Capítulo 1 O Teste
O azulejo do banheiro está frio, e eu juro que ele fica mais frio quando a vida decide desabar de uma vez.
Eu seguro o palito do teste com tanta força que meus dedos doem, como se apertar pudesse mudar o resultado.
A luz fraca tremula, o ventilador faz um barulho chato, e lá fora a Várzea Clara segue acordada, alguém liga um som cedo demais, uma moto passa rasgando, um vizinho ri alto como se o mundo não tivesse conta pra pagar.
Eu olho uma vez.
Olho outra.
Duas linhas.
Meu estômago vira do avesso, mas não é enjoo… é medo puro, inteiro, tomando o corpo.
Eu sento no chão porque as pernas não obedecem, e a primeira coisa que penso é absurda: não pode ser hoje.
Hoje eu tenho entrevista.
Hoje eu tenho chance.
Hoje eu não podia ser a menina que repete a história da própria mãe.
Eu encosto a cabeça na porta do armário e fecho os olhos, tentando respirar devagar, como se eu tivesse controle de alguma coisa.
Só que controle sempre foi uma palavra bonita pra quem tem dinheiro.
Eu tenho é coragem… e, ultimamente, nem isso eu sei se ainda tenho.
A imagem vem sem pedir licença, como se alguém apertasse “play” dentro da minha cabeça.
O Baile do Farol.
As máscaras, os flashes, o cheiro de perfume caro misturado com o mar, e eu me sentindo deslocada em um lugar que não era meu.
Moema tinha me empurrado pra dentro daquele mundo com a alegria de quem gosta de bagunça e com o coração de quem não aguenta me ver só trabalhando e sobrevivendo.
“Vai, Vini”, ela disse, e eu nem lembro se foi olhando na minha cara ou mandando áudio com a voz dela enchendo o quarto: Vai, mulher, hoje você vai viver.
A máscara azul-petróleo era dela, emprestada, e eu quase devolvi antes de sair porque me deu vergonha de brincar de rica.
Eu lembro do toque do tecido no meu rosto e do medo de ser reconhecida por alguém que não deveria nem saber meu nome.
Eu lembro do terraço, do vento, do som abafado da festa lá dentro e de um homem que chegou perto demais como se tivesse certeza de que eu não ia recuar.
Terno cinza, presença de quem manda sem levantar a voz, e uma máscara escura que escondia metade do rosto, mas não escondia o olhar.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
Eu podia ter mentido qualquer coisa, e acho que foi isso que me deixou corajosa: ninguém ali era de verdade.
— Essa noite não importa — eu respondi, e a minha voz saiu firme, como se eu fosse uma mulher que não se apega.
A lembrança do beijo é rápida e quente, e eu odeio que meu corpo reconheça a cena enquanto minha cabeça quer apagar tudo.
O hotel, a porta fechando, o silêncio antes da pressa, e a sensação de estar fazendo algo errado e certo ao mesmo tempo, errado porque eu não sou desse tipo de risco, certo porque, por uma noite, eu parei de ser só problema e boleto.
Eu lembro do peso dele acima de mim, do jeito como ele me segurou como se eu fosse dele, e eu lembro também do detalhe que agora vira faca: a dorzinha no ombro, depois um ardor, como se ele tivesse marcado minha pele sem pensar.
Na manhã seguinte eu acordei sozinha.
Eu vi o dinheiro em cima da mesa e senti a humilhação subir quente no peito, como se ele tivesse pago por mim.
Eu não peguei.
Eu vesti minha roupa rápido, lavei o rosto, escondi a máscara, e fui embora antes que alguém abrisse aquela porta e me visse com a cara limpa.
Agora, de volta ao banheiro, eu encaro as duas linhas como se fossem sentença.
Eu não sei o nome dele.
Eu não sei quem ele é.
E, mesmo que eu soubesse, eu sei o que homens com poder fazem quando decidem que algo é deles e eu não vou deixar ninguém decidir que meu filho é propriedade.
— Vini? — a voz da minha mãe atravessa a porta, firme e cansada, do jeito que sempre foi.
— Você vai se atrasar.
Eu engulo em seco, porque eu não posso chorar agora.
Chorar gasta tempo, e tempo é luxo.
Eu me levanto com pressa, lavo o rosto, olho meu reflexo e vejo uma mulher de vinte e oito anos tentando fingir que ainda tem chão.
Eu embrulho o teste em papel higiênico como se estivesse escondendo um crime.
Abro a gaveta do armário, empurro pra trás de um monte de coisa, remédio, absorvente, uma escova velha e fecho com força.
Como se fechar a gaveta fechasse o destino junto.
— Já vou! — eu respondo alto, e minha voz sai normal demais, quase me traindo.
Eu saio do banheiro, e a casa pequena me abraça com o cheiro de café e de roupa limpa secando na varanda.
Minha mãe, Sueli Duarte, está na cozinha com a mesma cara de sempre: a cara de quem já sobreviveu a coisas que eu ainda tenho medo de encarar.
— Come. — ela empurra um pedaço de pão pra mim, sem drama, sem pergunta.
Eu amo e odeio isso nela ao mesmo tempo, porque parte de mim queria colo, e a outra parte precisa dessa firmeza pra não cair.
Meu celular vibra, e eu nem preciso olhar pra saber quem é: Moema.
Ela manda áudio cedo, tarde, no meio do plantão, no meio da vida, como se o mundo fosse uma conversa interminável.
Eu não abro.
Sueli me observa por dois segundos só dois e então desvia o olhar como se tivesse decidido me dar espaço.
— Essa vaga… — ela começa, e para, como se a frase inteira fosse grande demais.
— É a chance da nossa vida.
Eu afirmo com a cabeça e sinto uma raiva estranha subir.
Não raiva dela.
Raiva do mundo, que escolhe o pior dia pra colocar duas linhas na minha mão.
Eu pego minha bolsa gasta, confiro o currículo, ajeito o blazer antigo que ainda está impecável porque minha mãe ensinou que dignidade não depende de grife.
Na porta, eu paro por um segundo e levo a mão à barriga sem perceber.
Ainda não tem nada ali, e ao mesmo tempo tem tudo.
— Eu vou conseguir, mãe. — eu digo, e agora sim minha voz falha um pouco.
Sueli chega perto e segura meu rosto com as duas mãos, sem carinho de novela, com carinho de vida real.
— Vai. — ela responde.
Eu desço as escadas do prédio e piso na rua com o sol batendo forte cedo, e Porto Sereno parece linda e cruel como sempre.
O ônibus demora, eu conto moedas, eu prendo o cabelo, e eu decido uma coisa com uma clareza que me dá até susto: ninguém vai tirar isso de mim.
Ninguém.
A entrevista era às nove.
E eu não fazia ideia de que, naquele mesmo dia, eu ia chegar perto demais do dono do meu segredo.
