
Sob a Proteção do Dono do Morro
jamilesalvatore · Atualizando · 30.9k Palavras
Introdução
Capítulo 1
Nunca gostei de festas.
As pessoas costumam achar que eu gosto porque sei sorrir na hora certa, conversar quando preciso e manter uma expressão tranquila mesmo quando estou contando os minutos para ir embora.
É um talento útil.
Principalmente para quem trabalha lidando com pessoas.
Mas a verdade é bem menos interessante.
Enquanto todo mundo dança, eu observo.
Enquanto brindam, eu reparo em quem exagerou na bebida.
Enquanto riem, eu identifico quem está fingindo estar bem.
A técnica de enfermagem nunca sai de mim.
Nem mesmo nas minhas folgas.
— Você está fazendo aquela cara de novo.
Virei o rosto na direção da voz.
Bianca me encarava com uma taça de espumante na mão e um sorriso divertido estampado no rosto. O vestido verde-escuro brilhava sob as luzes da cobertura, e os cachos soltos balançavam sempre que ela gesticulava.
Ela parecia completamente à vontade naquele ambiente.
Eu, não.
— Que cara? — perguntei, levando o copo de refrigerante aos lábios.
Ela estreitou os olhos, como se estivesse me analisando.
— A cara de quem veio fazer plantão.
Não consegui evitar um sorriso.
— Estou relaxada.
Ela soltou uma gargalhada.
— Relaxada?
Apontou discretamente para mim.
— Você já observou o garçom três vezes, conferiu se aquela senhora estava passando mal e olhou para o relógio pelo menos umas cinco vezes desde que chegamos.
Pisquei.
Ela não estava errada.
Segui seu olhar até uma mesa próxima, onde um senhor tentava, sem sucesso, convencer a esposa de que ainda conseguia dançar como aos vinte anos. Dois garçons cruzavam o salão equilibrando bandejas repletas de taças delicadas, enquanto um casal discutia em voz baixa perto da varanda, acreditando que ninguém percebia.
Eu percebia.
Sempre percebia.
— É força do hábito — respondi.
Bianca balançou a cabeça, resignada.
— Um dia eu ainda descubro como desligar esse botão da sua cabeça.
Olhei ao redor.
A festa ocupava toda a cobertura de um dos hotéis mais luxuosos da cidade. O piso de mármore refletia as luzes douradas espalhadas pelo ambiente, enormes arranjos de flores decoravam as mesas e um DJ mantinha a música eletrônica em um volume suficiente para obrigar as pessoas a falarem mais alto.
Garçons passavam oferecendo espumantes importados, coquetéis coloridos e pequenos pratos cuidadosamente montados.
Tudo parecia caro.
Elegante.
Perfeitamente planejado.
Eu me sentia completamente deslocada.
Meu vestido azul-marinho era bonito, mas simples perto das roupas de grife que circulavam pelo salão. Os saltos já começavam a incomodar meus pés, e eu daria qualquer coisa para estar usando meu velho tênis branco.
— Ainda dá tempo de fugir — murmurei.
Bianca ouviu.
Claro que ouviu.
Ela sempre ouvia.
— Nem pense nisso.
Cruzou o braço com o meu antes que eu desse qualquer passo.
— Você trabalha demais.
— Trabalho porque gosto.
— Trabalha porque esquece de viver.
Sorri de lado.
— Dramática.
— Realista.
Ela inclinou a cabeça.
— Faz quanto tempo que você não sai?
Pensei por alguns segundos.
Mais do que gostaria de admitir.
— Algumas semanas.
Ela riu.
— Nanda...
— O quê?
— Foram quase três meses.
Meu sorriso desapareceu.
Três meses?
Nem eu tinha percebido.
Respirei fundo.
Talvez Bianca tivesse razão.
Só um pouquinho.
— Vou pegar uma água.
Ela fez uma expressão de quem acabara de ouvir a maior ofensa do mundo.
— Água?
Assenti.
— Sim.
— Em uma festa?
— Alguém precisa continuar sóbria.
Ela levou a mão ao peito.
— Você realmente nasceu com oitenta anos.
Empurrei levemente seu ombro.
— E você nasceu sem nenhum instinto de sobrevivência.
Ela apenas deu outra risada.
Afastei-me antes que ela começasse mais um discurso sobre aproveitar a vida.
O ar perto da varanda era mais fresco.
Uma brisa suave entrava pela área aberta da cobertura, trazendo o cheiro da chuva que ameaçava cair sobre a cidade. Apoiei uma das mãos na bancada de mármore enquanto observava as luzes dos prédios iluminando a noite.
Por alguns segundos...
Consegui respirar.
Sem música alta.
Sem conversas cruzadas.
Sem a sensação de estar fora do lugar.
Foi então que ouvi.
— Me solta!
A voz feminina cortou o ambiente como uma lâmina.
Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo de minha mente entender o que estava acontecendo.
Virei rapidamente.
Os sons da festa pareceram desaparecer.
Passei os olhos pelo salão até encontrar a origem daquele grito.
Uma jovem, provavelmente com pouco mais de vinte anos, tentava puxar o próprio braço de volta enquanto um homem alto segurava seu pulso com força.
Ela dizia alguma coisa.
Não consegui ouvir.
Mas seus olhos...
Estavam cheios de lágrimas.
Ela tentava se afastar.
Ele apenas sorria.
Ao redor deles, algumas pessoas diminuíam o ritmo da conversa para observar a cena.
Outras desviavam os olhos.
Ninguém fazia absolutamente nada.
Meu estômago se contraiu.
Respirei fundo.
"Não se envolva."
Era exatamente isso que qualquer pessoa sensata faria.
Chamaria um segurança.
Esperaria alguém agir.
Mas eu nunca consegui ignorar alguém pedindo ajuda.
Deixei o copo sobre uma mesa e comecei a atravessar o salão.
Meu coração acelerava a cada passo.
Não por coragem.
Por medo.
Porque eu não fazia ideia de quem era aquele homem.
Nem do que ele poderia fazer.
Ainda assim...
Continuei andando.
Parei a poucos passos deles.
— Ela mandou você soltar.
Minha voz saiu firme.
Mais firme do que eu me sentia.
O homem virou lentamente o rosto na minha direção.
Foi impossível não reparar na aparência impecável.
O terno escuro parecia feito sob medida.
O relógio em seu pulso certamente custava mais do que meu carro.
Os cabelos estavam perfeitamente arrumados.
O sorriso...
Era frio.
Calculado.
Daqueles que não alcançam os olhos.
Ele me analisou da cabeça aos pés antes de responder.
— Isso não é da sua conta.
Olhei novamente para a garota.
Ela balançava discretamente a cabeça, implorando em silêncio para que alguém a ajudasse.
Voltei a encará-lo.
— Agora é.
Dei mais um passo.
— Solte ela.
Por um breve instante, ninguém falou.
A música continuava tocando ao fundo, mas parecia distante.
As pessoas ao redor começaram a abrir espaço, formando um círculo silencioso.
O homem deu uma risada baixa.
Quase divertida.
— E quem vai me obrigar?
Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo na garganta.
Mesmo assim...
Sustentei seu olhar.
— Eu.
Por uma fração de segundo, algo mudou na expressão dele.
Surpresa.
Como se aquela resposta não estivesse nos planos.
Então seus dedos apertaram ainda mais o braço da garota.
Ela fez uma careta de dor.
Foi o suficiente.
Segurei o pulso dele com as duas mãos e o empurrei com toda a força que consegui.
Ele claramente não esperava reação.
Perdeu o equilíbrio.
O corpo bateu contra uma mesa repleta de taças e garrafas.
O som dos vidros se quebrando ecoou pela cobertura.
As taças explodiram no chão em dezenas de fragmentos brilhantes.
A música foi interrompida.
O salão mergulhou em um silêncio absoluto.
A garota aproveitou o instante de distração.
Puxou o braço com força.
E saiu correndo entre os convidados, desaparecendo em poucos segundos.
Um alívio rápido atravessou meu peito.
Pelo menos ela estava longe dali.
Mas a sensação durou muito pouco.
O homem se levantou devagar.
Sem pressa.
Sem elevar a voz.
Sem qualquer sinal de irritação.
Apenas ajeitou o paletó como se estivesse retirando um pouco de poeira da roupa.
Aquilo...
Aquilo me assustou muito mais do que um grito teria assustado.
Então ele sorriu.
Um sorriso pequeno.
Controlado.
Estranhamente calmo.
— Interessante.
A palavra ficou suspensa entre nós.
Interessante.
Era só isso que ele tinha a dizer depois de quase machucar uma garota?
Franzi a testa, tentando controlar a respiração. Meu coração ainda batia acelerado pela descarga de adrenalina, e minhas mãos começavam a tremer agora que tudo parecia ter acabado.
Ou talvez estivesse apenas começando.
— Interessante? — repeti, incrédula. — Você chama isso de interessante?
O homem passou os olhos pelos cacos de vidro espalhados pelo chão. Um garçom, completamente paralisado, ainda segurava uma bandeja vazia sem saber se deveria se aproximar.
Alguns convidados cochichavam.
Outros observavam a cena com a curiosidade de quem assiste a um espetáculo.
Ninguém dizia uma palavra.
— Faz muito tempo — respondeu ele, voltando a me encarar — que alguém ousou me enfrentar.
Sua voz era baixa.
Controlada.
Não havia raiva.
Não havia vergonha.
Apenas uma tranquilidade desconfortável.
Era como se tudo aquilo tivesse despertado seu interesse em vez de ofendê-lo.
Cruzei os braços, tentando esconder o tremor das mãos.
— Talvez porque as pessoas tenham medo de você.
Um dos cantos de sua boca se ergueu.
— E você?
Senti um nó se formar no estômago.
Eu tinha medo.
Muito.
A diferença era que, depois de anos trabalhando em hospitais, aprendi que o medo não podia decidir por mim quando alguém precisava de ajuda.
Engoli em seco.
— Não.
A mentira saiu firme.
Ele percebeu.
Pela forma como seus olhos permaneceram presos aos meus, tive certeza de que sabia exatamente o que acontecia dentro de mim.
Mesmo assim, não comentou.
Apenas deu mais um passo.
A distância entre nós diminuiu.
Seu perfume amadeirado misturava-se ao cheiro adocicado das flores da decoração e ao álcool derramado sobre o mármore.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ouvi passos apressados.
— Senhor Marcelo!
Um homem de terno preto surgiu entre os convidados. Devia ser um dos seguranças do evento.
Parou imediatamente ao lado dele, mantendo a cabeça baixa em sinal de respeito.
Foi naquele instante que o nome fez sentido.
Marcelo.
Marcelo Ferraz.
As reportagens passaram rapidamente pela minha memória.
Empresário.
Bilionário.
Fundador de um dos maiores grupos empresariais do país.
Presença constante em capas de revistas.
Patrocinador de projetos sociais.
O homem que a imprensa adorava chamar de exemplo de sucesso.
Olhei novamente para ele.
Era estranho pensar que alguém tão admirado em público pudesse agir daquela forma quando acreditava que ninguém importante estava olhando.
— Ela o agrediu, senhor — disse o segurança, indignado.
Marcelo levantou a mão discretamente.
O homem se calou na mesma hora.
A obediência foi instantânea.
Aquilo dizia muito sobre quem ele era.
Marcelo não desviou os olhos de mim em nenhum momento.
Era como se o restante da cobertura tivesse desaparecido.
Como se existíssemos apenas nós dois.
— Qual é o seu nome?
A pergunta me pegou de surpresa.
Cruzei ainda mais os braços.
— Não interessa.
Ele sorriu de novo.
Dessa vez, havia algo diferente naquele sorriso.
Algo frio.
Paciente.
— Descubro sozinho.
Um arrepio percorreu minha coluna.
Meu instinto dizia que aquela conversa precisava terminar imediatamente.
Antes que eu pudesse responder, ouvi alguém chamar meu nome.
— Nanda!
Virei o rosto.
Bianca atravessava o salão quase correndo. A preocupação estampada em seu rosto era evidente.
Assim que chegou perto, segurou meu braço com força.
— Você está bem?
Assenti.
— Estou.
Ela olhou rapidamente para Marcelo e depois voltou a me encarar.
— Vamos embora.
Não discuti.
Pela primeira vez naquela noite, concordei com ela sem fazer nenhuma piada.
Enquanto caminhávamos em direção ao elevador, senti a mesma sensação incômoda de antes.
Como se alguém me observasse.
Olhei discretamente por cima do ombro.
Marcelo continuava exatamente onde estava.
As mãos nos bolsos.
A postura relaxada.
Os olhos fixos em mim.
Ele não piscava.
Não sorria.
Apenas observava.
As portas do elevador se fecharam.
Só então consegui soltar o ar que estava prendendo.
---
O silêncio dentro do carro durou menos de dois minutos.
Bianca ligou o motor com movimentos bruscos e saiu do estacionamento mais rápido do que costumava dirigir.
Assim que entramos na avenida iluminada, ela explodiu.
— Você enlouqueceu?
Olhei pela janela.
As luzes da cidade passavam depressa do lado de fora, refletindo no vidro.
— Acho que não.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Acha?
Virou rapidamente para me olhar antes de voltar a atenção para a rua.
— Nanda, você enfrentou um homem cercado de seguranças!
— Ele estava machucando aquela garota.
— Eu sei!
Ela apertou o volante.
— Mas aquele homem era o Marcelo Ferraz!
Suspirei.
Ainda sentia a adrenalina correndo pelo corpo.
— Continua sendo um idiota.
Bianca balançou a cabeça lentamente.
— Você realmente não faz ideia de quem ele é.
Encostei a cabeça no banco.
O cansaço finalmente começava a pesar.
— Também não faço questão.
Naquele momento...
Eu realmente acreditava nisso.
Achei que aquela seria apenas uma lembrança desagradável.
Uma situação estranha para comentar com minhas colegas de trabalho.
Algo que desapareceria depois de alguns dias.
Eu não fazia ideia do tamanho do erro que estava cometendo.
---
Na cobertura do hotel, o silêncio voltou a dominar o ambiente.
Funcionários recolhiam cuidadosamente os cacos de vidro enquanto os convidados tentavam retomar as conversas interrompidas.
Marcelo permanecia próximo à varanda.
As mãos apoiadas no parapeito de vidro.
Os olhos acompanhavam as luzes dos carros que deixavam o estacionamento.
Um de seus seguranças aproximou-se com cautela.
Esperou alguns segundos antes de falar.
— Senhor...
Marcelo não respondeu.
Continuou olhando para a cidade.
— Quer que descubram quem era a moça?
Dessa vez ele sorriu.
Lentamente.
Sem desviar o olhar da avenida.
— Quero tudo.
Sua voz saiu calma.
Fria.
— Nome.
Fez uma breve pausa.
— Endereço.
Outra.
— Família.
Os dedos tocaram distraidamente um pequeno corte em sua mão, causado pelos cacos de vidro.
Uma gota de sangue surgiu na ponta do polegar.
Ele a observou com curiosidade.
— Amigos.
Trabalho.
Rotina.
Quero saber onde ela mora, para onde vai, quem ama e em quem confia.
O segurança apenas assentiu.
— Sim, senhor.
Marcelo esfregou o sangue entre os dedos antes de voltar a olhar par
a a cidade.
Havia um brilho diferente em seus olhos.
Não era raiva.
Também não era desejo de vingança.
Era interesse.
Um interesse perigoso.
— Faz muito tempo...
Murmurou para si mesmo.
— Que alguém tem coragem de olhar para mim sem abaixar a cabeça.
Seu sorriso tornou-se ainda mais discreto.
Ainda mais frio.
— Finalmente encontrei alguém interessante.
Muito longe dali, enquanto o carro de Bianca desaparecia pelas ruas da cidade...
Eu acreditava que aquela noite tinha acabado.
Não imaginava que, sem perceber, havia acabado de entrar no campo de visão do homem mais obstinado que já conheceria.
E que sair dele seria muito mais difícil do que enfrentá-lo.
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