Capítulo 3 Marco

Tomei mais um gole longo do uísque, sentindo o líquido queimar a garganta e estabilizar a mente, enquanto observava o trânsito pesado começando a dar nós na avenida lá embaixo.

Buzinas histéricas. Sirene de ambulância cortando o asfalto. Motoqueiros arriscando a vida no corredor. Helicóptero da polícia sobrevoando longe, fingindo que monitora alguma coisa útil. O Rio acordando pra mais um dia de mentiras organizadas, onde todo mundo finge que tá tudo bem pra não enlouquecer de vez.

Encostei os dedos compridos no vidro frio da janela. Do outro lado daquela chapa de vidro blindado existiam milhões de almas vivendo suas rotinas medíocres sem ter a menor menor noção de que suas vidas, seus empregos e a segurança dos seus filhos dependiam exclusivamente do humor de homens como eu. Homens frios, capazes de decidir com um riscar de caneta esferográfica quem vai subir na favela armado com fuzil novo, quem vai desaparecer numa mala de carro em Campo Grande e quem vai receber a proteção oficial do Estado com escolta armada e giroflex ligado.

Chega a ser poético, de um jeito bem torto e doentio. Passei metade da minha juventidade odiando com todas as forças os monstros oficiais que entraram no meu barraco e mataram o meu pai sem motivo. Estudei pra fugir daquilo. E no fim da estrada, ironia do destino, eu virei algo muito pior que eles. Muito mais letal, muito mais implacável. Mas diferente daqueles vermes ignorantes daquela operação de Natal... eu tenho método. Tenho visão macro do negócio. Eu não destruo por impulso, por raiva ou por preconceito barata. Eu organizo a violência. Administro as rotas. Governo o submundo com a precisão de um CEO de multinacional.

Fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o silêncio da cobertura ser quebrado pelo vibrar insistente do celular sobre a mesa de mármore importado. Mais mensagens criptografadas chegando. Mais crises políticas pra eu resolver. Mais gente de colarinho branco desesperada na minha linha, precisando da minha autorização, do meu aval silencioso pra conseguir respirar e continuar no cargo sem ser presa pela Federal.

Sorri sozinho para o vazio da sala. No fundo, todos eles já pertenciam ao meu portfólio de propriedade privada. O secretário covarde. O juiz corrupto que tem rabo preso comigo. Os comandantes de batalhão que recebem a caixinha semanal. Os traficantes que gerenciam os meus pontos de venda. Todos eles se curvam pro Marcola, mesmo quando acham que tão conversando com o Dr. Marco. Porque o verdadeiro poder não nasce do cano do fuzil que o garoto de quinze anos segura na laje. O verdadeiro poder nasce do medo absoluto que as pessoas têm de quem gerencia o destino da arma. E o gerente sou eu.

Abri os olhos devagar. O reflexo no vidro blindado ainda me encarava de volta no meio do clarão do sol que agora dominava a Barra. Elegante. Impecável. Controlado ao extremo. O homem mais respeitado da segurança pública do Estado. Mas bem lá no fundo das minhas pupilas dilatadas, atrás de toda essa opulência e desse terno sob medida, eu sei que ainda existe aquele menino de dez anos, ajoelhado no chão sujo de terra, limpando o sangue escuro do pai com um pano velho e uma lata de água sanitária.

Talvez seja exatamente por isso que eu nunca senti um miligrama de culpa pelas vidas que eu apaguei ou pelos impérios que eu destruí no caminho. A culpa é um luxo exclusivo de quem teve a oportunidade de escolher qual estrada trilhar. Eu não tive escolha nenhuma quando a bota da polícia quebrou a minha porta. O Rio de Janeiro também não teve escolha quando virou esse covil de hienas. E agora, com o sol alto iluminando a nossa podridão coletiva, era tarde demais pra qualquer um de nós tentar voltar atrás ou procurar redenção. O inferno é o nosso lar, e eu sou o cara que tem a chave do portão prin

cipal.

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