Capítulo 3 - Seraphine

A boutique ficava na esquina da Fifth com a Marrow. Por fora, parecia mais um museu do que uma loja — janelas do chão ao teto, manequins posados como arte viva, cobertos de seda, couro e renda.

O sino tilintou quando entrei.

A mulher atrás do balcão ergueu o olhar e sorriu como se estivesse me esperando a manhã inteira. Era alta, loira e vestia uma saia lápis preta ajustada que provavelmente custava mais do que meu aluguel. “Bem-vinda à Velvette.” A voz dela era quente, treinada. “Primeira vez aqui?”

Hesitei, já me sentindo deslocada de jeans e um suéter enorme. “Tá tão na cara assim?”

O sorriso dela suavizou. “Só porque você está tensa demais, querida. Este lugar é para fazer você se sentir poderosa, não pequena.” Ela contornou o balcão e estendeu uma mão de unhas impecáveis. “Eu sou a Amara. O que estamos procurando hoje?”

“Algo… ousado.” Fiz uma pausa, buscando as palavras. “Algo que diga que eu pertenço a lugares onde as pessoas não acham que eu pertenço.”

As sobrancelhas dela se ergueram, interessadas. “Hmmm. Já gostei de você.” Ela gesticulou para um par de portas duplas que levavam mais para dentro da boutique. “Vem comigo. Tenho exatamente o que você precisa.”

O fundo da loja era outro mundo — luz baixa, cortinas de veludo, paredes forradas de espartilhos e vestidos que pareciam pertencer a contos de fadas proibidos.

Amara passou os dedos pelo cabideiro enquanto caminhávamos. “Me conta sobre a ocasião.”

Hesitei. “Um… clube de alto padrão. Exclusivo. Só com convite.”

O sorriso dela ficou cúmplice. “Ah. Esse tipo de clube.”

O calor subiu pelo meu pescoço. “Pode-se dizer que sim.”

“Bem”, ela disse, virando cabides, “você está em boas mãos.”

Ela puxou um vestido longo preto de couro macio e maleável. Ele abraçava perfeitamente o corpo do manequim, com um decote em V profundo que parava um pouco antes de se tornar escandaloso. “Este aqui”, disse ela, erguendo-o na minha frente, “é confiança em forma física. Molda no seu corpo como uma segunda pele.”

Engoli em seco. “Eu… não sei se tenho corpo pra isso.”

Amara inclinou a cabeça, os olhos afiados. “Você tem um corpo. Isso é tudo o que importa.” Ela apontou para um provador coberto por cortinas de veludo.

Lá dentro, a iluminação era suave e dourada, do tipo que faz até o cansaço parecer brilho. Tirei a roupa e deixei o vestido escorregar pelos ombros. No começo, era frio, liso como água. Depois apertou — modelando, definindo, enfatizando cada curva que eu normalmente tentava esconder.

Quando levantei os olhos para o espelho, mal me reconheci.

O cabelo ruivo que geralmente parecia rebelde e desalinhado agora caía como cobre derretido sobre o couro preto. Minhas sardas se destacavam como constelações contra a pele clara. Minha cintura se curvava de um jeito que eu nunca tinha me permitido admirar.

Ainda assim, os pensamentos antigos foram se infiltrando — macia demais, larga demais, demais.

Sussurrei sem querer. “Eu tô ridícula.”

A voz de Amara veio logo do lado de fora da cortina. “Você parece uma mulher que parou de pedir desculpas.”

Saí com hesitação. Ela se virou, os olhos percorrendo meu corpo, e sorriu. “Linda.”

“Linda?” repeti, desconfiada.

Ela assentiu, dando uma volta lenta ao meu redor. “E poderosa. Tá vendo essa curva bem aqui?” Ela passou a mão perto da minha cintura, sem tocar, mas perto o bastante para eu sentir o calor. “Isso não é pra esconder, meu bem. Isso é arte.”

Minha garganta apertou. “Eu não tô acostumada a me chamarem assim.”

“Então se acostume”, ela disse, simples. “Agora — vamos acrescentar opções.”

Pela hora seguinte, ela me fez experimentar peças que pareciam versões diferentes de mim mesma:

Um corpete de cetim cor de vinho combinado com uma saia de renda transparente que flutuava a cada movimento.

Um body de tule preto com gola alta e costas abertas, que fazia minha pele arrepiar com algo entre o medo e o prazer da adrenalina.

Um vestido verde-esmeralda profundo que cintilava como escamas de dragão, com uma fenda subindo por uma das coxas, o tecido grudando nos meus quadris e caindo em ondas.

Cada roupa revelava um pouco mais de algo que eu tinha esquecido que possuía — confiança, talvez. Fogo.

Quando enfim saí com a última, um modelo de veludo escuro com decote profundo e tiras com fivelas douradas na cintura, Amara apenas assobiou baixinho.

— Querida — disse ela, de olhos arregalados —, se você entrasse numa sala usando isso, as pessoas se ajoelhariam.

Eu ri, envergonhada, mas estranhamente eletrizada.

— Você acha mesmo?

Ela encontrou meu olhar pelo espelho.

— Eu sei.

Por um instante, eu vi o que ela via. Uma mulher que não pedia desculpas. Que não se encolhia. Que parecia capaz de entrar num tipo de lugar que mastiga as pessoas e sair de lá de pé — mais alta.

Mas então a dúvida voltou a se insinuar.

— E se eu ainda não pertencer?

Amara sorriu de leve, ajustando a alça no meu ombro.

— Pertencer não é algo que você pede, amor. É algo que você toma.

As palavras dela me acertaram mais fundo do que ela provavelmente pretendia.

No fim, ela entrelaçou as mãos.

— Você, minha querida, é uma deusa disfarçada. Mas… — estalou os dedos — estamos esquecendo uma coisa.

Eu pisquei.

— O quê?

— Sua armadura — ela disse. — O tipo de roupa que faz homens com o dobro da sua idade saírem do seu caminho sem saber por quê.

Antes que eu pudesse protestar, ela já estava puxando peças de outra arara. Uma blusa de seda branca bem alinhada, com um decote discreto logo acima do busto. Uma saia lápis preta de cintura alta, bem acinturada. Ela acrescentou um cinto fino de couro e um blazer grafite.

Quando ela me entregou o conjunto, eu franzi a testa.

— Isso é… muito Barbie CEO.

Amara abriu um sorriso.

— Exatamente. Agora vai.

Eu vesti, abotoando a blusa, alisando a saia pelas coxas. No instante em que me olhei no espelho, eu parei.

Foi como entrar em outra pele — essa não gritava, comandava. Minha postura se endireitou, meu queixo se ergueu. Pela primeira vez, eu não parecia apenas alguém que pertencia à redação — eu parecia alguém que mandava nela.

Amara soltou um assobio baixo quando eu saí.

— Agora sim. Essa é a mulher que consegue o que quer.

Eu sorri, apesar de mim.

— Você acha mesmo?

— Eu sei — ela disse, ajustando a gola do meu blazer. — Você tem fogo, Seraphine. Só precisava de roupas que acompanhassem. — Ela pousou a mão de leve no meu braço. — Poder não significa que você pare de duvidar de si mesma, amor. Só significa que você aprende a atravessar a dúvida mesmo assim.

Eu assenti, engolindo o nó na garganta.

— Obrigada. De verdade.

— Ainda não me agradeça — ela disse, me conduzindo até o balcão. — Eu vou melhorar seu dia.

Ela começou a passar tudo no caixa. Eu tentei não fazer careta com o total, mas Amara percebeu e me deu um sorriso.

— Sorte a sua — disse ela, digitando algo na registradora —, eu tenho desconto de funcionária. Trinta por cento.

Meus olhos se arregalaram.

— Você não precisa fazer isso.

— Eu sei — ela disse, piscando. — Mas eu quero.

Quando entreguei meu cartão, ela deslizou algo pelo balcão — um pequeno cartão de visita preto, com o nome e o número dela em dourado, em letra cursiva.

— Se você precisar de ajuda de novo — disse ela, baixinho —, ou só quiser tomar um café, me liga.

Eu sorri, de verdade dessa vez.

— Obrigada.

Ela me entregou as sacolas.

— Agora vai lá e faça as pessoas abrirem caminho quando você passar.

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