Capítulo 3 A reunião - Lily

Provavelmente estou olhando para a esteticista com assassinato nos olhos enquanto ela arranca mais um pedaço de pelo da minha pobre vagina.

Que porra é essa, afinal? Não é como se eu fosse me casar com o cara hoje, e eu realmente preciso parecer uma galinha depenada na nossa noite de núpcias?

Pappa disse que é só um jantar, mas estou sendo depilada e preparada como se eu fosse uma das meias-irmãs feias.

— Vire de barriga para baixo e abra as nádegas — a garota ordena.

— Pra fazer o quê?! — exclamo, com o rosto queimando de vergonha.

Ela me lança um olhar que não admite discussão, e eu, a contragosto, viro de bruços e abro as nádegas para essa garota ver minhas partes mais íntimas.

É essa a tortura que as garotas passam para ficar bonita pra caralho para um homem? Por que uma mulher tem que ser lisa ali embaixo, afinal? Homem sequer se dá ao trabalho de se depilar?

Depois daquela tortura, esfregam meu corpo inteiro como se eu não tomasse banho há séculos, deixando minha pele vermelha e sensível. Tenho a pele clara e, ao sair dessa câmara de tortura, posso acabar parecendo um tomate.

No internato, a gente até experimentava maquiagem e fazia o cabelo umas das outras, mas encaro o cabeleireiro com desconfiança quando ele pega a tesoura.

— Nada de tintura! — deixo bem claro. — E nada de cortar todo o meu cabelo.

Ele leva a mão ao peito como se eu o tivesse ofendido.

— Menina! Eu jamais ousaria mudar essa cor maravilhosa. Só vou cortar as pontas mortas, eu prometo.

Estão tirando a minha vida de mim, o último fiapo de liberdade que eu tenho.

Pelo menos eu posso decidir o que acontece com a minha aparência.

Pra ser sincera, estou mais do que triste. Eu não escolhi essa vida e, ainda assim, parece que estou pagando uma dívida que eu nem contraí.

A mesma esteticista cruel faz minha maquiagem e, quando termina, eu pareço mais velha, mais sofisticada.

Eu nem sei como é o homem que vai se tornar meu marido. E se ele for gordo e velho? Ou não tiver cabelo nenhum?

Eu nunca nem fui beijada, pelo amor de Deus; imagina se meu primeiro beijo for com algum careca rechonchudo, com as mãos suadas e tremendo.

Se o cara do meu cabelo não fosse claramente gay, eu teria agarrado ele e beijado até não poder mais, só para ter a escolha de com quem meu primeiro beijo vai ser.

Fico nervosa no caminho de volta para casa. Tem segurança extra; um carro está nos seguindo, e eu me pergunto por quê. Ninguém sequer sabe quem eu sou aqui.

A jovem criada, que eu passei a conhecer como Fiona, está colocando um vestido preto de seda na minha cama, junto com saltos brilhantes.

Ela cora quando me vê e abaixa a cabeça depressa.

— Senhorita Lily, o chefe escolheu este vestido.

Claro que escolheu. Provavelmente realça todos os meus “atributos”.

Depois que Fiona me ajuda a me vestir, fico diante do espelho, encarando a estranha refletida de volta para mim.

Não posso negar que estou linda, com o cabelo arrumado em cachos suaves e jogado sobre um dos ombros, revelando a extensão cremosa da minha pele no vestido sem costas. Minhas pernas parecem longas e definidas nos saltos altos, e acho que meu pai conseguiu exatamente o que queria. A mulher no espelho é cara e desejável.

Há uma batida suave na minha porta, e ela se abre devagar, rangendo, para revelar o Pappa. Meus olhos encontram os dele pelo espelho, e eu juro que vejo um brilho de lágrimas antes que ele pisque e as afaste.

“Precisamos mesmo fazer isso?”, quero saber, com a voz baixa desta vez.

Ele entra no quarto e para atrás de mim, segurando meus braços na altura do bíceps.

“Você está deslumbrante, Lily. Sua mãe teria ficado orgulhosa.”

“Orgulhosa de ser entregue em casamento e depois esquecida?”, não consigo evitar a acidez no meu tom.

Que porra há para se orgulhar?

Os olhos do Pappa voltam a suplicar nos meus. “Isso é maior do que eu e você, Lily. Se você fizer isso, nunca vai te faltar nada; você pode criar todas as pinturas que quiser sem se preocupar com dinheiro.”

“Mas eu não vou para a faculdade, não vou ter casos de uma noite bêbados e fazer uma melhor amiga. Eu não vou me apaixonar e ter o coração partido.” Sinto as lágrimas se acumulando, embora eu saiba que não tenho permissão para deixá-las cair. Eu estragaria essa imagem perfeita que o Pappa quer passar.

Ele abaixa a cabeça, culpado, e se afasta de mim, porque o que há para dizer? Meu casamento com Vincent DiCassio já está decidido e, se eu fizer qualquer coisa para colocar isso em risco, pessoas vão pagar com a própria vida.

Só a minha vida é que não importa aqui.

“Nossos convidados estão lá embaixo, esperando.” O Pappa assente e atravessa a porta. “Por favor, não demore.”

Meu coração começa a disparar quando me olho uma última vez, tentando recuperar o controle. Não era isso que eu esperava, mas meus sonhos valem mais do que a vida dos outros?

Acho que a Fiona está mais nervosa do que eu, porque ajusta minhas alcinhas finas com pressa antes de baixar a cabeça e se afastar.

Sigo pelo corredor comprido até chegar à escadaria grandiosa que leva ao andar de baixo e paro no topo quando os homens param de falar e olham para mim.

Minhas pernas parecem bambas, mas consigo chegar ao fim sem tropeçar nos próprios pés. Inclino a cabeça como me ensinaram, sem encarar os homens.

“Senhores, minha filha Lily”, diz o Pappa, orgulhoso.

“Ela é, de fato, linda, Sullivan”, diz uma voz enigmática, e minha cabeça se ergue num impulso para encontrar olhos castanhos risonhos quando um homem bonito se aproxima de mim.

Puta merda.

Com certeza eu nunca estive na companhia de alguém tão bonito quanto ele.

Ele para à minha frente e sinto um leve cheiro de cigarro quando ele pega minha mão e beija de leve o dorso, sem tirar os olhos dos meus.

“Bellissima.” A voz dele, como seda escura, desliza pela minha pele. “Eu sou Vincent DiCassio.”

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