Capítulo 5 Marco
Patético demais. Se metade daquela imprensa de merda soubesse o que eu faço e quem eu me torno depois que desligam as câmeras e apagam os refletores... provavelmente vomitava de pavor ali mesmo. Ou então, o que é mais provável no Rio, pedia sociedade no esquema pra faturar junto. Porque no fundo, meu irmão, todo mundo quer uma fatia do poder absoluto. Alguns só têm vergonha e medo da opinião pública pra admitir isso em voz alta.
Abro a gaveta secreta da mesa e pego o pino de cocaína de alta pureza. Produto puro, da escama de peixe, do melhor lote que vem direto da fronteira sem mistura pros viciados do asfalto. Essa aqui foi apreendida numa operação cinematográfica que saiu na capa do jornal na semana passada.
"Grande vitória da Polícia Civil contra o crime organizado". Quase dou uma gargalhada sozinho no escritório lembrando da manchete mentirosa. A verdade oculta é que metade da carga foi desviada pras minhas mãos antes mesmo de a viatura chegar na perícia técnica. O delegado ganha medalha de honra, o político ganha voto da classe média e eu ganho rios de dinheiro de verdade. Todo mundo fica feliz no final das contas.
Faço duas carreiras grossas sobre a superfície polida da mesa e puxo pra dentro sem pressa nenhuma, sentindo o veneno rasgar. O efeito da escama bate rápido, violento, uma descarga elétrica direto no meu córtex. Sinto meu coração acelerar igual uma metralhadora em modo automático enquanto apoio as duas mãos na madeira de mogno e fecho os olhos por um instante, deixando a mente flutuar na onda. É nessa hora exata que eu entendo por que o homem confunde poder com divindade. Porque o poder bruto faz você acreditar piamente que tá acima de tudo e de todos. Acima da lei, acima do medo de morrer, acima da culpa. Principalmente da porra da culpa, que eu já nem sei o que significa.
Tu ainda vai morrer esticado nessa merda aí, Marco.
A voz do Bento surge do nada, cortando a minha brisa feito uma navalha afiada.
Abro os olhos devagar, sentindo as pupilas dilatarem no claro. Meu irmão tá encostado perto do batente da porta de ferro, segurando o fuzil AR-15 atravessado no peito com aquela cara fechada de sempre. Olhar cansado, pesado. Ele sempre parece que tá carregando o peso do mundo nas costas, com aquele semblante de poucos amigos. O Bento nunca gostou dessa nossa vida bandida, dessa sujeira toda. Ele só ficou nessa caminhada por minha causa, por lealdade de sangue.
Bom dia pra tu também, meu irmão - respondo com a voz pausada, pegando o copo de uísque pra rebater o gosto químico da droga.
Ele balança a cabeça negativamente, com aquele descontentamento estampado no rosto calejado da rua.
Tu tá exagerando na dose, Marco. Tá perdendo a noção.
Exagerando em quê, Bento? Fala.
Em tudo, porra. Na escama, no deboche, na marra.
Dou um gole demorado na bebida sem tirar os olhos das pupilas dele, testando o limite.
Fala direito, Bento. Desembucha de uma vez.
Bento suspira pesado, soltando o ar pelo nariz antes de entrar de vez na sala e chutar a porta pra fechar.
Tu vive como se fosse invencível nessa cidade, mano. Polícia de elite de manhã na televisão, traficante sanguinário de noite no morro comandando a rota. Uma hora essa porra desmorona na nossa cabeça e o tombo vai ser feio.
Dou uma risada baixa, uma risada de puro escárnio.
Ih, tá parecendo padre agora, Bento? Vai querer confessar os meus pecados?
Tô parecendo alguém que ainda usa a cabeça pra pensar no amanhã, Marco - ele fala, apontando o dedo na minha direção com seriedade. - Tu acha mesmo que ninguém tá percebendo a movimentação? A Federal já começou a mexer os pauzinhos nas sombras. A Corregedoria tá sondando os teus nomes de fachada nos bastidores. Tu tá esticando a corda demais.
Pego o distintivo dourado em cima da mesa e fico girando a peça entre os dedos com desdém, vendo o reflexo da lâmpada no metal.
Corregedoria, Bento? Aqueles vermes só investigam quem eu permito que seja investigado pra fazer média. Minha voz sai calma, fria, cortante. - Tu ainda não entendeu a lógica da parada, Bento? Eu SOU o sistema. Eu sou o motor que faz es
sa engrenagem rodar.
