
Meu chefe é o Pai do meu bebê
Arielle Caroline · Concluído · 122.6k Palavras
Introdução
Lavínia acreditava que nunca mais veria o homem com quem viveu a noite mais intensa da sua vida. Até ser contratada pela Romano Group e descobrir que seu novo chefe é justamente o pai do bebê que carrega.
Frio, controlador e noivo da mulher perfeita, Augusto Romano não faz ideia de que será pai. Mas quanto mais se aproxima da nova funcionária, mais sente que ela esconde algo capaz de mudar sua vida para sempre.
Entre segredos, ciúmes, disputas de poder e uma gravidez inesperada, eles descobrirão que algumas verdades não podem ser enterradas.
Porque o maior segredo de Lavínia trabalha do outro lado da mesa.
Capítulo 1
O azulejo do banheiro está frio, e eu juro que ele fica mais frio quando a vida decide desabar de uma vez.
Eu seguro o palito do teste com tanta força que meus dedos doem, como se apertar pudesse mudar o resultado.
A luz fraca tremula, o ventilador faz um barulho chato, e lá fora a Várzea Clara segue acordada, alguém liga um som cedo demais, uma moto passa rasgando, um vizinho ri alto como se o mundo não tivesse conta pra pagar.
Eu olho uma vez.
Olho outra.
Duas linhas.
Meu estômago vira do avesso, mas não é enjoo… é medo puro, inteiro, tomando o corpo.
Eu sento no chão porque as pernas não obedecem, e a primeira coisa que penso é absurda: não pode ser hoje.
Hoje eu tenho entrevista.
Hoje eu tenho chance.
Hoje eu não podia ser a menina que repete a história da própria mãe.
Eu encosto a cabeça na porta do armário e fecho os olhos, tentando respirar devagar, como se eu tivesse controle de alguma coisa.
Só que controle sempre foi uma palavra bonita pra quem tem dinheiro.
Eu tenho é coragem… e, ultimamente, nem isso eu sei se ainda tenho.
A imagem vem sem pedir licença, como se alguém apertasse “play” dentro da minha cabeça.
O Baile do Farol.
As máscaras, os flashes, o cheiro de perfume caro misturado com o mar, e eu me sentindo deslocada em um lugar que não era meu.
Moema tinha me empurrado pra dentro daquele mundo com a alegria de quem gosta de bagunça e com o coração de quem não aguenta me ver só trabalhando e sobrevivendo.
“Vai, Vini”, ela disse, e eu nem lembro se foi olhando na minha cara ou mandando áudio com a voz dela enchendo o quarto: Vai, mulher, hoje você vai viver.
A máscara azul-petróleo era dela, emprestada, e eu quase devolvi antes de sair porque me deu vergonha de brincar de rica.
Eu lembro do toque do tecido no meu rosto e do medo de ser reconhecida por alguém que não deveria nem saber meu nome.
Eu lembro do terraço, do vento, do som abafado da festa lá dentro e de um homem que chegou perto demais como se tivesse certeza de que eu não ia recuar.
Terno cinza, presença de quem manda sem levantar a voz, e uma máscara escura que escondia metade do rosto, mas não escondia o olhar.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
Eu podia ter mentido qualquer coisa, e acho que foi isso que me deixou corajosa: ninguém ali era de verdade.
— Essa noite não importa — eu respondi, e a minha voz saiu firme, como se eu fosse uma mulher que não se apega.
A lembrança do beijo é rápida e quente, e eu odeio que meu corpo reconheça a cena enquanto minha cabeça quer apagar tudo.
O hotel, a porta fechando, o silêncio antes da pressa, e a sensação de estar fazendo algo errado e certo ao mesmo tempo, errado porque eu não sou desse tipo de risco, certo porque, por uma noite, eu parei de ser só problema e boleto.
Eu lembro do peso dele acima de mim, do jeito como ele me segurou como se eu fosse dele, e eu lembro também do detalhe que agora vira faca: a dorzinha no ombro, depois um ardor, como se ele tivesse marcado minha pele sem pensar.
Na manhã seguinte eu acordei sozinha.
Eu vi o dinheiro em cima da mesa e senti a humilhação subir quente no peito, como se ele tivesse pago por mim.
Eu não peguei.
Eu vesti minha roupa rápido, lavei o rosto, escondi a máscara, e fui embora antes que alguém abrisse aquela porta e me visse com a cara limpa.
Agora, de volta ao banheiro, eu encaro as duas linhas como se fossem sentença.
Eu não sei o nome dele.
Eu não sei quem ele é.
E, mesmo que eu soubesse, eu sei o que homens com poder fazem quando decidem que algo é deles e eu não vou deixar ninguém decidir que meu filho é propriedade.
— Vini? — a voz da minha mãe atravessa a porta, firme e cansada, do jeito que sempre foi.
— Você vai se atrasar.
Eu engulo em seco, porque eu não posso chorar agora.
Chorar gasta tempo, e tempo é luxo.
Eu me levanto com pressa, lavo o rosto, olho meu reflexo e vejo uma mulher de vinte e oito anos tentando fingir que ainda tem chão.
Eu embrulho o teste em papel higiênico como se estivesse escondendo um crime.
Abro a gaveta do armário, empurro pra trás de um monte de coisa, remédio, absorvente, uma escova velha e fecho com força.
Como se fechar a gaveta fechasse o destino junto.
— Já vou! — eu respondo alto, e minha voz sai normal demais, quase me traindo.
Eu saio do banheiro, e a casa pequena me abraça com o cheiro de café e de roupa limpa secando na varanda.
Minha mãe, Sueli Duarte, está na cozinha com a mesma cara de sempre: a cara de quem já sobreviveu a coisas que eu ainda tenho medo de encarar.
— Come. — ela empurra um pedaço de pão pra mim, sem drama, sem pergunta.
Eu amo e odeio isso nela ao mesmo tempo, porque parte de mim queria colo, e a outra parte precisa dessa firmeza pra não cair.
Meu celular vibra, e eu nem preciso olhar pra saber quem é: Moema.
Ela manda áudio cedo, tarde, no meio do plantão, no meio da vida, como se o mundo fosse uma conversa interminável.
Eu não abro.
Sueli me observa por dois segundos só dois e então desvia o olhar como se tivesse decidido me dar espaço.
— Essa vaga… — ela começa, e para, como se a frase inteira fosse grande demais.
— É a chance da nossa vida.
Eu afirmo com a cabeça e sinto uma raiva estranha subir.
Não raiva dela.
Raiva do mundo, que escolhe o pior dia pra colocar duas linhas na minha mão.
Eu pego minha bolsa gasta, confiro o currículo, ajeito o blazer antigo que ainda está impecável porque minha mãe ensinou que dignidade não depende de grife.
Na porta, eu paro por um segundo e levo a mão à barriga sem perceber.
Ainda não tem nada ali, e ao mesmo tempo tem tudo.
— Eu vou conseguir, mãe. — eu digo, e agora sim minha voz falha um pouco.
Sueli chega perto e segura meu rosto com as duas mãos, sem carinho de novela, com carinho de vida real.
— Vai. — ela responde.
Eu desço as escadas do prédio e piso na rua com o sol batendo forte cedo, e Porto Sereno parece linda e cruel como sempre.
O ônibus demora, eu conto moedas, eu prendo o cabelo, e eu decido uma coisa com uma clareza que me dá até susto: ninguém vai tirar isso de mim.
Ninguém.
A entrevista era às nove.
E eu não fazia ideia de que, naquele mesmo dia, eu ia chegar perto demais do dono do meu segredo.
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Última Atualização: 7/15/2026
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