade da edição de um parágrafo sobre “barrinhas de limão caseiras por uma boa causa” quando aconteceu.
“Vale!”
O latido do meu nome estalou pela redação como um chicote. Cabeças surgiram acima das baias. A fofoca morreu no meio da frase.
Ergui os olhos e lá estava ele — o sr. Brantley, meu editor-chefe, encostado no batente da porta do próprio escritório. Os suspensórios estavam tão esticados sobre a barriga que pareciam prestes a arrebentar. O couro cabeludo brilhava sob as lâmpadas fluorescentes com gordura suficiente para temperar uma frigideira, e a gravata pendia frouxa no pescoço, como um laço que desistiu do próprio trabalho.
O homem era um fóssil ambulante de maus hábitos e opiniões piores ainda — perfumado com colônia barata, dentes amarelados e um sorrisinho que me dava arrepios.
“Sim, senhor?”, respondi, forçando a voz a não tremer.
“Escritório. Agora.”
Ele nem esperou resposta — só se virou e foi se arrastando de volta para dentro da caverna.
Alguém murmurou: “Mulher morta andando”, quando eu me levantei. Típico.
O escritório do Brantley cheirava a cada decisão ruim que ele já tinha tomado — fumaça velha de cigarro, bourbon derramado e colônia demais tentando esconder tudo. As persianas estavam meio fechadas, cortando o ambiente em faixas empoeiradas de luz. A mesa era uma bagunça caótica de jornais, embalagens de comida para viagem pela metade e uma foto emoldurada dele apertando a mão de algum político decadente.
Ele nem levantou o olhar quando entrei. “Fecha a porta.”
O clique da porta batendo atrás de mim soou definitivo.
Fiquei ali, agarrada ao meu bloco de notas como se fosse um escudo. “O senhor queria falar comigo?”
“Senta.”
Eu não sentei. Por fim, ele olhou para cima, estreitando os olhos como se eu o tivesse insultado pessoalmente só por respirar o ar dele. “Você tem implorado por algo mais sério do que bazar de docinhos, não tem?”
Hesitei. “Eu não diria implorando—”
Ele fez um gesto com a mão, me cortando. “Ótimo. Então considere isso uma intervenção divina.”
Ele se inclinou, remexeu uma pilha de pastas e deu uma batida com força, largando um fichário grosso de papel pardo sobre a mesa. As folhas tremularam, se espalhando como pássaros assustados.
“O que é isso?”, perguntei.
“Sua nova pauta.”
Dei um passo à frente, o ar espesso com a névoa de cigarro dele, e abri a pasta. Meu coração parou.
Lá dentro havia boletins de ocorrência, fotos de cenas de crime e cartazes de pessoas desaparecidas. Todas mulheres. Todas da região. Cada uma sorrindo numa foto granulada que alguém provavelmente tinha tirado pouco antes de elas sumirem.
Minha garganta secou. “Este é o caso das mulheres desaparecidas.”
“Garota esperta”, disse Brantley, recostando-se na cadeira rangente. “Você vai cobrir. Com efeito imediato.”
“Você está brincando.”
Ele arqueou uma sobrancelha. “Eu pareço estar brincando?”
Eu o examinei — testa suada, gravata torta, manchas de café na camisa. “Sinceramente? Você parece que não teve um pensamento sério desde que o Nixon renunciou.”
O sorriso dele sumiu. “Cuidado com a boca, Vale.”
Eu não recuei. “O James estava cobrindo essa matéria.” Minha voz endureceu. “Você lembra do James? O repórter que está desaparecido há três semanas?”
O dar de ombros de Brantley foi irritantemente casual. “Sim, uma pena. Mas a história ainda está quente. Alguém tem que manter isso vivo.”
“Você está me dando o caso dele?”, perguntei, incrédula. “Vai simplesmente me jogar nisso como isca?”
“Você disse que queria trabalho de verdade.” O tom dele era liso, quase entediado. “Considere isso sua chance. Prove para mim — e para todo mundo — que você é mais do que matérias leves e legendas de foto.”
“Não foi isso que eu—”
“Não foi?” Ele se inclinou para a frente, os cotovelos afundando na bagunça da mesa. “Você está pedindo por uma oportunidade desde que entrou aqui. Parabéns. Você conseguiu.”
Eu ri, seca e sem humor. “Não, o que eu consegui foi uma sentença de morte. Você não se importa com o que vai acontecer comigo.”
“Eu me importo com resultados”, ele disse simplesmente, acendendo um cigarro. “Você me traga algo que valha a pena imprimir, e eu vou me importar muito. Agora pare de choramingar e faça seu trabalho. Você queria brincar com os grandões? Pois bem — aqui está sua caixa de areia.”
A condescendência escorria de cada palavra.
Ouvir ele dizer aquilo significava duas coisas.
Primeiro: ninguém mais nessa redação era corajoso — ou idiota — o bastante para pegar a história.
Segundo: meu chefe não ligava se eu vivia ou morria.
Fechei a pasta com um estalo; o som ecoou alto no ar abafado. “Você vai se arrepender disso.”
Ele sorriu, preguiçoso. “Querida, eu já me arrependo.”
Aquilo foi minha deixa para sair antes que eu dissesse algo que me fizesse ser demitida — ou pior, presa por agressão.
Virei em direção à porta, a voz firme apesar de minhas mãos estarem tremendo. “Obrigada por esta oportunidade, senhor.”
Ele ergueu o cigarro num falso cumprimento. “Isso. Esse é o espírito. Tente não acabar na primeira página você mesma.”
A porta se fechou com um clique atrás de mim, e eu finalmente soltei o ar.
Do lado de fora, a redação continuava zumbindo como se nada tivesse acontecido. Passei pelos olhares curiosos, apertando o arquivo contra o peito como uma boia salva-vidas. Meu reflexo capturado na janela do corredor — alta, cabelo ruivo preso para trás apertado demais, sardas espalhadas pela pele clara e curvas que eu passara metade da vida tentando disfarçar sob blazers que nunca caíam direito.
Brantley via tudo isso quando olhava para mim. Não a minha ambição. Não a minha ética de trabalho. Só um corpo, ele achava, que não pertencia ao mundo dele.
E talvez isso já tivesse me incomodado. Talvez ainda incomodasse. Mas alguma coisa dentro de mim — algo quente, desafiador e furioso — se acendeu enquanto eu encarava aquela pasta parda.
Ele achava que essa tarefa ia me mastigar e cuspir fora, como fez com James. Achava que o medo me manteria no meu lugar.
Ele estava errado.
Isso já não era só uma matéria. Era a minha chance.
E, quando eu trouxesse a verdade à luz, a única coisa faltando na primeira página seria o sorriso presunçoso dele.
