Capítulo 4 Caveira
Eu caminho pelo Complexo da Caveira sem pressa nenhuma, parceiro. Quem corre nesse lugar ou tá fugindo dos outros... ou tá com o rabo cheio de medo. E eu não faço nenhum dos dois faz muito tempo, minha postura na pista já diz tudo.
O céu ainda tá escuro, num breu danado, mas o morro já acordou na atividade. É o som de moto subindo viela no cano serrado, rádio chiando na contenção dos acessos, cachorro latindo atrás dos barracos de tábua e aquele cheiro forte de café queimado misturado com maconha barata da braba e pólvora velha. O Rio de Janeiro nunca dorme de verdade, tá ligado? Ele só muda de vício e de tática conforme a hora do relógio.
Os menor da contenção me veem passando com o paletó de grife e já ficam retos, na disciplina, na hora.
Respeita o relíquia.
Passa a visão pro homem.
O chefe tá descendo a principal.
Tudo baixo. Tudo no sapatinho e rápido.
Eu não preciso levantar a voz ou dar grito pra ser obedecido por essa molecada. Meu nome já faz esse serviço sozinho por cada beco desse lugar. Os moleques seguram fuzil que é maior que o próprio braço deles, é bizarro. Criança armada brincando de guerra antes mesmo de aprender o que é viver de verdade no asfalto. Alguns ainda têm rosto de menino de escola, mas o brilho do olho já morreu faz tempo, virou pedra. Aqui no Complexo da Caveira ninguém cresce normal, não. Ou você aprende cedo como funciona a engrenagem do inferno... ou vira cinza e fumaça dentro dele antes dos vinte anos.
Um garoto magro, com o radinho na cintura, abaixa a cabeça quando eu passo do lado dele. Ele deve ter uns quatorze anos, no máximo. Lembro de mim mesmo exatamente naquela idade, na mesma merda. Magro. Com a fome roncando no estômago. Revoltado com o mundo inteiro e com o Estado que matou meu pai. A única diferença é que eu fui safo e aprendi rápido que gente igual nós só tem duas opções na vida: ou você manda com mão de ferro, ou obedece até morrer.
E eu nasci cansado de obedecer.
Subo os degraus de concreto do meu QG secreto enquanto dois soldados armados até os dentes abrem a passagem pra mim. Por fora, olhando da rua, parece só mais um barraco qualquer perdido no meio da favela, todo ferrado. Tijolo cru, parede mal acabada, telhado de amianto velho. Mas a aparência engana o mundo inteiro. Sempre enganou. É a minha melhor blindagem.
Lá dentro, o ar gelado do ar-condicionado de alta potência bate na minha cara assim que eu meto o pé. O piso é de mármore limpo, os monitores tão todos ligados mostrando as câmeras de alta definição espalhadas pelo complexo inteiro. Tem garrafa de uísque caro em cima da mesa de mogno e arma de grosso calibre espalhada pelos cantos da sala. Meu pequeno reino particular fortificado.
Tiro o paletó devagar, sem pressa, e jogo sobre a cadeira de couro. Depois arranco o distintivo de delegado do bolso e deixo cair em cima da mesa.
O barulho seco do metal batendo na madeira maciça me faz sorrir de leve, um sorriso cínico. Engraçado como uma peça dourada tão pequena e leve consegue controlar a vida de tanta gente e ditar o rumo da cidade. Com esse distintivo no peito, eu mando a polícia subir o morro com o caveirão e quebrar tudo. Com esse mesmo distintivo, eu mando a polícia recuar, segurar o plantão e deixar o caminho livre. Com essa farsa dourada, eu enterro inquérito, apago prova de homicídio e transformo assassino de aluguel em herói nacional na televisão. O sistema inteiro é uma puta velha. E eu aprendi exatamente em qual engrenagem tocar pra ela gemer pra mim e fazer a minha vontade.
Pego a garrafa de uísque dezoito anos e sirvo um dedo generoso no copo de cristal. Minha cabeça tá pesada hoje, parecendo um turbilhão. Não é pelo efeito do álcool, não. É pela pressão do jogo. Pela adrenalina acumulada. Pelo gosto amargo da violência que nunca sai da minha boca, não importa o quanto eu beba.
A cidade inteira, os otários que assistem jornal, acham que eu sou o maior exemplo de autoridade pública do Rio. O delegado linha-dura da Narcóticos. O homem de ferro que enfrenta facção de peito aberto. O policial incorruptível que aparece sorrindo e arrumando a gravata em coletiva de imprensa enquanto os jornalistas batem foto e
puxam o saco.
