Capítulo 4 Capítulo 04
Melissa . . .
20h12 . . .
Deslizo o batom sobre os lábios, pintando-os de vermelho. Me olho no espelho e gosto do resultado: pele bem preparada, delineado e cílios postiços — o batom foi o toque final que fez tudo se destacar. Aah, quase esquecia: passei iluminador. Se não for pra brilhar igual um vagalume, nem passo.
Vesto o body, prendo o fecho e subo o short jeans pelas pernas, ajeitando no quadril. Olho no espelho pra ver se ficou bom: hoje optei por um body rendado preto e short jeans de lavagem escura — um cinto prateado dá o charme que faltava. Até mais cedo pensei em ir de vestido, mas sei que ficaria desconfortável pra dançar, sem contar o medo de levantar a saia e os olhares maliciosos… Não, obrigada.
— Que mulherão! — Falo pra mim mesma no espelho. — Me pegava, foda-se.
Pego o celular: 20h40. Peço um Uber que chega em cinco minutos. Calço os saltos — talvez amanhã acorde com os pés doendo, mas faz tempo que não os uso. E quando os calço, me sinto poderosa. Estranho? Talvez. Mas fico uma bela de uma gostosa assim. Borrifo perfume pra finalizar — passei hidratante antes de começar a me maquiar.
Coloco documento e dinheiro na capinha do celular. Detesto levar bolsa, tudo vai ali mesmo. Desligo as luzes, tranco a porta e deixo a chave debaixo do vaso de flores — não vou arriscar perder a chave bebendo.
Entro no elevador e aperto o térreo.
— Boa noite, Márcio. — Digo ao porteiro.
— Boa noite, Melissa! Já vai aproveitar a vida, né? — Brinca, me fazendo rir.
— Tem que ir, né?
— Isso mesmo, menina. Aproveita bastante.
— Pode deixar. — Sorrio e saio do prédio.
O Uber já chegou. Entro no carro e me acomodo no banco de trás.
— Boa noite. — Fecho a porta.
— Boa noite. — Responde, dando partida. — Comunidade da Maré, é isso mesmo? — Confirmo com um murmúrio.
No caminho, troco mensagens com Gabriel. Vou chegar um pouquinho atrasada. Falo pra ele ir na frente que nos encontramos lá — sábado, trânsito tá uma confusão. Faço um boomerang e deixo pra postar depois.
Uns vinte minutos depois, o motorista para em frente à barreira. Vejo alguns homens ao longe.
— A senhorita tem certeza que é aqui? — Me pergunta pelo retrovisor.
— Absoluta. — Entrego o dinheiro. — Boa noite.
— Boa noite. Toma cuidado, aqui é perigoso. — Fala antes que eu saia.
O perigo sou eu.
Não acredito que vou ter que subir esse morro de salto. Respirei fundo e fui. Ao me aproximar da barreira, vejo quatro homens armados.
— Boa noite. — Passo por eles, sem esperar resposta. Não vou andar depressa, não com esses saltos. Gabriel que espere. Vou no meu ritmo, sentindo olhares — de homens e de mulheres. Deixo pra lá. Uma moto para ao meu lado e eu recuo.
— Assustou, princesa? — Lipe pergunta, rindo.
— Puta que pariu, que susto! — Coloco a mão no peito.
Lipe é amigo que fiz quando morava aqui, amigo de Relíquia.
— Achou que era quem? — Apoia o pé no chão.
— Sei lá, nem pensei direito. Achei que era bandido de verdade… quer dizer, não que você seja de mentira e… ah, você entendeu. — Ele ri, concordando.
— Tá fazendo o quê por aqui? Mó cota que tu não aparece.
— Vim pro baile.
— Desse jeito, cê não chega tão cedo não. Bora que eu te levo.
Não preciso que diga duas vezes. Subo na moto com cuidado, graças aos saltos. O que levaria uma eternidade, fiz em três minutos.
— Obrigada. — Ele me ajuda a descer. — Você não vai?
— Tenho que passar no barraco antes.
Agradeço de novo — me poupou de uma bela caminhada. Provavelmente o vejo mais tarde. Entro na quadra fechada e vejo Gabriel me esperando, rebolando. Combinei de nos encontrarmos ali.
— Que mulher é essaaaa! — Me abraça. — Senti o poder de longe.
— Aiin, paraa, fico com vergonha. — Me faço de tímida. — Você também tá lindo!
Não é por ser meu amigo, mas Gabriel é muito bonito.
— Demorou tanto que já tô quase acabando meu copo. — Ergue o dele e me entrega outro cheio.
Gente, desde quando ele tava com esses copos? Nem vi!
— O trânsito tava caótico. — Explico, bebendo um gole.
Quando saímos do corredor, a música bate forte — o baile tá cheio. É nessa hora que começa a ficar bom. Quanto mais tarde, melhor.
— Chegamos na hora certa! — Gabriel brinda. — Vamo de brinde pra começar a noite.
— Que comece a farra! — Brindo, rindo.
“SE DESCOBRE QUE EU SOU BANDIDO, ELA JOGA COM FORÇA QUERENDO ME DAR.” — Biel canta do nada, rebolando no meio do caminho.
— “AIII GABRIEL, QUE DÁ PROS AMIGUIM DA BOCAA.” — Canto junto, seguindo os movimentos.
Fomos até o meio da multidão e achamos um lugar bom. Viro o whisky que ele me deu.
— Aaah não, essa eu tenho que dançar! BOTA A MÃO NA PAREDE!
Coloco a mão no joelho e desço junto com ele, sincronizada.
— QUE ISSO, AMOR! — Gritamos juntos.
E aqui estamos nós, indo pro segundo balde de cerveja.
— Amiga, olha quem chegou. Disfarça e olha pra escada do camarote, pelo amor de Deus, não vira igual ao Exorcista. — Biel cochicha no meu ouvido.
Rio e disfarço, ajeitando o cabelo. Olho lá pra cima e reconheço Relíquia de costas. Uma loira está na frente dele — parece bonita. Os dois sobem as escadas. Dou de ombros e volto pro Gabriel.
— E aí, bicha. — Imito o meme. — Bora dançar.
Fazia tempo que não curtia um baile assim com ele. Rebolo sentindo Biel sarrar em mim — quem olha, acha que somos casal. Pelo menos até ele abrir a boca. O beat aumenta e ele grita, me incentivando ainda mais. . .
(...)
01h11 . . .
Duas amigas de Gabriel se juntaram a nós — agora somos quatro. Não parei um minuto se quer de dançar, disposição é o que não me falta.
— Vamo no banheiro rapidinho. — As duas avisam. Faço um joinha e continuo rebolando.
Sinto que estou sendo observada. Olho pros lados e meus olhos encontram os dele — Relíquia está apoiado na grade. Desvio o olhar e viro o resto da cerveja.
Biel tá no maior flerte com um garoto, dá pra ver a fumaça saindo. Gabriel e seu famoso fogo no rabo… Já tô vendo ele me abandonar. Tô distraída quando um rapaz chega, noto a arma na cintura. Senhor, Deus é mais!
— Firmeza? Relíquia quer bater um papo contigo. — Ele segura um baseado entre os dedos.
Penso uma, duas, três. Não tô fazendo nada mesmo, Gabriel já tá ocupado… E a curiosidade é grande.
— Só um minuto. — Chego perto dele. — Vou ali rapidinho. — Falo no ouvido, por causa da música. Ele entende e concorda.
Sigo o rapaz até o camarote.
— Tá comigo. — Ele avisa aos seguranças e ninguém me impede de subir. — Aí, chefia. Tá entregue. — Aponta pra mim. Relíquia acena.
Varro o local com os olhos — cadê a loira? Não quero confusão, ainda mais por homem. Deus me livre! Especialmente quando o homem é Relíquia, que não vale nada.
— Fala. — Apoio a mão na grade.
— Tô tranquilo também, bom que tu perguntou. — Debocha, apagando o baseado.
Agradeço mentalmente por ele apagar — o cheiro me dá dor de cabeça.
— Tô falando sério, Relíquia. — O encaro. — Me chamou aqui pra quê?
— Achei que tu não ia vir. — Ignora minha pergunta.
— Nem eu sabia que ia. — Admito, sentindo o olhar dele em mim. — Gabriel me chamou hoje mais cedo.
— Meu convite tu ignora. — Olha pro copo. — Tudo certo, Melissa. — Bebe o que parece ser whisky.
— Você não me “convidou”. — Faço aspas com os dedos. — Que eu me lembre, disse só “cola lá na comunidade”. Convite é: “Melissa, linda e maravilhosa, além de gostosa, quer ir ao baile comigo?”
Ele segura o risada, mas quando termino, ri de verdade, passando a mão no queixo. Mordo o lábio, contendo o sorriso, e me encosto na grade.
— Ir ao baile comigo? É sério isso aí, Melissa? — Ri. — O que tu quer mais? Buquê de flores? — Se afasta, indo até o balcão. Sigo ele.
— De preferência rosas.
— Vai ser rosado mesmo. Olha, tenho um convite melhor pra tu. — Se aproxima, me encurralando entre os braços.
— E qual seria? — Afago, sentindo os dedos dele na minha nuca.
— Se liga no convite. — Ri baixinho e puxa meu pescoço, chegando perto do ouvido. — “Melissa, tu aceita ir pra minha residência foder?”
Quando vou responder, um rapaz aparece chamando por ele.
— Ô Relíquia, tão precisando da tua voz no bagulho lá. — Relíquia fecha a cara num instante.
— Deu a tua hora. — O tom é frio, cortante.
Não gosto de como fala comigo, mas não respondo. Passo por ele e vejo vários homens no camarote — devem ser importantes. Desço as escadas e saio dali o mais rápido possível.
— Gabriel foi embora? — Pergunto à morena que não lembro o nome.
— Iih, mona. Ele pediu pra te avisar que já voltava. — Já sei o que foi fazer. Gabriel não para quieto.
Fico conversando com as meninas enquanto bebo. Por volta das 2h30 ele volta. Curtimos até tarde. Pedimos balde atrás de balde, e as memórias começam a se misturar… Eu e Gabriel dançando. Gargalhando de algo que uma delas disse. Virando latinhas… Até que tudo vai ficando mais leve, mais borrado… . . .
