O Delegado Corrupto

O Delegado Corrupto

VAL VEIGA · Atualizando · 33.6k Palavras

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Introdução

O delegado Marco Duarte é a própria lei na cidade... e também o homem mais perigoso dela.
Respeitado pela imprensa, temido pelos criminosos e protegido por homens poderosos, ele construiu um império onde corrupção, violência e segredos caminham lado a lado. Ninguém toca em Marco. Ninguém o desafia. Porque todos sabem que homens como ele não perdem.
Até Diana aparecer.
Determinada a derrubar a rede criminosa que domina a cidade, a inspetora entra em um jogo muito maior do que imaginava. O problema é que, quanto mais se aproxima da verdade, mais se aproxima dele do homem frio, manipulador e irresistivelmente perigoso que parece enxergar cada fraqueza sua antes mesmo que ela perceba.
Entre investigações, ameaças, desejo proibido e traições, Diana descobre que a linha entre justiça e pecado pode desaparecer rápido demais. E se apaixonar pelo homem que deveria prender talvez seja o erro mais mortal da sua vida.

Capítulo 1

O sol estava nascendo sobre o Rio de Janeiro, mas aquela luz não tinha nada de divina. Não pra mim, parceiro.

O céu parecia aberto na faca. Um corte lento. Profundo. O vermelho daquela manhã vagabunda escorria por cima dos prédios espelhados, pelos viadutos da Linha Vermelha, pelos ônibus superlotados da Avenida Brasil, como sangue quente vazando de uma cidade que já morreu faz tempo e esqueceu de cair. O Rio é uma carcaça que finge que respira.

Fiquei parado diante da janela panorâmica da cobertura na Barra, observando a miséria e o luxo se misturarem lá embaixo enquanto segurava um copo de uísque dezoito anos ainda pela metade. O vidro blindado refletia minha imagem com uma clareza incômoda, como se eu fosse dois homens presos no mesmo corpo, disputando o mesmo espaço, a mesma carne.

O delegado Marco.

E o outro.

O verdadeiro. O Marcola.

A estrela dourada pressionava meu peito por baixo do paletó italiano perfeitamente alinhado. Três mil dólares de tecido importado tentando esconder o cheiro de pólvora e a podridão do que eu realmente sou por dentro. Já a pistola .40 customizada, presa na costela, contava a verdade sem vergonha nenhuma. Fria. Pesada. Honesta. A arma nunca mente. O ferro não sabe o que é hipocrisia. Diferente das pessoas. Principalmente as pessoas que usam o mesmo distintivo que eu ostento no cinto.

Muita gente olha pra mim e vê um herói de telejornal. O delegado linha-dura da Narcóticos. O homem que enfrenta o tráfico sem abaixar a cabeça, o paladino que bota a cara em coletiva de imprensa pra acalmar a classe média apavorada. O rosto estampado em capa de revista. O Intocável.

Chega a ser engraçado. Dá vontade de rir na cara de cada um deles.

Se esses otários soubessem o que realmente existe por trás do meu sorriso controlado, dos discursos bonitos sobre direitos humanos e das entrevistas milimetricamente calculadas... talvez corressem desesperados quando eu entrasse em qualquer sala. Talvez rezassem pra não cruzar o meu caminho. Porque o Dr. Marco é só um personagem. Uma fantasia cara de grife. Uma máscara bem costurada pra agradar político corrupto, jornalista sensacionalista e empresário safado que gosta de fingir que o Rio ainda tem solução pra continuar faturando alto.

Mas por baixo da pele bem cuidada, do perfume importado de quinhentos euros e da voz perfeitamente calma... existe o Marcola. E o Marcola não acredita em justiça. Nunca acreditou. Justiça é história pra boi dormir, utopia de quem tem estômago cheio. Eu acredito em poder. Em controle absoluto. Só isso.

Nasci no lugar errado da cidade, no barro, onde o esgoto corria a céu aberto no meio da rua e criança aprendia a distinguir o som de tiro de fuzil antes de aprender a ler o alfabeto. Minha velha lavava roupa pra madame na Zona Sul até os dedos abrirem em carne viva, voltando pra casa com o braço dormente e moedas de esmola no bolso. Meu irmão, Bento, cresceu magro, sempre calado nos cantos, olhando pro prato vazio como se tivesse vergonha da própria fome que roía suas entranhas. A gente era invisível. E o invisível só serve pra ser pisado.

Meu pai morreu quando eu tinha dez anos.

"Erro de operação". Foi exatamente essa farsa que os vermes escreveram no relatório oficial que arquivou a vida dele.

Os policiais entraram no nosso barraco de tábua chutando a porta, gritando feito bicho, quebrando o pouco que a minha mãe tinha conseguido juntar com o suor do trabalho. Diziam que procuravam o gerente da boca, que procuravam traficante. Meu pai, assustado, tentou explicar com as mãos calejadas levantadas que era pedreiro. Trabalhador. Homem de bem. Nunca teve uma passagem, nunca puxou um baseado. Não adiantou porra nenhuma. Deram um tiro no peito dele mesmo assim, à queima-roupa, sem pestanejar.

Lembro até hoje do corpo dele estirado no chão, tremendo perto do fogão velho. Minha mãe gritando até rasgar a garganta, aquele som de bicho sendo abatido. O sangue escuro descendo devagar pelo chão de madeira fuleira. E o policial? O desgraçado limpando o cano da arma na cortina encardida enquanto ria com o outro agente, fazendo piada, como se tivesse acabado de esmagar uma barata no canto da cozinha.

Naquele dia, vendo o sapato daquele cana sujo pisar na poça que saía do meu pai, eu aprendi a lição mais importante da minha vida: o homem que aponta a arma escreve a verdade. O resto? O resto é rebanho que só aceita e chora na calçada.

Ajudei minha mãe a limpar o sangue do chão usando um pano velho e uma lata de água com desinfetante barato. Eu tinha só dez anos... mas naquele exato momento, alguma coisa de vidro dentro do meu peito quebrou e morreu junto com o meu velho. Ali nasceu o monstro. Ali nasceu o ódio. E o ódio, parceiro, quando é alimentado com inteligência e cresce do jeito direito, vira a ambição mais perigosa do mundo.

Estudei como um condenado, com os dentes travados de rancor. Não porque acreditava num futuro melhor pro país, não porque queria ser o salvador da pátria ou o vingador dos oprimidos. Eu queria entender a engenharia do sistema. Queria aprender exatamente onde estavam as rachaduras, as brechas jurídicas, os pontos cegos da lei. Enquanto meus colegas de faculdade, aqueles playboys criados a leite com pera, sonhavam em mudar o mundo com discursos acadêmicos, eu passava as noites devorando o Código Penal imaginando maneiras de dobrar cada artigo, de contornar cada parágrafo sem que o meu nome aparecesse na investigação. Descobri cedo que a lei não foi feita pra proteger inocente. A lei foi escrita por quem tem poder pra proteger quem sabe usá-la contra os otários.

Entrei pra polícia jovem demais e subi rápido demais. Eu era brilhante. Frio. Disciplinado ao extremo. Nunca errava um relatório, nunca me atrasava prum plantão. Virei o exemplo de integridade. A grande promessa da corporação. O delegado perfeito que os secretários queriam do lado pra tirar foto. A imprensa adorava vender a minha história: o garoto pobre da favela que venceu a miséria através do estudo e se tornou o terror dos bandidos. Que piada maravilhosa. Eles não entendiam que eu nunca quis vencer o sistema por fora. Eu queria possuir ele por dentro. Queria ser o dono da chave da engrenagem.

Com o tempo, assumindo as chefias, comecei a enxergar a podridão inteira funcionando nos bastidores, sem maquiagem. Juiz vendendo sentença por preço de carro importado. Deputado negociando qual milícia ia dominar qual território na Zona Oeste. Coronel da PM desviando tonelada de maconha apreendida pra revender pra facção da Zona Norte. Secretário de Estado recebendo mala de dinheiro pra autorizar contrato de segurança privada de fachada. E sabe o que era o pior de tudo? Ninguém escondia mais essa merda. A corrupção no Rio já nem tentava parecer discreta ou ter vergonha. Era um organismo vivo, uma máquina gigante alimentada por rios de dinheiro, medo absoluto e montanhas de cadáveres que sumiam nos valões da Baixada.

Nesse cenário, meu irmão, ou você aceitava virar uma peça lubrificada da máquina, ou você batia de frente e era triturado, virando estatística de "policial herói falecido em combate". Eu

escolhi o controle.

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