Capítulo 7 Brinquedo
O Bento esboçou um sorriso torto, aquele tipo de sorriso cínico de quem encontrou a mais divertida das piadas em um enterro requintado. Ele se dirigiu até a porta de metal reforçado que levava ao subsolo do QG, a área que apelidamos carinhosamente de Sala do Veredito, girando um molho de chaves no dedo como se manuseasse um chaveiro de boate. Apoiou o fuzil contra a parede com uma descontração calculada, deu um leve tapinha na coronha como se fosse uma namorada a ser reverenciada, e me lançou um olhar de olhos brilhantes, repletos de uma malícia travessa.
Trouxe um brinquedo novo pra você se desestressar, mano. Deixei o cara todo preparado, embrulhado como se fosse um presente grego, lá embaixo. Sabia que você ia chegar exausto do plantão, pronto para fazer um churrasco de traíra e dar um tempo nesse teatrinho de delegado comportado. O moleque é um verdadeiro comediante, tentou até me oferecer dinheiro para que eu o soltasse... dá pra acreditar?!
Senti o estalo daquela escama de peixe pura vibrando mais forte na minha nuca, uma onda gélida de euforia se misturando com a minha ânsia por destruição. Limpei o restante do pó branco que ainda me restava no nariz com o polegar, enquanto uma sensação de formigamento subia em direção ao meu cérebro. Ajustei a .40 customizada que carregava na cintura e me aproximei dele lentamente. A curiosidade se tornara um veneno doce, desses que você consome totalmente ciente de que irá viciar.
O que foi que o infeliz fez dessa vez, Bento? - perguntei, minha voz saindo como um sussurro rouco e seco, carregada de uma promessa de dor que faria até o próprio diabo implorar por clemência.
Ih, Marco, o moleque achou que era o James Bond da Zona Oeste, acredita?! - Bento começou a rir, descendo os degraus de concreto com a leveza de alguém que está indo para um parque de diversões. - O infiltrado da milícia estava se passando por morador trabalhador lá na Baixa. Sabe o que eu peguei esse Sherlock de esquina fazendo? Passando as informações da sua escala de plantão por meio do rádio! Ele achou que o Delegado de Ouro estava dando mole. Eu peguei o rádio da mão dele e falei: Coé, Batman, avisa aí que o Coringa tá indo te buscar pra jantar!.
Finalmente, chegamos ao fundo da escada. O odor de mofo, umidade e sangue seco subiu instantaneamente, atingindo meu rosto como um cumprimento de um velho amigo. No centro da sala, iluminada apenas por uma lâmpada solitária que balançava no teto por um fio descascado que soltava faíscas, estava o sujeito. Preso a uma cadeira de ferro parafusada ao chão, com um saco de estopa na cabeça, ele se debatia como um peixe fora d'água.
Ele achou que a gente era otário, Marco! - continuou Bento, dando um peteleco na orelha do cara através do saco, rindo alto. - Tava mapeando os pontos onde a sua equipe, ou melhor, onde seus fantoches fingem que estão fazendo batidas para deixar o caminho livre para nosso carregamento. O moleque é um comediante, mano! Achou que ia ganhar uma medalha do capitão da milícia, mas só ganhou uma reserva VIP no meu buffet de tortura. Olha como ele treme, parece que tá com frio, né? Dá um casaco pra ele, Marco! Ou melhor... acende o fogo!
Fui me aproximando do sujeito lentamente. Meus passos, com meu sapato italiano, ecoavam no chão úmido, um som rítmico que representava a contagem regressiva da alma dele. Eu sentia uma calma absoluta, aquela frieza glacial de quem já não tem mais nada por dentro, a não ser a vontade de ver a destruição. Arranquei o saco de estopa da cabeça dele de uma só vez, sem
aviso.
