
O FOGO NO MORRO
Micaeli Castanho · Concluído · 276.1k Palavras
Introdução
Nem tudo na vida sai como esperamos. Muitas vezes, planejamos um caminho, mas o nosso destino guarda outro. Assustamo-nos ao nos depararmos com uma pedra no percurso; no começo, ela pode parecer aterradora, afinal não a esperávamos. Mas e no final? Mesmo com medo, devemos enfrentar o que se coloca à nossa frente, para que, ao fim, tudo se ajeite — e você finalmente compreenda o motivo de cada coisa ter acontecido.
Douglas Gonçalves, conhecido como Relíquia. Um homem marcado pela vida e por toda a sua maldade; com apenas 26 anos, já passou por experiências que nem mesmo alguém com o dobro da sua idade conseguiria presenciar. É um homem fechado, impossível de se ler nos olhos — e guarda segredos capazes de colocar qualquer pessoa em perigo.
Duas vidas que se cruzam. Pessoas diferentes, destinos distintos. Mas um único desejo as une: o desejo carnal.
Será que o prazer valerá a pena?
— Um pedacinho de céu em seus olhos claros.
Capítulo 1
Melissa . . .
Quinta-feira . . .
— Bora, Relíquia. — Balanço o corpo do homem, que parece mais uma parede cheia de músculos e mal se mexe. Bufo, sem paciência pelos minutos que estou perdendo, e jogo quase todo o meu peso nele, balançando-o de novo.
— Vamo, cara… — murmuro, sem força. — PUTA QUE PARIU! — Perco o resto da paciência e dou um tapa em seu ombro. Em uma fração de segundos, sinto sua mão agarrar meu pulso e me puxar, fazendo-me passar por baixo dele e ir parar ao seu lado. Solto um gritinho, assustada.
— Tá me batendo por quê, tio? — pergunta, com o corpo sobre o meu, prendendo minhas mãos acima da cabeça.
Ele acha que vai me fazer medo. Observo-o bem: carinha de sono, olhos quase fechados e voz rouca.
— Em… Melissa? — Sua voz rouca soa pelo quarto, fazendo-me sair do pequeno transe.
— Deu sua hora, Relíquia. — Mexo-me, desconfortável, quando sinto o frio da sua correntinha roçar minha pele. — Nem era pra você ter ficado.
— Deu minha hora o escambau, vou tomar café, filhona. Tá achando o quê? — Abusado. — Engraçado que quando eu tava te fodendo ninguém falou nada.
Flashes de horas atrás invadem minha mente; automaticamente, cruzo as pernas ao sentir um formigamento entre elas.
— Licença, Relíquia. — Me mexo debaixo dele, para que saia de cima de mim. — Agiliza, do meu lado.
— Acordou com a língua bem afiada, hein? Daqui a pouco faço ela voltar ao normal. — Sinto sua mão querer entrar dentro do meu short de dormir.
A tentação é grande, mas nessa eu não cairei. Deus é mais.
— Douglas! — Falo com o resto de sanidade que me resta, sentindo ele soltar meus pulsos e sair de cima de mim.
— Já falei pra tu… — Aponta para mim, fazendo-me erguer a sobrancelha. — Última vez que te aviso. — Fala de cara fechada, tombando o corpo e se deitando de novo.
Sempre é assim: sempre que o chamo pelo nome, ele fica “puto”. Se não quisesse que eu o chamasse de Douglas, era só não ter me dito o nome dele — simples assim. Eu que não vou ficar me estressando com homem velho; não faço por mal, às vezes sai sem querer.
— Espero não te encontrar aqui quando eu sair do banheiro. — Deixo claro, pego minha toalha e saio do quarto.
Tomo um banho rápido para acordar e tirar o suor — já que depois do sexo, apaguei por completo. Além do mais, já acordei atrasada e perdi bons minutos tentando acordar o sujeito.
Volto ao quarto enrolada na toalha e encontro quem eu achava que estaria quilômetros longe de mim: deitado na minha cama, enrolado no cobertor. Respiro fundo, sem dar trela; me troco rápido, de costas para ele — que, desde que entrei, mantém os olhos fechados.
Reviro minha necessaire à procura do corretivo, mas não o acho. Parece que quando a gente está com pressa, tudo some.
— Assim tu vai quebrar os bagulho. — Ouço a voz rouca. — Tá procurando o quê?
— Corretivo. — Digo, procurando na bolsa até achar um de cobertura leve. É o único que tenho, então vai esse mesmo. — Estou mais do que atrasada.
— Atrasada e tá passando maquiagem? — Olho para ele pelo espelho, vendo-o sentado na cama, me analisando.
— Eu não iria precisar se alguém não tivesse aparecido no meu apartamento às três da manhã. — Falo, espalhando o corretivo nas olheiras. — Assim eu não ficaria com essas olheiras de panda. — Observo meu reflexo, vendo as olheiras bem marcadas. — E muito menos estaria atrasada.
Sempre que não durmo direito, minhas olheiras ficam iguais às de um panda. Se Relíquia não tivesse aparecido aqui às três da manhã, eu não estaria cansada e muito menos atrasada. Dormi quase nada; a última vez que olhei as horas, eram quase cinco.
— Vai dizer que a culpa é minha?
— E de quem mais seria? — Pergunto, selando o pó.
— Você queria tanto quanto eu. Se fosse o contrário, não ia parecer que estava no cio quando me viu. — Responde, debochado.
Não vou negar que não queria. Fazia quase um mês que não o via — ele estava resolvendo alguns “problemas”. Não faço questão de saber quais são; cada um tem a sua vida e faz o que quer. O único coisa que temos é sexo sem compromisso. Quando um quer transar, convoca o outro — nada além disso. Estamos nisso há uns sete meses; antes disso, transávamos de vez em quando.
Relíquia é um envolvido que conheci em um dos bailes da Maré. Morei por um curto período no complexo da Maré quando me mudei para o Rio, e foi lá que o conheci.
Sinto seu toque na minha coluna, descendo para a bunda, me fazendo arfar.
— Não é mesmo, Melissa? — Olha para mim pelo espelho, afundando os dedos na minha pele em um aperto.
— Eu não falei que não queria te encontrar aqui quando saísse do banho? — Pergunto, tentando ignorar o toque. — Nem era pra você ter ficado.
— Até parece que eu ia pegar a pista, cansado. — Diz, mordiscando meu pescoço, aproveitando que meu cabelo está preso num coque. — Se você quisesse que eu fosse embora, teria me mandado. — Ressalta baixo, sem tirar a atenção do meu pescoço. — Eu sei que você queria dormir do lado do pai.
Acabo rindo — nunca vi alguém mais convencido. Empurro-o para soltar meu quadril; hoje não estou disposta a cair em tentação. Tento me manter o mais longe possível dele — ninguém é de ferro, também.
— Vou tomar uma ducha. — Fala, catando as roupas pelo quarto, só de cueca, cobrindo o corpo.
Aquelas tatuagens espalhadas pela pele, aquele abdômen definido… Senhor…
— Vai logo, que estou atrasada — desse jeito, vou perder o ônibus. — Volto a atenção para o cabelo, amarrando-o num rabo de cavalo e ajeitando o baby hair com uma escovinha.
— Te deixo no seu trampo. Tenho que resolver umas coisas por essa área mesmo. Onde tá a toalha?
— Não precisa, vou de ônibus mesmo. Pode ir resolver as suas coisas. — Falo, guardando os itens que espalhei. — A toalha limpa está no armário do banheiro.
Sempre que transamos aqui em casa, ele toma banho — então deixo uma toalha separada lá.
— Além do mais, não quero correr o risco de alguma desavença sua me ver com você. — Falo, sincera.
Só Deus sabe o que aconteceria se o meu nome chegasse aos ouvidos de algum inimigo dele. Conheço muitas histórias de mulheres de bandidos que foram pegas: algumas sobrevivem, porque o marido praticamente declara guerra; outras acabam violentadas e torturadas, antes de serem mortas — já que o marido não faz questão de ajudá-las.
Imagina cair nas mãos de inimigos, sendo taxada de algo que não sou, achando que sou importante para Relíquia? Sendo que ele não moveria um dedo para me salvar. Não sou trouxa de achar que ele correria risco por mim — por isso, prefiro evitar.
— Até parece que eu iria te colocar em risco. — Revira os olhos. — Não sou moleque, Melissa. Se tô te falando que te levo, é porque é tranquilo.
— Tá bom, Relíquia. Vai tomar o seu banho. — Encerro, calçando o tênis.
Por mais que pareça, sei que é verdade o que ele diz — não é porque ele não arriscaria a própria vida para salvar a minha, que ele me colocaria como alvo. Pelo menos é o que eu acho.
Vejo-o sair do meu campo de visão e aproveito para arrumar a bolsa com as coisas da faculdade. Depois do serviço, vou direto para lá — é cansativo, mas sei que futuramente esse cansaço vai valer a pena. Faço faculdade de Design de Moda, e creio que fiz a escolha certa para a minha vida.
Assim que termino de organizar a bolsa, pego a toalha molhada e a estendo no varal da lavanderia.
Como o trajeto de carro é mais rápido, fico mais tranquila — então resolvo comer algo com calma enquanto ele acaba o banho. Preparo três queijos-quentes: um para mim e dois para ele. Quando a sanduicheira apaga a luzinha, tiro o meu e coloco os outros dois. Sento na bancada e bebo um gole de café quente, sentindo o amargor.
Sinto o cheiro de sabonete e, em seguida, Relíquia aparece — agora bem vestido, sem cara de sono. Nem parece que dormiu poucas horas; não consigo achar uma olheira sequer. Isso é muito injusto.
— Na humildade, passou um caminhão por cima de você? — Ri, apoiando os braços na bancada.
— Obrigada. Melhorou minha autoestima. — Sorrio, forçada. Nem o corretivo ajudou a esconder as olheiras.
— Ô meu Deus. — Ri ainda mais, se aproximando de mim. — Cê tá gata, pô.
— Não precisa mentir, Relíquia. Você já disse que estou feia.
Diria que tenho uma autoestima boa na maioria das vezes — digamos que o básico. Mas sempre que não durmo direito e acordo com olheiras marcadas, ela vai por água abaixo. Se tivesse achado o corretivo, estaria tranquila… mas esse que passei não adiantou nada.
— Iiih, tio. Não foi isso que eu falei. — Resmunga. — Falei que parece que passou um caminhão por cima de você, que tá com cara de cansada. — Coloca um fio solto do meu cabelo atrás da orelha. — Para de neura. — Aproveita e morde o meu pão.
— Relíquiaaaa! — Xingo, vendo que sobrou só uma pontinha. — O seu pão tá na sanduicheira, cara! — Falo, bolada. — Agora eu vou ficar com fome.
— Nem foi tão grande a mordida. — Fala, tirando os dois queijos-quentes dele. — Não adianta, não vou te dar do meu.
Abro a boca, incrédula com o egoísmo dele. Faço um joinha com a mão e concordo com a cabeça. Como a pontinha que restou, olhando para ele.
— Dormiu e tomou banho na minha casa… sabe o que eu ganho em troca? — pergunto, depois de beber o resto do café. — Come o meu pão todo e ainda me chama de feia.
Falo mesmo: na primeira oportunidade, falo tudo. Ouço sua risada e ele me olha, debochado.
— Os de verdade, eu sei quem são. — Faço o joinha de novo e me levanto para escovar os dentes, ouvindo sua gargalhada.
— Cê tá muito sentimental. — Grita da cozinha, rindo.
Escovo os dentes, aproveito para passar hidratante e protetor solar. Pego a bolsa no quarto; quando volto à cozinha, Relíqu
ia já está acabando de comer o segundo pão.
— Bora. — Diz, jogando o resto na boca. . .
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