Capítulo 2

Eu estava sendo arrastada por homens desconhecidos, e meus pais não disseram nada para impedi-los. O silêncio doeu mais do que as mãos ásperas me apertando. Eu me senti sem valor.

Era por isso que eles tinham agido de um jeito estranho durante todo o meu aniversário? Eles esperavam que isso acontecesse? E quem era o jovem de aparência rica, vestido com mantos reais? Ele estava diante dos meus pais com um ar de autoridade, poderoso e imóvel.

Eu me odiei por não conseguir defender meus pais, e odiei a mulher em que eu tinha me transformado depois do coma. Eu já não era mais a garota feroz que eu tinha sido. Eu era um patinho fraco.

“O que eu fiz para merecer esse tipo de tratamento da parte de você e do seu mestre?”, perguntei ao homem negro alto e intimidador ao meu lado. O rosto dele estava impassível, o olhar gelado, e nem um traço de sorriso passou pelos lábios quando ele se virou para mim.

“Ele não é apenas meu mestre”, o homem respondeu com firmeza. “Ele é o Rei de Guham. E você está prometida a ele. É melhor aprender a aceitar isso, ou se preparar para não passar de uma posse dele.” Os olhos dele se desviaram, encarando o nada, sem foco em coisa alguma.

As palavras dele me deixaram atônita. Prometida? Ao homem dentro da casa? Ao rei impiedoso e cruel cujo nome era sussurrado com medo por todo o reino? Quando isso tinha acontecido? Como algo tão enorme podia acontecer sem eu saber? Sem meus pais me contarem?

Era tudo por causa das terras? Por que eles não me deram tempo para eu trabalhar e pagar a dívida sozinha? O que eu estava pensando? Onde eu ia encontrar um emprego que pagasse o suficiente para cobrir uma terra que pertencia à coroa?

Ainda assim, eu não conseguia aceitar. Eu não podia ser entregue ao rei contra a minha vontade. Por que meus pais me abandonariam justo depois de eu acordar de um coma de três anos? Não teria sido mais bondoso se eu tivesse morrido dormindo, em vez de ser forçada a esse destino?

As histórias que eu tinha ouvido sobre o rei eram horríveis. Ele já tinha quatro esposas, e não se importava com nenhuma delas. Ele tomava qualquer mulher que desejasse. Virar esposa dele significava não passar de um quinto nome na lista.

Só de pensar nisso, meu estômago embrulhou. Essa não era a vida com que eu tinha sonhado. Eu sempre imaginei me casar com alguém que eu amasse, não virar uma mulher escravizada sob o título de esposa.

Eu fiquei em silêncio dentro da enorme carruagem dourada, com os pensamentos em espiral. O que ele faria quando se juntasse a mim? Como seria a minha vida como esposa dele? Como eu sequer começaria a dizer a ele que eu o desprezava?

“O rei chegou”, anunciou um guarda. Ele desceu da carruagem e ajudou o rei a entrar, antes de montar de novo no cavalo, deixando nós dois a sós.

“Que bom finalmente conhecer você, esposa”, disse o rei, com uma risada presunçosa. “Tenho certeza de que você vai gostar da vida que eu vou te proporcionar.”

Eu franzi o rosto, enojada.

“Onde estão meus pais?”, perguntei, ignorando-o.

“Eles vão estar mortos em três segundos”, ele respondeu com naturalidade, enquanto a carruagem começava a se mover, com guardas cavalgando atrás de nós.

“O que você quer dizer com isso?” O medo arranhou meu peito. Eu sabia do que ele era capaz.

Então aconteceu.

Nossa casa explodiu.

“Meus pais estavam lá dentro!” eu gritei, agarrando o colarinho dele sem pensar. “Você me tirou de lá e depois matou os dois? Eles tentaram me vender pra você por causa de um pedaço de terra, e mesmo assim você assassinou eles? Por que você é tão cruel? Por que destruir minha vida desse jeito?”

Eu o soltei, tremendo de tanta dor.

“Seus pais não venderam você pra mim”, ele disse friamente, alisando o manto caro que eu tinha amarrotado. “Eles ofereceram você como pagamento da dívida deles. Você foi prometida a mim antes mesmo de nascer. Você pertence a mim.”

Ele baixou os olhos para o manto estragado. “E por esse dano, você vai pagar. Eu não posso usar isso de novo.” Ele jogou o cabelo preto e espesso para trás, atrás da orelha, irritado com as mechas que atrapalhavam sua visão.

A dor me engolia, mas o ódio também. Como meus pais puderam me prometer ao rei sem me dizer nada? Eles me trataram como um peso, como algo descartável.

Eu me virei para encarar o homem com quem eu agora deveria me casar. Ele era um rei com uma reputação assustadora.

Sem emoção. Impiedoso. Orgulhoso. Poderoso.

E absurdamente bonito.

O cabelo preto e espesso dele era mais escuro e mais cheio do que o meu, cortado de lado com um estilo marcado, e ainda assim caía sobre o olho esquerdo, não importava quantas vezes ele prendesse para trás. Os lábios eram cheios e chamativos — quase de um jeito antinatural.

Eu me forcei a parar. Aquele era o rei Archer, conhecido pelos excessos.

Eu me odiei por notar a beleza dele. Era revoltante.

Ele olhou para mim então, os olhos cor de mel, afiados, cravando nos meus. Eu odiei o jeito que aquilo fazia meu estômago se revirar. Eu devia desprezá-lo, não sentir essa atração estranha.

“Eu já consigo ver que minha futura esposa me odeia”, ele disse, suave. “Não se preocupe. Eu prometo tratar você bem.”

Ele sorriu e roçou os dedos na minha bochecha.

Chegamos ao castelo, onde fileiras de guardas e criadas estavam de cada lado, com a cabeça baixa.

Eu encarei, maravilhada. Aquilo não era só um castelo. Era uma obra-prima. Um portão prateado gigantesco se erguia à nossa frente, claramente forjado pelos melhores artesãos. As paredes de mármore brilhavam sob o sol, e as janelas de vidro cintilavam com suavidade.

Era de tirar o fôlego.

“Está vendo?”, disse o rei. “Todas essas pessoas estão aqui por você. Você é da realeza agora, então se comporte como uma rainha. E não aja como uma guerreira. Eu não vou tolerar isso.”

Eu revirei os olhos enquanto os guardas abriam a carruagem e me ajudavam a descer.

O cheiro de rosas e narcisos encheu o ar, forte e inebriante.

O rei segurou minha mão com firmeza enquanto atravessávamos o tapete. Quatro mulheres se aproximaram, sorrindo de um jeito rígido ao me receber. Eu soube na hora quem eram. As esposas dele. E o ressentimento estava estampado na expressão delas.

Na entrada do castelo, uma criada deu um passo à frente e fez uma reverência.

Ela era deslumbrante. Um cabelo loiro comprido descia pelas costas, os olhos verdes brilhavam, a pele era impecável. Impecável demais.

Eu me senti intimidada. Como alguém tão bonita podia ser uma criada? O rei Archer não tinha reparado nela?

“Bem-vinda, minha Rainha”, ela disse, baixinho. “Meu nome é Sage. Fui designada como sua criada pessoal.”

Eu quase engasguei.

“Minha criada pessoal?”, eu repeti.

“Você é linda”, eu soltei, antes que conseguisse me impedir.

“Obrigada, minha Rainha”, ela respondeu, educada. “Se a senhora permitir, eu vou levá-la até seus aposentos.”

Ela não ergueu o olhar nem uma vez.

“Mostre o caminho”, eu disse, em voz baixa.

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