Capítulo 3 A Filha de um Império em Ruínas

O carro avançava por Brasília, mas meu abalo emocional dava a impressão de que permanecíamos parados no mesmo lugar. Descobri naquela manhã com a insensibilidade do mundo que impérios desabam apenas para aqueles que vivem dentro deles. Para todo o resto, a vida só continua.

Seguimos em silêncio por alguns quarteirões. O motorista conhecia um caminho que eu jamais havia percorrido, desviando das vias principais e entrando em ruas residenciais onde ninguém imaginaria encontrar a filha de Carlo Castellano. Apoiei a cabeça contra o vidro e observei as árvores do cerrado passarem lentamente. Na noite anterior, minha maior preocupação era uma prova de design de coleção da faculdade. Menos de doze horas depois, eu fugia de casa sem saber quando voltaria a ver meus pais.

—Para onde estamos indo?

—Para um lugar seguro.

—Existe mesmo um lugar seguro para nós dois agora?

Rafael demorou alguns segundos antes de responder. Continuava olhando a rua, atento a cada veículo que surgia pelo retrovisor.

—Hoje, segurança será apenas uma questão de ganhar tempo. Amanhã, veremos.

Havia qualquer coisa na forma como ele dizia aquelas frases. Não eram respostas prontas, tampouco tentativas de me consolar. Eram constatações de alguém acostumado a sobreviver em um mundo onde tudo podia mudar em poucos minutos. Pela primeira vez, perguntei-me quantas vezes Rafael já precisara abandonar uma casa às pressas, trocar de carro ou desaparecer sem deixar rastros. Eu conhecia o homem que jantava conosco aos domingos, especialmente na semana do meu aniversário de dezenove anos, onde pude conhecê-lo muito melhor do que jamais sonhei, mas talvez jamais tivesse conhecido o agente que meu pai levara quinze anos para moldar.

Entramos na garagem subterrânea de um edifício discreto na Asa Norte. Nenhuma placa identificava o condomínio, e até a portaria parecia feita para passar despercebida. O motorista estacionou próximo ao elevador de serviço, mas Rafael não abriu a porta imediatamente. Primeiro examinou os espelhos, depois observou a entrada da garagem e somente então fez um gesto para que eu saísse.

—O que houve?

Ele não respondeu. Seu olhar permanecia fixo em um sedã preto que acabara de entrar no estacionamento. Talvez fosse apenas outro morador voltando para casa. Talvez não. Bastou perceber a tensão em seu rosto para que eu compreendesse que, dali em diante, qualquer coincidência precisaria ser tratada como ameaça.

Subimos pela escada em vez de usar o elevador. Os passos ecoavam no concreto, e eu me esforçava para acompanhar o ritmo dele. Rafael não parecia nervoso; apenas concentrado. Era curioso como seu corpo inteiro mudava quando o perigo se aproximava. A postura relaxada desaparecia, os movimentos tornavam-se econômicos, sua respiração parecia mais calculada. Aquela transformação sempre me fascinara, embora eu jamais tivesse admitido isso em voz alta. Se bem que, segundo ele, naquela noite de festança regada a tequila eu admitira muitas coisas.

Um ano antes, eu havia descoberto que existia um homem por trás daquele profissional impecável. Ele não decidiu baixar a guarda, eu a atravessei. Muralhas inexpugnáveis se tornaram muretinhas de casa de praia ante meus pés. Ainda consigo recordar a expressão de culpa que tomou seu rosto imediatamente após nosso momento juntos, como se o verdadeiro pecado não tivesse sido esquecer naquela ocasião quem ele era e quem eu deveria ser para ele.

Desde então, jamais voltamos a tocar no assunto. O silêncio transformou aquela noite numa fronteira invisível entre nós, e ambos fingimos durante meses que ela nunca existiu, como bons hipócritas que somos.

Entramos juntos em mais um apartamento, sozinhos, poucos minutos depois. O imóvel era pequeno, mobiliado apenas com o essencial e cuidadosamente impessoal. Não havia fotografias, livros ou qualquer objeto capaz de denunciar quem costumava frequentá-lo. Parecia um apartamento de aluguel por temporada. Sobre a bancada da cozinha descansavam duas garrafas de água mineral. Meu pai preparara aquele esconderijo muito antes de precisar dele e o deixara assim, intocado. A constatação apertou meu peito.

—Há quanto tempo ele sabia que isso poderia acontecer?

Rafael fechou a porta, conferiu todas as janelas e só então respondeu.

—Seu pai sempre se preparou para o pior cenário. Você sabe disso.

—Ele não previu meu comportamento.

Ele voltou os olhos para mim.

—Ninguém seria capaz de prever você, Duda.

Ri sem vontade, mas achando graça real. A resposta fazia sentido, mas não diminuía a sensação de ter sido mantida dentro de uma redoma enquanto o restante da família aprendia a sobreviver à guerra.

Caminhei até a janela e afastei levemente um pedacinho da cortina, sabendo que se fizesse mais que isso Rafa iria brigar. Lá fora, crianças brincavam na quadra do prédio e um casal discutia onde estacionar o carro.

—Você já sabia? — Sussurrei.

—Sim.

—Há quanto tempo?

O silêncio dele respondeu antes das palavras.

Fechei os olhos por um instante. Senti os olhos dele sobre mim. Não estava zangada apenas porque ele já sabia da investigação. Doía perceber que todos ao meu redor haviam aprendido a esconder pedaços da verdade para me proteger. Meu pai. Minha mãe. Rafael. Talvez todas as pessoas que viviam e trabalhavam naquela casa.

—Deve ter sido difícil olhar para mim todos os dias fingindo que nada estava acontecendo.

—Foi.

A sinceridade me fez virar imediatamente.

Ele permanecia próximo à porta, ainda de paletó, pronto para sair novamente a qualquer instante. Nossos olhares se encontraram por tempo suficiente para que eu percebesse o cansaço e a tensão escondidos sob sua habitual serenidade. Pela primeira vez em muitos meses, não vi apenas o homem que cumpria ordens de Carlo Castellano. Vi Rafael. Meu Rafa.

Estávamos sozinhos, escondidos do mundo. Recordei o cheiro de seu perfume e respirei bem fundo, tentando sentir. Estava logo ali, há três passos, misturado com preocupação e suor. Algumas memórias sobrevivem porque o corpo insiste em guardá-las quando a razão prefere esquecê-las.

—Você ainda pensa naquela noite?

Rafael baixou os olhos por um breve momento.

—Todos os dias.

Meu coração respondeu antes da minha voz.

Num gesto impensado, investi e agarrei seu rosto com as mãos, devorando sua boca com meus lábios. Já havíamos cruzado esse limite antes: conhecíamos os caminhos entre nossos corpos.

Ele me beijou de volta, com sofreguidão de um desejo contido por meses. Sua boca abriu caminhos de volta na minha língua empurrando, hálito ardendo, olhos fechando para ampliar sensações e preservar o momento. Minhas mãos agarrando a gola da camisa, as dele o meu rosto e pescoço. O gosto dele era de adrenalina e saudade voraz. Essas mãos incríveis estão em mim agora e eu não consigo pensar em mais nada.

Uma batida forte na porta interrompeu o momento.

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