Capítulo 4 Capítulo 4 - O começo do pesadelo
Meu corpo simplesmente parou de funcionar.
Continuei olhando para a tela do celular como se minha mente fosse incapaz de compreender o que meus olhos viam.
A fotografia ocupava quase toda a tela.
Era eu.
Parada na janela da sala, afastando a cortina com dois dedos, exatamente como havia feito poucos segundos antes.
Meu rosto aparecia de perfil, iluminado pela luz amarelada da casa. A expressão era de pura apreensão, embora eu só percebesse isso agora.
A foto estava nítida.
Próxima.
Quem a tirou não estava longe.
Meu estômago se contraiu com tanta força que senti o gosto amargo da náusea subir pela garganta.
As pernas perderam a firmeza.
Precisei apoiar uma das mãos na parede para não cair.
Meu coração batia tão rápido que chegava a doer.
Do outro lado da ligação, a voz de Bianca soou distante.
— Nanda?
Demorei alguns segundos para perceber que ela ainda estava na linha.
— Nanda, fala comigo!
Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Minha respiração estava curta demais.
Forcei o ar a entrar nos pulmões.
— Ele...
Minha voz falhou.
Fechei os olhos por um instante.
— Ele tirou uma foto minha.
Silêncio.
— Bianca?
— Estou ouvindo.
Ela também falava mais baixo agora.
Mais séria.
— Agora.
A palavra saiu quase como um sussurro.
— A foto foi tirada agora.
Do outro lado da linha, não houve perguntas.
Ela entendeu imediatamente.
— Eu estou indo.
A ligação foi encerrada.
Continuei imóvel.
O celular ainda tremia em minhas mãos.
Ou talvez fosse eu.
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— Foi ele?
Levantei os olhos.
Minha avó permanecia parada perto do sofá, apertando nervosamente as próprias mãos.
Seu rosto, normalmente tão tranquilo, estava pálido.
Ela já havia percebido que alguma coisa muito grave havia acontecido.
Engoli em seco.
Assenti lentamente.
Vi seus olhos se encherem de preocupação.
Naquele instante, senti uma culpa esmagadora.
Ela nunca deveria estar vivendo aquilo por minha causa.
Aproximei-me e segurei suas mãos.
Estavam frias.
— Vó...
Respirei fundo.
Precisava manter a calma.
Se eu me desesperasse, ela também se desesperaria.
— Quero que a senhora me prometa uma coisa.
Ela assentiu sem desviar o olhar.
— O que você pedir.
— Se aquele homem aparecer aqui outra vez...
Minha voz endureceu.
— Não abra o portão.
Ela permaneceu em silêncio.
Continuei.
— Não importa o que ele diga.
Não importa se parecer educado.
Se disser que me conhece.
Se falar meu nome.
Não abra.
Ela apertou minha mão.
— Fernanda...
— Promete.
Vi seus olhos marejarem.
Ela nunca gostou de me ver com medo.
Talvez porque sempre tivesse feito de tudo para que eu me sentisse protegida.
Depois de alguns segundos, concordou.
— Eu prometo.
Respirei um pouco mais aliviada.
Ainda assim, meu olhar voltou involuntariamente para a janela.
A rua permanecia vazia.
Mas a sensação de estar sendo observada não desaparecia.
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Bianca chegou pouco mais de vinte minutos depois.
Assim que entrou, fechou o portão, conferiu a rua dos dois lados e só então atravessou a varanda.
Ela nunca fazia isso.
Seu jeito impulsivo parecia ter desaparecido no momento em que percebeu a gravidade da situação.
Entrou na sala e caminhou diretamente até mim.
— Me mostra.
Entreguei o celular sem dizer uma palavra.
Ela leu a mensagem.
Observou a fotografia.
Ampliou a imagem.
Depois voltou a olhar para mim.
Seu semblante endureceu.
— Isso passou de todos os limites.
Assenti em silêncio.
Ela caminhou até a janela e afastou discretamente a cortina.
A rua continuava deserta.
Mesmo assim, voltou a fechá-la imediatamente.
— Você chamou a polícia?
— Fui à delegacia hoje.
— E?
Soltei uma risada amarga.
Sem humor.
Sem vontade.
— Disseram que ainda não podem fazer nada.
Bianca fechou os olhos por alguns segundos.
Respirou fundo.
Quando tornou a abri-los, havia indignação em seu olhar.
— É impressionante.
Cruzou os braços.
— Parece que uma mulher precisa desaparecer para começarem a acreditar que ela estava correndo perigo.
Ninguém respondeu.
Porque nenhuma de nós conseguia dizer que ela estava errada.
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Naquela noite, Bianca recusou-se a ir embora.
— Você não vai dormir sozinha.
— Não precisa...
Ela me lançou um olhar que encerrava qualquer discussão.
— Precisa, sim.
Minha avó concordou imediatamente.
As duas começaram a verificar portas e janelas enquanto eu observava tudo em silêncio.
Pela primeira vez na vida, aquela casa deixou de parecer completamente segura.
Empurramos um pequeno armário contra a porta da frente.
Conferimos as trancas.
Fechamos todas as cortinas.
Apagamos as luzes da varanda.
Mesmo assim...
Eu continuava inquieta.
O menor estalo da madeira fazia meu corpo enrijecer.
O vento balançando as folhas da árvore do quintal parecia alguém caminhando do lado de fora.
Quando um carro passou lentamente pela rua, meu coração disparou.
Corri até a janela.
Afastei apenas um canto da cortina.
Não era ele.
Voltei para o sofá.
Cinco minutos depois, fiz a mesma coisa.
E depois outra.
Bianca percebeu.
Sentou-se ao meu lado.
— Você precisa parar de olhar.
Continuei encarando a fresta da cortina.
— E se ele voltar?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Se voltar...
Segurou minha mão.
— Nós vamos enfrentar isso juntas.
Sorri de leve.
Mas o sorriso não chegou aos meus olhos.
Naquela noite, ninguém dormiu de verdade.
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Os dias seguintes passaram lentamente.
Ou talvez eu apenas tivesse perdido a noção do tempo.
Na terça-feira, um motoboy apareceu no hospital com uma caixa de chocolates importados.
Não aceitei.
Pedi que devolvesse ao remetente.
Ele explicou que não havia nome.
Na quarta-feira, uma joalheria entregou um colar delicado de ouro branco.
Nem cheguei a abrir a embalagem.
Na quinta-feira, foi um perfume francês.
O frasco permanecia lacrado.
Todos os presentes tinham algo em comum.
Nenhum trazia assinatura.
Mas todos carregavam a mesma intenção.
Mostrar que ele continuava ali.
Cada entrega fazia meu peito apertar um pouco mais.
Cada pacote me lembrava que Marcelo Ferraz não havia desistido.
E, pior...
Parecia não ter a menor intenção de desistir.
Na sexta-feira, eu já não conseguia distinguir o que era medo e o que era exaustão.
Dormia pouco.
Comia sem sentir gosto.
Acordava várias vezes durante a noite para verificar se todas as portas estavam trancadas.
No hospital, eu fazia um esforço enorme para manter a concentração.
Os pacientes não tinham culpa de nada.
Eles precisavam de alguém atento, cuidadoso, presente.
E eu me recusava a permitir que o meu problema colocasse qualquer um deles em risco.
Naquela manhã, terminei de fazer o curativo em um senhor que não parava de contar histórias da juventude. Sorri quando ele agradeceu, organizei os materiais e retirei as luvas.
Foi então que meu celular vibrou no bolso do jaleco.
Imaginei que fosse Bianca.
Ou minha avó.
Peguei o aparelho sem preocupação.
Número desconhecido.
A tela exibia apenas uma mensagem.
"Você fica linda de cabelo preso."
Meu corpo inteiro gelou.
Instintivamente, levei a mão até a nuca, onde meu coque malfeito prendia os cabelos desde o início do plantão.
Aquilo significava apenas uma coisa.
Ele estava por perto.
Ergui a cabeça lentamente.
O corredor permanecia movimentado.
Uma mãe empurrava um carrinho de bebê.
Dois médicos conversavam perto do posto de enfermagem.
Um paciente reclamava da demora no atendimento.
Visitantes caminhavam de um lado para o outro.
Um cenário absolutamente comum.
Mesmo assim, pela primeira vez, todas aquelas pessoas pareceram estranhas.
Qualquer uma delas podia estar me observando.
Meu olhar percorreu o corredor inteiro.
Foi quando notei um homem de boné escuro, parado próximo aos elevadores.
No exato instante em que nossos olhares quase se cruzaram, ele abaixou a cabeça e entrou na cabine.
Meu coração disparou.
— Espera!
Corri.
Os passos ecoaram pelo corredor.
Algumas pessoas olharam na minha direção, assustadas.
Quando alcancei o elevador, as portas de aço já estavam se fechando.
Vi apenas um reflexo distorcido antes que desaparecessem completamente.
Apertei o botão repetidas vezes.
Inútil.
O elevador já descia.
Fiquei parada diante das portas metálicas, tentando recuperar o fôlego.
Meu reflexo no inox parecia o de outra pessoa.
Os olhos estavam arregalados.
O rosto perdera completamente a cor.
Atrás de mim, a rotina do hospital seguia normalmente.
Mas, para mim, tudo havia mudado.
A sensação de segurança que aquele lugar sempre me proporcionara começava a desaparecer.
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No intervalo do café, sentei-me ao lado de Camila na pequena copa dos funcionários.
O cheiro de café recém-passado costumava me acalmar.
Naquele dia, não fez diferença.
Eu girava a colher dentro da xícara sem realmente beber.
Camila observou o movimento por alguns segundos.
— Aconteceu alguma coisa de novo.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Empurrei o celular na direção dela.
Ela leu a mensagem.
Seu semblante mudou imediatamente.
— Meu Deus...
Passou a mão pelos cabelos, inquieta.
— Isso foi hoje?
Assenti.
— Durante o plantão.
Ela olhou para a porta da copa antes de voltar a falar, como se temesse que alguém pudesse estar ouvindo.
— Nanda, isso já passou de perseguição.
— Eu sei.
— Você precisa trocar de número.
Soltei uma risada cansada.
— Ele descobriu meu endereço em menos de dois dias. Você realmente acha que um número novo vai impedir alguma coisa?
Ela permaneceu em silêncio.
Sabíamos a resposta.
— Então muda de casa.
Olhei para ela.
Gostaria que fosse tão simples.
— Com que dinheiro?
Camila abaixou os olhos.
Meu salário mal cobria as despesas da casa, os remédios da minha avó e as contas do mês.
Alugar outro imóvel, pagar mudança e recomeçar em outro lugar era um luxo que eu não podia sequer considerar.
A impotência pesou entre nós.
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Quando o expediente terminou, o céu já estava coberto por nuvens escuras.
Resolvi sair pelos fundos do hospital.
Imaginei que evitar a entrada principal diminuiria as chances de encontrar qualquer pessoa me esperando.
Foi um erro.
O estacionamento dos funcionários era amplo e silencioso.
Os postes de iluminação começavam a acender um a um, lançando círculos amarelados sobre o concreto.
Meus passos ecoavam pelo espaço quase vazio.
Segurei a bolsa com mais força contra o corpo.
Então ouvi outro som.
Passos.
Atrás de mim.
Continuei andando.
Os passos continuaram.
Acelerei.
Eles também.
O sangue pareceu desaparecer do meu rosto.
Meu coração batia tão forte que abafava qualquer outro ruído.
Respirei fundo, tentando controlar o pânico.
Talvez fosse outro funcionário.
Talvez eu estivesse imaginando coisas.
Então uma voz masculina rompeu o silêncio.
— Fernanda.
Congelei.
Conhecia aquela voz.
Virei lentamente.
Marcelo Ferraz permanecia a poucos metros de distância.
Usava um terno escuro impecavelmente alinhado, como se tivesse acabado de sair de uma reunião importante.
O relógio brilhava discretamente em seu pulso.
As mãos descansavam nos bolsos da calça.
Sua postura era tranquila.
Elegante.
Quase cordial.
Como se aquele encontro fosse absolutamente normal.
Mas havia algo profundamente perturbador na serenidade dele.
Era a calma de alguém que acreditava ter todo o controle da situação.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— O que você está fazendo aqui?
Ele sorriu.
Era um sorriso pequeno.
Controlado.
— Vim ver você.
As palavras fizeram minha pele se arrepiar.
— Você está me perseguindo.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Prefiro dizer que estou interessado.
Dei um passo para trás.
— Isso não é interesse.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— É obsessão.
Por um instante, ele pareceu refletir sobre minhas palavras.
Depois sorriu novamente.
— Talvez.
A sinceridade daquela resposta foi ainda mais assustadora.
Continuei recuando.
— Me deixa em paz.
— Não posso.
— Pode, sim.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Não quero.
Minha garganta secou.
Ao redor, o estacionamento permanecia quase vazio.
O vento atravessava o espaço carregando algumas folhas secas pelo chão.
Nunca me senti tão sozinha.
Marcelo diminuiu mais um pouco a distância entre nós.
— Desde aquela noite...
Sua voz era baixa.
Quase gentil.
— Você não saiu mais dos meus pensamentos.
Meu estômago revirou.
Ele falava daquilo como se fosse uma declaração romântica.
Mas cada palavra soava como uma ameaça.
Meu corpo inteiro gritava para correr.
As pernas, porém, pareciam incapazes de obedecer.
Então uma buzina rompeu o silêncio.
Um carro acabava de entrar no estacionamento.
Marcelo desviou os olhos por um breve instante.
Suspirou, claramente incomodado com a interrupção.
— Ainda não é a hora.
Antes que eu conseguisse reagir, ele deu meia-volta.
Entrou em um sedã preto estacionado algumas vagas adiante.
O motor ligou.
O carro saiu lentamente, desaparecendo pela rampa de acesso.
Só quando as lanternas vermelhas sumiram de vista percebi que estava prendendo a respiração.
O ar escapou dos meus pulmões de uma vez.
Minhas pernas cederam.
Caí de joelhos sobre o asfalto frio.
As mãos tremiam sem controle.
O corpo inteiro parecia incapaz de distinguir o perigo da segurança.
Alguns segundos depois, lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Não porque eu fosse fraca.
Mas porque finalmente compreendi a dimensão do problema.
Marcelo Ferraz não era apenas um homem insistente.
Ele era paciente.
Calculista.
E estava acostumado a conseguir tudo o que desejava.
Naquela tarde, ele deixou uma verdade muito clara.
Aquilo não era mais um encontro desagradável.
Nem uma coincidência.
Era uma perseguição.
E eu tinha a terrível sensação de que o pior ainda estava por vir.
