Capítulo 2 O Castelo de Cartas

As câmeras vieram logo após a polícia, como hienas farejando as carcaças deixadas pelos leões da federal. Repórteres se aglomeravam diante da casa, empurrando microfones, se acotovelando. Um dos drones pairava acima do jardim de inverno. Outro acompanhou nosso carro por alguns metros, até Rafael entrar numa rua lateral e desaparecer no trânsito.

—Estão nos seguindo?

Rafael olhou pelo retrovisor.

—Ainda não.

—Ainda?

—A imprensa aprende rápido.

Meu celular começou a vibrar dentro da bolsa. A primeira ligação era de uma amiga da universidade. Depois vieram outras três, seguidas por uma avalanche de mensagens. Abri o Instagram e encontrei meu nome em dezenas de marcações. Alguém já havia publicado uma fotografia antiga de meu pai saindo de um restaurante. Outra postagem mostrava a fachada de nossa casa acompanhada das palavras “OPERAÇÃO CASTELO DE CARTAS.”

—Desligue — Rafael ordenou.

—Eu quero saber o que está acontecendo.

—Você vai querer descobrir dessa forma, Duda?

—Pelo menos alguém vai me contar alguma coisa do que diabos está realmente acontecendo!

Ele estendeu a mão direita.

—Entregue o aparelho.

—Você enlouqueceu, garoto?

—Seu telefone pode ser rastreado.

Hesitei. Apertei o celular contra o peito, irritada com o medo que ele acabara de colocar em mim.

—Quem estaria me rastreando?

— Neste momento, muita gente pode considerar você extremamente útil.

—Útil para quê?

—Para chegar ao seu pai.

Olhei para a rua. Brasília passava pelas janelas com sua aparência habitual: avenidas largas, árvores cobertas pela poeira da seca e prédios distantes, mesmo quando estavam próximos. Pessoas caminhavam pelas calçadas sem imaginar que meu pai estava prestes a ser arrastado para fora de casa diante das câmeras.

Entreguei o celular.

Rafael desligou o aparelho, retirou o chip e o partiu ao meio com as unhas. O estalo do plástico pareceu absurdamente alto dentro do carro.

—Você acabou de destruir meu telefone.

—Seu pai compra outro.

Diminuiu a velocidade diante de um semáforo, mas cruzou o sinal vermelho ainda assim. Arremessou o aparelho longe.

Seguimos em silêncio por alguns minutos. Eu tentava organizar as perguntas, embora todas conduzissem ao mesmo lugar.

—Para onde estamos indo?

—Para um lugar seguro.

—De quem?

—Da sua família.

—Eu já estive lá?

—Esse é o propósito de um apartamento seguro: ser secreto.

Cruzei os braços.

— E minha mãe?

— Sua mãe ficará em outro lugar.

—No Rio? Ou vindo pra cá?

—Está sendo transferida para outro lugar.

—Transferida para onde?

—Duda...

—Não use esse tom comigo, Rafa. Vocês estão me tirando de casa, destruindo meu celular e levando minha mãe para algum lugar que ninguém quer me dizer. Eu mereço saber! Eu exijo saber!

Rafael permaneceu calado por alguns segundos.

—Sua mãe está segura. Isso é tudo que importa agora.

—Para você, talvez seja. A mãe não é sua.

Ele virou o rosto para mim e falou sério:

—Para mim, manter vocês três vivos é a única coisa que importa.

Os três.

Meu pai também ainda estava incluído naquela frase. Agarrar-me a isso foi fácil, porque eu não tinha mais nada. Me agarrei com todas as forças da minha alma.

O telefone de Rafael tocou. Ele atendeu imediatamente.

—Fale.

Rafael escutou sem interromper, os olhos fixos na rua.

— Houve resistência?

Mais alguns segundos.

—Entendido.

Desligou.

—O que aconteceu?

Guardou o telefone.

—Seu pai foi preso.

A cidade desapareceu ao meu redor.

Eu sabia que aconteceria. Tinha ouvido sobre os mandados, visto os carros e o helicóptero. Ainda assim, a palavra “preso” transformava tudo. Carlo Castellano, meu pai, o homem mais poderoso que já conheci, agora estava sob custódia.

—Ele está algemado?

Rafael desviou o olhar.

A ausência de resposta bastou.

—Quero voltar.

—Não.

—Rafael, retorne esse carro agora!

—Não posso.

—Você pode fazer o que quiser. Sempre fez. Regras nunca te impediram antes.

—Hoje, não.

Tentei abrir a porta, embora o carro estivesse em movimento. Rafael segurou meu pulso antes que meus dedos alcançassem a maçaneta.

—Solte-me!

—Pare de agir feito uma criança, sem pensar.

—É o meu pai!

—E ele me deu uma ordem.

—Eu não tô nem aí pra ordem que ele te deu! Já mandei me soltar!

Rafael comprimiu a mandíbula. Seus dedos continuavam ao redor do meu pulso, quentes e firmes. Trazendo memórias, trazendo saudade.

—Hoje você é a parte mais vulnerável do império Castellano, menina.

A frase me atingiu como uma ofensa.

—Então foi isso que ele construiu? Um império onde a própria filha vira sua maior fraqueza?

—Todo homem tem alguma coisa que teme perder.

—Meu pai não tem medo de nada!

—Tem, sim. Muito. — Soltou meu braço. —Medo de perder você.

Voltei o rosto para a janela, recusando-me a permitir que ele visse meus olhos arderem em lágrimas.

O carro entrou numa garagem subterrânea de um shopping. Rafael estacionou diante de um elevador de serviço e saiu primeiro. Após verificar tudo por alguns segundos, abriu minha porta; permaneci sentada.

—Este é o esconderijo? Um shopping?

—Vamos trocar de carro.

—Por quê?

Ele olhou para o acesso da garagem. Um sedã preto acabara de entrar. Rafael puxou-me para fora e colocou o corpo entre mim e o veículo.

—Ande.

—Quem são eles?

—Não sei.

—Polícia?

—Polícia não precisa nos seguir escondida.

Entramos no elevador. Rafael apertou o botão do terceiro andar e, no último instante, pressionou também o quinto. Quando as portas se fecharam, retirou uma arma debaixo do paletó.

Meu coração disparou.

Eu já sabia que ele andava armado. Saber e ver eram coisas diferentes.

—Rafael...

—Fique atrás de mim.

O elevador parou no terceiro andar. Ele segurou a porta aberta, escutando. Nenhum som. Então me conduziu por um corredor, abriu uma porta corta-fogo e me empurrou para a escada.

Subimos até o quinto andar e atravessamos outro corredor. Um homem nos aguardava com as chaves de um segundo carro.

—Saída norte livre — informou.

Rafael entregou-lhe um telefone.

—Descubra quem estava no sedã.

Descemos pela rampa oposta e entramos num utilitário cinza com um motorista. Quando o veículo deixou a garagem, Rafael sentou-se ao meu lado e guardou a arma. Eu estava assustada.

—Isso acontece sempre com você?

—Só nos dias ruins.

—Esse dia consegue ficar pior que já está?

Ele fitou a cidade pela janela.

—É apenas o começo.

Um celular novo, ainda na caixa, estava no porta-luvas. Rafael o pegou e colocou em minhas mãos.

—Há um número salvo. Use apenas esse.

Ignorei o aviso e pesquisei as notícias. Cliquei em uma manchete sensacionalista com uma fotografia de meu pai sendo conduzido pelos agentes. A camisa amarela clara ainda estava com as mangas dobradas. Seus pulsos apareciam, unidos por algemas.

Li o título três vezes.

Naquela manhã, eu deixei de ser Duda, estudante universitária de Moda, filha mimada de um empresário bem-sucedido e princesa de uma casa à beira do lago.

Para o país inteiro, eu passaria a ser apenas a filha do prisioneiro.

Olhei desesperada para Rafael.

Ele me encarou com dureza, mas seu olhar firme me garantiu que ele morreria antes de me abandonar.

E mataria para evitar isso.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo