Capítulo 6 Recordação
Ele fica quieto, mudo por alguns segundos, porque no fundo ele sabe que eu tô falando a mais pura e violenta verdade das ruas. Esse é o xis da questão. Eu subi alto demais dentro da máquina pública, fiz acordo com gente poderosa demais nas sombras, comprei o silêncio de muita gente grande. Hoje tem juiz de comarca que me deve favor de vida, deputado federal que me liga de madrugada chorando pra eu sumir com BO de filho playboy e comandante de batalhão que só respira aliviado depois que eu dou a autorização do arrego. Eu me tornei um homem necessário pro mecanismo do Estado. E homem necessário quase nunca cai sozinho, porque se eu cair, eu puxo o gatilho da cúpula inteira junto comigo pro bueiro.
Vou até a janela de vidro blindado e fico observando o Complexo da Caveira lá embaixo se espalhar pelo morro. É barraco empilhado em cima de barraco, emaranhado de antena pirata gata, beco apertado que fede a esgoto. Vida humana amontoada igual lixo esquecido pelo governo que só lembra daqui em época de eleição pra comprar voto com cesta básica. Mas tá tudo funcionando perfeitamente. Tudo girando no esquema. E por que tá girando? Porque eu mantenho essa engrenagem lubrificada com o chumbo e o dinheiro. O tráfico movimenta a dinheirama grossa, o dinheiro compra o silêncio do asfalto, o silêncio sustenta a carreira do político corrupto e o político vende a ilusão de ordem pra população burra. No fundo, o Rio funciona na base da mais pura hipocrisia institucionalizada. A única diferença real é que eu cansei de fingir virtude faz tempo. Eu assumi a minha faceta de demônio.
Tu tá perdendo a mão na vaidade, Marco - Bento fala de novo atrás de mim, quebrando o meu transe. - E aquela policial nova que tu trouxe pra divisão só piorou a nossa situação.
Meu maxilar trava na mesma hora, um nó de tensão se formando na bochecha.
Diana.
Só de ouvir esse nome, o ar da sala parece que fica mais denso, mais gelado. Ela é um problema real, eu sei disso. Ela é problema porque aquela garota ainda carrega a doença de acreditar na justiça e na lei. Gente com esse olhar cheio de convicção sempre vira estorvo no meu caminho, sempre tenta ser herói onde só existe carrasco.
O que tem ela, Bento? - pergunto com a voz seca, sem me virar.
Ela tá investigando a fundo a carga de cocaína que sumiu do depósito central na semana passada. Tá fazendo perguntas onde não deve.
Dou um sorriso de canto, olhando pro vidro blindado.
Deixa a garota investigar. Gosto de ver ela trabalhando.
Tu tá subestimando a mente dela, Marco. Ela não é otária igual os teus inspetores da delegacia.
Talvez eu esteja subestimando. Talvez não. A verdade nua e crua é que a Diana me incomoda de um jeito bizarro porque ela lembra exatamente quem eu fui antes de a podridão do sistema entrar fundo nas minhas veias e anestesiar a minha alma. Ela tem o mesmo olhar cheio de convicção inabalável que eu tive um dia, a mesma vontade idiota e infantil de salvar o mundo e punir os maus. Eu conheço aquele brilho nos olhos dela porque um dia ele existiu em mim também, antes de eu ver o corpo do meu pai caído no chão da cozinha. E olha no monstro que eu me tornei hoje.
Ela ainda acredita na porra da lei, Marco - Bento insiste, batendo com o cano do fuzil no chão.
Então ela ainda é burra e ingênua.
Minha resposta sai no automático, fria, crua. Mas nem eu mesmo acredito totalmente na mentira que eu acabei de falar pro meu irmão. Porque no fundo da minha psicopatia, eu admiro a coragem suicida da Diana. É uma admiração perigosa, daquelas doentias que acabam virando obsessão na mente de um homem sem você perceber que tá ficando preso na teia. Ela tá chegando perto demais da verdade sobre o Marcola. E eu ainda não decidi se quero meter uma bala na testa dela pra resolver o problema... ou se quero quebrar o espírito dela até trazer ela pro meu lado da mesa pra dividir os lucros da traição. Talvez eu faça os dois.
Pego o copo de cristal novamente e termino o resto do uísque num gole só, sem respirar. O líquido dezoito anos desce queimando a minha garganta, anestesiando o resto de humanidade que tenta gritar.
Escuta bem uma coisa aqui, Bento. Todo mundo quebra uma hora nessa cidade, todo mundo tem um preço ou um ponto de ruptura. A única diferença real entre os homens é como cada um quebra. Uns quebram chorando, outros se vendem por migalha.
Bento me encara sério, com o semblante fechado, sem achar graça nenhuma na minha tese.
E se ela for o tipo que não quebra por nada, Marco? Se ela for direto até o fim?
Dou uma risada baixa, um som sombrio, sem humor nenhum, que ecoa pelas paredes do QG.
Então ela morre, Bento. Simples assim. Vira arquivo morto no valão da Baixada junto com os outros ratos que tentaram me peitar.
O silêncio pesado e desconfortável se instala entre nós dois na sala gelada. Lá fora, o morro continua na sua atividade frenética: começa a tocar um funk proibidão pesado em alguma laje distante, o grave fazendo a estrutura do QG vibrar de leve, moto sobe acelerando no corte de giro pelas ruelas, rádio de contenção chia na frequência dos menor. O Complexo da Caveira continua pulsando cheio de vida e morte enquanto a cidade grande lá embaixo, os prédios de luxo da Barra, fingem que essa porra aqui não existe pros mapas oficiais.
But exist, parceiro. E respira. E mata todo santo dia. E alimenta o bolso de meio Rio de Janeiro com o dinheiro do pó enquanto o político engravatado dá entrevista coletiva falando de UPP e segurança pública.
Volto os meus olhos pra janela panorâmica. Meu reflexo aparece nítido no vidro blindado de proteção. O paletó caro italiano, o olhar totalmente desprovido de qualquer rastro de empatia, o distintivo dourado brilhando na minha mão esquerda. O bandido implacável e a autoridade máxima do Estado dividindo exatamente a mesma carne e o mesmo rosto perfeito. Talvez seja isso que eu realmente me tornei no final das contas: uma mistura podre e perfeita das duas piores coisas que essa cidade pode criar.
Meu velho pai morreu em cima do próprio sangue acreditando de verdade na mentira de que a polícia existia pra proteger o inocente e o trabalhador honesto. Hoje, eu sou o cara que manda o inocente morrer na favela pra proteger o lucro do meu império clandestino. Engraçado demais como a vida gosta de sacanear e rir da cara da gente no final.
Fecho os olhos por um breve instante, sentindo a escama de peixe explodir os meus sentidos. Quando abro de novo as pálpebras, o homem no reflexo do vidro blindado parece ainda mais vazio, uma carcaça sem nada dentro. Mas o vazio também é uma forma de poder absoluto, meu irmão. Porque homem sem alma não hesita na hora de puxar o gatilho. E eu parei de hesitar faz muito tempo nessa pista. Que a Diana jogue os dados dela, porque
o dono do cassino sou eu.
