Capítulo 3 Capítulo 3
Elisa
Caminho por uma floresta escura sem saber como vim parar ali. Meus pés descalços doem ao pisar em galhos e pedras pelo caminho desconhecido.
De repente, dois olhos vermelhos surgem atrás de um arbusto, acompanhados por um rosnado assustador. Dou alguns passos para trás, mas um enorme lobo negro aparece diante de mim. Seus olhos vermelhos me encaram com reconhecimento.
Então escuto sua voz dentro da minha mente:
"Você me pertence, Elisa. Logo estaremos juntos."
O medo toma conta de mim e começo a correr sem olhar para trás. O uivo demoníaco dele ecoa pela floresta enquanto continuo fugindo até chegar a uma linda cachoeira.
À beira da água, vejo uma loba sentada. Ela é linda, com pelos claros e olhos esverdeados que se parecem com os meus. Diferente do lobo negro, ela não me causa medo. Sua presença me transmite paz e segurança.
Aproximo-me fascinada e toco em seu pelo macio e sedoso.
Ela me encara e sua voz surge na minha mente:
"Somos uma só alma e um só corpo. Sou a sua loba."
"Qual é o seu nome?" pergunto.
"Cristal. Logo estaremos juntas."
Antes que eu possa responder, escuto passos vindo das árvores. O lobo negro aparece novamente, avançando em minha direção. Caio no chão e cubro o rosto com os braços, soltando um grito de medo.
Acordo assustada, completamente suada, e me sento na cama.
— Ufa... foi só um sonho.
Mas não é a primeira vez. Ultimamente, ele se repete todas as noites e sempre acordo com o coração disparado.
Levanto-me sentindo meu corpo mais quente que o normal. Tomo um banho frio, visto uma roupa leve e vou até a cozinha procurar minha avó.
— Parabéns para você, nessa data querida...
Sou surpreendida por vovó e Stela cantando parabéns enquanto seguram um bolo de aniversário. Sorrio feliz e abraço as duas.
Minha avó me entrega uma pequena caixa. Ao abrir, encontro um lindo colar com um pingente em formato de lua.
— Ele é lindo, vovó! Mas deve ter custado uma fortuna.
— Não se preocupe, meu amor. Esse colar era da sua mãe. Guardei junto com o vestido dela.
Ela coloca o colar em meu pescoço e me abraça.
— Também quero um abraço — diz Stela, juntando-se a nós.
Depois, ela me entrega um envelope.
Curiosa, abro e encontro um cartão.
"Parabéns! Você ganhou um dia de beleza com sua melhor amiga para se arrumarem juntas para o baile."
Olho para ela surpresa.
— Isso é muito gentil, mas não posso aceitar. Deve ser muito caro.
— Nada disso! Meus pais já pagaram tudo e não aceitam devolução. Eles vão ficar tristes se você recusar.
Olho para minha avó, que sorri e concorda.
— Está bem, eu vou.
Stela comemora pulando e me abraça.
Passamos o dia sendo mimadas no spa. Fizemos massagens, unhas, cabelo e maquiagem. Quando voltamos para casa, já estávamos prontas para o baile.
Stela está linda em um vestido preto com detalhes brilhantes, o cabelo loiro preso em um coque elegante.
— Você está maravilhosa. O Edgar vai ficar sem palavras.
Ela sorri.
— E você também está linda. O Alec vai ficar ainda mais apaixonado.
Olho para meu reflexo e quase não me reconheço. O vestido verde realça meus olhos e combina perfeitamente com o colar de lua. Meu cabelo vermelho, solto em cachos, destaca ainda mais minha aparência.
— Meninas, os garotos chegaram! — grita a mãe de Stela.
Descemos as escadas e encontramos Edgar e Alec nos olhando impressionados.
— Divirtam-se, crianças — diz a senhora Miller enquanto tira uma foto nossa.
Seguimos para a escola em uma limousine. O ginásio está lindamente decorado e cheio de casais dançando.
Edgar logo chama Stela para dançar e Alec me leva para a pista.
Mas, depois de alguns minutos, sinto algo estranho. Meu corpo começa a esquentar, o suor escorre pelo meu rosto e minha visão fica tonta.
— Elisa, você está bem?
— Não... estou me sentindo estranha.
Ele me leva até uma cadeira e vai buscar algo para eu beber.
Nesse momento, Stela chega radiante.
— Amiga! O Edgar me pediu em namoro!
Sorrio.
— Finalmente!
Ela vem me abraçar, mas para ao sentir minha pele.
— Elisa, você está queimando! Está com febre?
Alec e Edgar voltam trazendo bebidas. Tomo tudo rapidamente, mas continuo sentindo aquele calor intenso.
— Vamos lá fora pegar um pouco de ar — sugere Alec.
Concordo.
Do lado de fora, vejo a lua cheia brilhando no céu. É como se ela estivesse me chamando.
A temperatura do meu corpo continua aumentando.
Alec se aproxima, segura minha cintura e tenta me beijar.
— O que você está fazendo? Me solta.
— Calma, Elisa, eu só quero um beijo.
— Eu disse que não quero.
Ele insiste, puxando-me para perto. Sem pensar, eu o empurro.
Ele voa alguns metros e cai sobre umas mesas.
Fico paralisada.
De onde veio essa força?
Meu corpo esquenta ainda mais e uma dor intensa toma conta de mim. Desesperada, tiro meus sapatos e corro para casa.
Quando chego, percebo que a porta está aberta.
Meu coração dispara.
Entro e encontro tudo destruído. Os móveis estão quebrados e as roupas espalhadas pelo chão.
— Vovó?
Corro até o quarto e encontro minha avó caída no chão, coberta de sangue.
— Vovó!
Coloco sua cabeça no meu colo desesperada.
Ela abre os olhos com dificuldade.
— Não há tempo, minha menina... chegou minha hora.
— Não! A senhora não pode me deixar!
— Você precisa fugir. Eles vão voltar. Vá para a floresta... seu pai vai encontrar você.
— Eu não posso ficar sem você.
Ela segura minha mão.
— Seja feliz, minha menina. Nunca se esqueça que eu amo você.
Depois dessas palavras, ela fecha os olhos e dá seu último suspiro.
Minha avó se foi.
Choro sem conseguir controlar a dor, até ouvir passos do lado de fora.
Vou até a janela e vejo aqueles homens-lobos que tentaram me capturar dias atrás.
Foram eles que fizeram isso.
Beijo a testa da minha avó e saio pela porta dos fundos.
Corro até a floresta seguindo suas últimas palavras.
— Lá está ela! Vamos pegá-la!
Ouço um deles gritar.
Corro sem olhar para trás. Meu vestido está rasgado, meus pés sangram, mas não paro.
Depois de muito tempo, chego a uma cachoeira.
Paro assustada.
É exatamente igual à do meu sonho.
Uma dor terrível atravessa meu corpo. Sinto meus ossos se quebrarem enquanto grito de agonia.
Então, de repente, tudo para.
Meus sentidos estão diferentes. Escuto o coração dos animais, sinto cada cheiro da floresta.
Caminho até a água e olho meu reflexo.
Mas não vejo meu rosto.
Vejo uma loba branca.
A loba dos meus sonhos.
"Não tenha medo. Sou eu, Cristal, sua loba. Juntas somos uma só."
Escuto passos, mas meus novos instintos dizem que não há perigo.
Do meio das árvores surge um grande lobo avermelhado.
— Oi, minha menina. Vejo que finalmente floresceu... e é uma linda loba.
Sua voz chega até minha mente.
Respondo da mesma forma:
"Quem é você?"
Ele me encara.
"Eu sou seu pai."
