Capítulo 4 - Dante
A cidade se estendia abaixo de mim como um reino feito de vidro e fumaça. Do último andar da Vescari Global, eu conseguia ver tudo — o rio talhando a linha do horizonte, as veias pulsantes do trânsito, as torres que brilhavam como brasas na noite. Meu império. Meu território.
E, ainda assim, mesmo com a vista de um deus, paz era uma moeda que eu nunca parecia conseguir pagar.
— Deixa eu ver se entendi direito — eu disse, a voz baixa, mas afiada o bastante para cortar vidro. — Você quer construir outro clube... em território neutro.
Do outro lado da mesa estava Lucian Drayke, o próprio Rei da Tempestade, toda arrogância sob medida e olhos de relâmpago. O terno dele era impecável — seda carvão, abotoaduras em forma de raios —, mas o sorriso de canto carregava o mesmo perigo de uma lâmina.
— Território neutro, sim — ele disse, servindo-se de uma bebida do decantador do meu bar. — Um lugar para todas as famílias se misturarem sem derramar sangue. Pense nisso como... boa imagem.
— Imagem? — repeti, recostando na cadeira. O couro rangeu sob o meu peso. — Você acha que Kael Drakov dá a mínima pra imagem? Ele incendiaria o distrito inteiro se achasse que alguém está ganhando dinheiro sem cortar a parte dele.
Lucian girou o copo com preguiça.
— Você o subestima. Kael não se mexe a menos que sinta cheiro de lucro — ou de orgulho. Desde que a gente não ameace nenhum dos dois, ele fica enterrado no castelo de obsidiana dele, brincando de deus com as sombras.
Ergui uma sobrancelha.
— Você tem mais fé na contenção dele do que eu. Da última vez que alguém cruzou as fronteiras dele, ele transformou a boate do sujeito em cinzas. Com o dono ainda lá dentro.
Lucian deu de ombros.
— Lamentável, mas não foi improdutivo.
Bati a palma na mesa com força o bastante para fazer o decantador chacoalhar.
— Você não está ouvindo. O Pacto das Brasas existe por um motivo. Fogo fica em território de fogo. Tempestade fica no deles. Você quebra isso, você quebra séculos de equilíbrio.
O sorriso de canto dele sumiu, só um pouco.
— O equilíbrio já está quebrando, Dante. Você sente tanto quanto eu. Kael está ficando mais ousado — traficando essência sob o nome Drakov, comprando políticos nas minhas cidades. Ele está testando a linha. Talvez seja hora de a gente testar de volta.
Encarei-o, o maxilar tenso. Ele não estava errado. Kael vinha empurrando limites havia meses — construindo redes em silêncio, recrutando mercenários de sangue dracônico, apertando o controle sobre rotas comerciais que antes pertenciam aos Vescari. Mas começar uma guerra por território por causa de uma maldita boate? Aquilo não era estratégia. Era suicídio.
— E o que acontece quando Kael descobrir? — perguntei, a voz dura. — Ele vai tomar isso como um ato de agressão. Território neutro ou não, ele vai ver como invasão. Você conhece ele — vai queimar tudo só pra deixar claro o recado.
Lucian sustentou meu olhar, sem vacilar.
— Então deixa ele queimar. O fogo consome, sim — mas também limpa o caminho para algo novo.
Soltei o ar pelo nariz, mais fumaça do que respiração.
— Você fala como um filósofo tentando justificar incêndio criminoso.
Ele sorriu de canto.
— Melhor do que soar como um dragão com medo demais de voar.
Apertei os olhos.
— Cuidado.
Relâmpagos estalaram de leve sob a pele dele, um pulso de luz azul que ondulou pelo pescoço e sumiu.
— Não me ameace, Dante. Eu vim até você com uma oportunidade, não com guerra.
—“Oportunidade”, eu repeti, levantando da cadeira. —Você está me pedindo para construir um império sem dono no meio de um campo minado. Está me pedindo para desafiar os Drakovs fingindo que não estamos. E para quê? Para montar um bar glorificado?
Lucian também se levantou, a altura dele quase igualando a minha.
—Não é sobre o clube —é sobre influência. Território neutro significa que a gente controla quem se senta à mesa. Os humanos acham que mandam no mundo, mas nós dois sabemos que eles são só a nossa cobertura. Um lugar assim —onde dragões, máfia e mortais se misturam? A gente seria dono dessa cidade inteira nas sombras.
Ele não estava errado de novo, que inferno.
A ideia tinha mérito. Um clube neutro sob a nossa bandeira conjunta poderia mudar a dinâmica de poder —nos dar vantagem contra o estrangulamento cada vez mais apertado do Kael. Mas também pintava um alvo nas nossas costas. Um alvo que o Kael teria prazer em atingir primeiro.
Virei para a janela, observando as nuvens de tempestade se juntarem sobre a linha do horizonte.
—Se o Kael descobrir antes de estarmos prontos, ele não vai só começar uma guerra —vai transformar esta cidade numa pira funerária. Ele já suspeita que eu esteja reconstruindo minha rede depois do incêndio de Londres. Você quer entregar a ele a prova?
Lucian veio até o meu lado, o reflexo dele tremulando no vidro.
—Às vezes, para controlar a tempestade, você precisa ficar dentro dela.
Eu odiava como as palavras dele ecoavam tão fácil os meus próprios instintos.
—Pense nisso —ele continuou. —Um novo endereço da Obsidian. Escondido à vista de todos. Você cuida das operações no chão, eu cuido das finanças. A gente recruta gente discreta, cuidadosa. E, quando estiver pronto, os nomes Vescari e Drayke vão voltar a significar alguma coisa.
Encarei a cidade, o maxilar tenso.
—E se falhar?
—Então a gente queima junto.
Por um longo momento, o único som foi o zumbido baixo da cidade lá embaixo. Meu reflexo encarava de volta —cabelo escuro, mandíbula afiada, olhos da cor de bourbon e fúria. Um dragão fingindo ser homem.
Por fim, suspirei.
—Eu vou considerar.
Lucian sorriu, os dentes brilhando de branco.
—Era só isso que eu precisava ouvir.
Ele pousou o copo na minha mesa, ainda meio cheio, e pegou o casaco.
—Negócio demais para uma noite só, hein? Você devia sair desse escritório antes de se afogar nos próprios pensamentos.
—Eu estou muito bem aqui —respondi, seco.
Ele arqueou uma sobrancelha.
—Você está “muito bem aqui” há meses. Ficar remoendo não faz o mundo girar mais devagar, meu amigo. Vá ao meu clube hoje à noite —Echelon. A primeira rodada é por minha conta.
—Eu não bebo —murmurei.
—Então vá pela companhia —disse ele, com um sorriso de quem sabe demais. —Talvez você até encontre uma coisinha bonita para ajudar a aliviar esse seu temperamento de dragão. Ouvi dizer que ruivas são a sua fraqueza.
Eu lancei um olhar para ele, mas ele só riu baixinho.
—Pense nisso —Lucian disse, indo em direção à porta. —Às vezes até reis precisam ser lembrados de que estão vivos.
A porta se fechou atrás dele, deixando o escritório pesado de silêncio e com o cheiro fraco de tempestade.
Voltei a olhar pela janela, vendo relâmpagos riscarem o horizonte. A ideia de mais um clube despertou algo inquieto dentro de mim —um lampejo de tentação, ambição, perigo.
Talvez Lucian estivesse certo. Talvez eu estivesse enroscado tempo demais, segurando calor demais no peito.
