Capítulo 3 Capítulo 3 - Medo tem nome

Não consegui dormir.

Toda vez que fechava os olhos, voltava a enxergar o pequeno cartão branco repousando sobre a caixa de bombons.

"Agora sei onde encontrar você."

A frase parecia gravada na minha mente.

Às duas da manhã, levantei da cama e caminhei até a sala. A casa estava mergulhada na escuridão, iluminada apenas pela luz fraca que entrava pela janela da frente. O silêncio era tão profundo que eu conseguia ouvir o tique-taque do velho relógio pendurado na parede e o zumbido distante de um caminhão cruzando a avenida.

Sobre a mesa da cozinha, a caixa de bombons permanecia exatamente onde eu a havia deixado.

Fechada.

Intocada.

Era um objeto comum. Papel preto, um laço elegante e uma embalagem sofisticada. Qualquer pessoa enxergaria apenas um presente caro.

Eu via uma ameaça.

Passei devagar a ponta dos dedos sobre a tampa, mas não tive coragem de abri-la.

Afastei a mão imediatamente.

Meu olhar correu até a janela da cozinha.

A cortina estava aberta.

Por um instante, senti um impulso irracional de fechá-la.

E se alguém estivesse olhando?

Balancei a cabeça.

Estava começando a ficar paranoica.

Mesmo assim, fui até a janela e puxei a cortina com cuidado.

Depois conferi se o portão estava trancado.

As portas.

As janelas.

Até a fechadura dos fundos.

Quando finalmente voltei para o quarto, o céu já começava a clarear.

Não adiantava mais tentar dormir.

---

Às seis da manhã, coloquei água para ferver.

O cheiro do café recém-passado logo tomou conta da cozinha, misturando-se ao aroma do pão aquecido na frigideira.

A rotina era exatamente a mesma de todos os dias.

Só eu havia mudado.

Meus olhos ardiam de cansaço, e cada pequeno ruído da casa fazia meu corpo ficar em alerta.

Ouvi passos no corredor.

Minha avó apareceu usando seu velho roupão florido, os cabelos grisalhos presos de qualquer jeito e os chinelos gastos arrastando pelo chão.

Ela sorriu assim que me viu.

— Você acordou cedo hoje.

Forcei um sorriso de volta.

— Perdi o sono.

Ela aproximou-se lentamente e pousou uma das mãos sobre meu braço.

Seu toque era leve.

Calmo.

— Foi por causa daquele homem, não foi?

Não fazia sentido mentir.

Assenti em silêncio.

Ela suspirou, preocupada.

— Eu fiquei pensando nele depois que você dormiu.

Sentei-me à mesa e envolvi a caneca quente com as duas mãos.

— Vó...

Esperei alguns segundos antes de continuar.

— Se aquele homem aparecer aqui de novo...

Ela me olhou atentamente.

— Não abre o portão.

— Mas ele foi tão educado...

Fechei os olhos por um instante.

Era exatamente isso que me assustava.

Marcelo não gritava.

Não ameaçava.

Não fazia escândalo.

Ele sorria.

E, de alguma forma, aquilo parecia muito pior.

— É justamente isso que me preocupa.

Minha avó permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez desde a noite anterior, vi medo surgir em seus olhos.

— Você acha que ele pode fazer alguma coisa?

A pergunta ficou suspensa entre nós.

Respirei fundo.

Queria responder que não.

Queria tranquilizá-la.

Queria acreditar nisso.

Mas não consegui.

— Eu não sei.

Minha voz saiu quase num sussurro.

— E essa é a pior parte.

Porque eu realmente não sabia.

Não conhecia aquele homem.

Não sabia do que era capaz.

Não fazia ideia de quais eram seus limites.

Ou se ele tinha algum.

Minha avó segurou minha mão por cima da mesa.

— Você não está sozinha.

Olhei para ela e senti um nó apertar minha garganta.

Sorri de leve.

— Eu sei.

Mas, naquele momento, eu não tinha tanta certeza.

---

Antes de sair para o hospital, tomei uma decisão.

Se algo realmente estivesse acontecendo, eu precisava começar a guardar provas.

Peguei o celular.

Fotografei a caixa de bombons de vários ângulos.

Depois o cartão.

A letra elegante.

A frase curta.

Cada detalhe.

Em seguida, saí para a varanda.

O portão continuava fechado.

Olhei discretamente para os dois lados da rua.

Tudo parecia normal.

Mesmo assim, caminhei até a casa do vizinho.

Seu Antônio estava varrendo a calçada.

— Bom dia, Nanda.

— Bom dia.

Tentei parecer tranquila.

— O senhor ainda está com aquela câmera apontada para a rua?

Ele assentiu.

— Está funcionando direitinho.

Meu coração ganhou um pouco de esperança.

— Será que ela gravou quem esteve aqui ontem?

Ele pensou por alguns segundos.

— Pode ser.

Se gravou, as imagens ainda estavam salvas.

Expliquei rapidamente que um homem desconhecido havia aparecido procurando por mim.

Seu Antônio ficou imediatamente sério.

— Quando eu voltar do mercado, verifico as gravações.

Assenti.

— Muito obrigada.

Era pouco.

Mas era um começo.

Saí dali sentindo que, pela primeira vez desde a festa, eu estava fazendo alguma coisa além de sentir medo.

---

Assim que atravessei as portas automáticas do Hospital Municipal, fui recebida pelo movimento intenso de sempre.

Macas cruzavam os corredores.

Monitores apitavam sem parar.

Médicos conversavam apressados enquanto consultavam prontuários.

Uma criança chorava na recepção, agarrada ao colo da mãe.

Normalmente, aquele ambiente organizava meus pensamentos.

Naquele dia...

Minha cabeça continuava longe dali.

Troquei de roupa no vestiário.

Prendi os cabelos.

Respirei fundo diante do espelho.

— Você consegue.

Repeti isso mais para convencer a mim mesma do que por acreditar.

Durante a primeira hora de plantão, percebi que alguma coisa estava errada.

Minhas mãos, sempre tão seguras, pareciam lentas.

Esqueci uma bandeja de medicação sobre a bancada.

Anotei o horário errado em um prontuário.

Entrei em uma enfermaria acreditando que atenderia um paciente e descobri que estava na ala errada.

Aquilo nunca acontecia.

Nunca.

— Nanda.

Levantei a cabeça rapidamente.

O doutor Henrique permanecia parado na porta da sala de enfermagem.

Seu semblante era tranquilo, mas o olhar atento deixava claro que ele havia percebido meu estado.

— Você está bem?

Sorri automaticamente.

— Estou.

Ele cruzou os braços.

— Quer tentar responder outra vez?

Suspirei, derrotada.

— Só dormi mal.

Henrique assentiu devagar.

Não insistiu.

— Às vezes a gente acha que consegue carregar tudo sozinho.

Fez uma pequena pausa antes de continuar.

— Se precisar conversar... minha sala está aberta.

Sorri com sinceridade dessa vez.

— Obrigada, doutor.

Ele apenas fez um leve aceno e saiu.

Observei a porta se fechar.

Era estranho perceber que até alguém que convivia comigo apenas no trabalho conseguia notar que havia algo errado.

E eu ainda insistia em fingir que estava tudo sob controle.

Fiquei alguns segundos olhando para a porta por onde o doutor Henrique havia saído.

O silêncio da sala de enfermagem durou pouco.

Logo o telefone voltou a tocar, um monitor disparou no corredor e alguém chamou por uma maca. O hospital nunca parava. Ali, sempre existia alguém precisando de ajuda, alguém sentindo dor, alguém lutando para sobreviver.

Normalmente, era isso que me fazia esquecer dos meus próprios problemas.

Naquele dia, porém, nem o ritmo frenético do plantão conseguia calar minha mente.

Peguei uma prancheta e conferi os prontuários pela terceira vez. Precisava me obrigar a prestar atenção.

— Nanda...

Ergui os olhos.

Camila entrou na sala segurando dois copos de café.

Ela estendeu um deles para mim.

— Você está precisando.

Aceitei com um sorriso cansado.

— Obrigada.

Ela puxou uma cadeira e se sentou à minha frente.

Por alguns segundos, apenas me observou.

Conhecia aquele olhar.

Era o mesmo que eu lançava aos pacientes quando percebia que estavam escondendo alguma coisa.

— Agora me conta a verdade.

Suspirei.

— Já contei.

— Não. Você contou uma parte.

Baixei os olhos para o café fumegante.

O cheiro forte normalmente me trazia conforto.

Dessa vez, não adiantou.

Respirei fundo e contei o restante.

Falei das flores.

Da caixa de bombons.

Do cartão.

Da visita à minha casa.

Da preocupação da minha avó.

Quando terminei, Camila já não tinha nenhum traço do sorriso habitual.

— Isso não é normal.

— Eu sei.

— Você precisa denunciar esse homem.

Apoiei os cotovelos sobre a mesa.

— Denunciar o quê?

Ela abriu a boca para responder.

Mas nenhuma palavra saiu.

Nós duas sabíamos a resposta.

Flores não eram crime.

Presentes não eram crime.

Perguntar onde alguém morava também não.

Era invasivo.

Assustador.

Perturbador.

Mas ainda não era suficiente para que alguém pudesse fazer alguma coisa.

Essa era a pior parte.

A sensação de perigo existia.

As provas... ainda não.

---

Na hora do almoço, sentei-me sozinha no refeitório.

Empurrei a comida de um lado para o outro do prato sem conseguir sentir o gosto de nada.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

Número desconhecido.

Fiquei olhando para a tela durante alguns segundos.

Talvez fosse algum paciente.

Ou Bianca.

Ou...

Meu dedo deslizou pelo visor.

— Alô?

Silêncio.

Um silêncio pesado.

Respirei fundo.

— Quem está falando?

Nenhuma resposta.

Então ouvi.

Uma respiração.

Lenta.

Controlada.

Como se a pessoa do outro lado estivesse apenas... ouvindo.

Meu coração disparou.

— Se isso for alguma brincadeira...

A ligação foi encerrada.

Afastei o telefone do ouvido.

Número privado.

Senti um frio percorrer minha nuca.

Olhei discretamente ao redor.

Os funcionários continuavam conversando.

Alguns riam.

Outros assistiam à televisão instalada no canto do refeitório.

Ninguém parecia notar que meu mundo acabara de ficar um pouco menor.

---

Quando o expediente terminou, eu não fui direto para casa.

Dirigi-me até a delegacia mais próxima.

Enquanto aguardava ser chamada, observava as pessoas entrando e saindo do prédio.

Uma senhora registrava o furto do celular.

Um rapaz discutia um acidente de trânsito.

Um casal aguardava em silêncio, sentado lado a lado.

Quando finalmente chamaram meu nome, sentei-me diante de um policial de plantão.

Expliquei tudo.

A festa.

As flores.

Os bombons.

Os cartões.

As ligações.

Enquanto eu falava, ele fazia pequenas anotações.

Quando terminei, cruzou as mãos sobre a mesa.

— Senhora Fernanda...

Sua voz era educada.

Quase gentil.

— Esse homem fez alguma ameaça direta contra a senhora?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Tocou na senhora novamente depois da festa?

— Não.

— Invadiu sua residência?

— Também não.

Fechei os olhos por um instante.

A resposta já estava diante de mim antes mesmo que ele continuasse.

— Infelizmente, ainda não existe um crime que permita uma medida imediata.

Senti a frustração apertar meu peito.

— Então eu preciso esperar acontecer alguma coisa?

Ele desviou o olhar por um momento.

Parecia tão incomodado quanto eu.

— Espero sinceramente que isso não aconteça.

Mas, se acontecer, volte imediatamente.

Assenti em silêncio.

Agradeci.

Levantei-me.

Ao sair da delegacia, a sensação era devastadora.

Eu havia pedido ajuda.

E voltava para casa exatamente como cheguei.

Sozinha.

---

Já passava das sete quando atravessei o portão de casa.

As luzes da sala estavam acesas.

Pela janela, vi minha avó sentada no sofá assistindo à novela.

Assim que ouviu a porta abrir, desligou a televisão.

Seu semblante era diferente.

Preocupado.

Meu estômago afundou.

— O que foi?

Ela levantou devagar.

— Nanda...

Apontou discretamente para a janela.

— Tem um carro parado aí desde o fim da tarde.

Senti o sangue gelar.

Caminhei até a cortina com passos lentos.

Afastei apenas alguns centímetros do tecido.

Do outro lado da rua.

Um sedã preto.

Vidros escuros.

O mesmo modelo.

A mesma cor.

O mesmo silêncio.

O carro permanecia imóvel.

Como um predador esperando o momento certo para atacar.

Meu coração martelava tão forte que parecia ecoar pela sala inteira.

— Não chega perto da janela, vó.

Minha voz saiu baixa.

Firme.

Ela imediatamente deu um passo para trás.

Peguei o celular.

Os dedos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes antes de conseguir desbloquear a tela.

Liguei para Bianca.

Ela atendeu quase no primeiro toque.

— Nanda?

— Você pode vir aqui?

Minha voz falhou.

— O que aconteceu?

Olhei novamente para o carro.

— Acho que ele me encontrou.

Do outro lado da linha, Bianca ficou em silêncio por um segundo.

— Estou saindo agora.

Antes que eu pudesse responder, os faróis do sedã acenderam.

Iluminaram a rua por alguns instantes.

O motor ganhou vida.

Mesmo assim...

O carro não saiu imediatamente.

Permaneceu parado.

Como se o motorista soubesse exatamente onde eu estava.

Como se esperasse que eu continuasse olhando.

Só então arrancou devagar.

Sem pressa.

Desapareceu no fim da rua.

Meu corpo inteiro perdeu a força.

Encostei na parede e soltei o ar lentamente.

Achei que o pior tinha passado.

Estava errada.

Meu celular vibrou.

Uma mensagem.

Número desconhecido.

Abri.

Era uma fotografia.

Levei alguns segundos para entender o que estava vendo.

Depois senti minhas pernas enfraquecerem.

A mulher na imagem era eu.

Estava parada na janela da sala, afastando a cortina exatamente como havia feito poucos segundos

antes.

A foto tinha sido tirada da rua.

Enquanto eu observava o carro.

Enquanto acreditava estar apenas olhando.

Abaixo da imagem havia apenas uma frase.

"Você fica linda sorrindo."

Minha respiração falhou.

Olhei imediatamente para a janela.

A rua estava vazia.

Mas a sensação de estar sendo observada permanecia.

Naquele instante, compreendi algo que fez o medo assumir uma forma completamente nova.

Marcelo Ferraz não estava apenas me seguindo.

Ele estudava meus hábitos.

Conhecia minha rotina.

Sabia onde eu morava.

E, pior...

Queria que eu soubesse que ele podia me encontrar quando quisesse.

A caçada havia começado.

E eu já não tinha certeza de que conseguiria escapar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo