Capítulo 1

Kane era o tirano incontestável do nosso colégio, notoriamente cruel com as palavras.

Eu sempre fui mais cheinha. Quando os novos uniformes de cheerleader, bem justos, chegaram ao vestiário, Kane não se conteve e soltou uma risada de deboche.

— Você vai mesmo desfilar por aí com isso? — ele zombou. — Ah, por favor. Você parece um porco prestes a estourar a própria pele. É vergonhoso.

Eu nem conseguia começar a contar quantas vezes desmoronei por dentro por causa das farpas ácidas do Kane. Mas, todas as vezes, eu me forçava a engolir a humilhação.

Por quê? Porque ele era o quarterback estrela mais cobiçado do estado.

Porque, sempre que alguém tentava me infernizar, ele se metia no meio com aquele jeito ferozmente impaciente e inegavelmente protetor. Essa era a minha justificativa.

Até a véspera do Campeonato Estadual.

Daisy, uma caloura insignificante que mal tinha conseguido entrar na equipe de cheerleader, pegou o livro de jogadas confidencial que o nosso time passou três meses agonizantes aperfeiçoando e entregou, na cara dura, aos nossos maiores rivais.

Normalmente, Kane teria zombado e destruído o culpado com palavras até não sobrar nada da dignidade da pessoa.

Mas, dessa vez? Ele só deu um passo à frente, tirou um pacote de lenços do bolso da jaqueta varsity cara, jogou aos pés da Daisy e desviou o olhar.

— Para de chorar — disse ele, com a voz estranhamente contida. — O estrago já está feito, e lágrima nenhuma vai consertar porcaria nenhuma. E, além disso, seu rosto fica todo vermelho e inchado quando você chora. Fica feio.

Agora, o ar do lado de fora do vestiário dos jogadores estava denso o bastante para pegar fogo.

Cinco minutos atrás, o comitê do torneio tinha jogado a bomba: por causa de uma violação grave de confidencialidade tática, para manter a integridade do jogo, o time de futebol americano da nossa escola estava oficialmente desclassificado do campeonato.

Não era só um jogo.

As arquibancadas já estavam cheias de olheiros da Ivy League. Para muitos dos caras do elenco, aquilo era o único bilhete de saída — a única chance de conseguir uma bolsa esportiva integral e mudar de vida. E agora, todo o sangue, suor e lágrimas tinham virado fumaça.

— Um acidente? Você acha que a gente tem cara de idiota? — rugiu para a Daisy o nosso linebacker titular, um cara de cabelo raspado e olhos injetados.

— Quem “acidentalmente” imprime um livro de jogadas inteiro, grosso pra caramba, página por página, e enfia certinho por baixo da porta do vestiário do time rival?!

Os olhos da Daisy estavam vermelhos nas bordas, e os ombros dela tremiam sem controle. — Eu sinto muito, gente... eu juro que não foi por mal.

Eu só estava entregando as bebidas esportivas e confundi os números dos vestiários... Eu sei que estraguei o esforço de vocês, eu sei mesmo que eu fiz merda...

O time não acreditava em um segundo daquilo. A fúria no corredor ameaçava arrancar o teto.

— Os dois vestiários ficam em lados opostos do estádio! Norte e Sul! Você vai me dizer que não sabe nem se orientar?

— Guarda esse choro falso! Você está fazendo cena pra quem? Esse tipo de “erro de quem não tem cérebro” é pior do que envenenar direto os nossos bebedouros!

Bem na hora em que a indignação ameaçava ferver e virar algo físico, Kane soltou um riso baixo de desdém.

“Cuidem da boca.” Kane se colocou na frente de Daisy, o olhar gélido varrendo os próprios companheiros de equipe. “Um bando de marmanjo encurralando e intimidando uma garota numa hora dessas? Patético.”

Um silêncio mortal caiu sobre o corredor.

Todos encararam Kane, em pura incredulidade.

Aquele era o predador no topo da cadeia alimentar do colégio, um perfeccionista obcecado por limpeza que desprezava incompetência.

Normalmente, se um wide receiver errasse uma única rota em campo, Kane o ridicularizava sem piedade. Ele nunca tolerava fraqueza.

E, no entanto, ali estava ele, defendendo publicamente uma novata que acabara de cometer alta traição contra o próprio time.

Ao encarar o pacote de lenços jogado aos pés de Daisy, uma onda sufocante de amargor subiu pela minha garganta, ardendo nos meus olhos.

Eu conhecia bem demais aquele tom — aquela mistura específica de nojo e resignação relutante.

Mas a realidade esmagadora era esta: todas as vezes em que as palavras cruéis dele me rasgaram por dentro, me deixando soluçando no meu quarto, ele só ficava ali, com as mãos enfiadas fundo nos bolsos, os olhos cheios de uma irritação absoluta.

Dá pra parar com isso? Você vai mesmo chorar pra sempre por uma besteira dessas? Jesus, você é irritante.

Ele nunca, nem uma única vez, mostrou comigo uma fração da paciência que estava mostrando com ela agora. A discrepância gritante me atingiu como um tapa na cara, me sacudindo violentamente, me arrancando de anos de autoengano.

Aos poucos, os olhares carregados se desviaram de Kane e pousaram em mim. Como capitã das líderes de torcida — e a namorada oficialmente assumida de Kane, notoriamente — eles esperavam a minha decisão.

Puxei o ar, cravando as unhas nas palmas para me obrigar a manter os pés no chão. Encarei Daisy, fungando, sem desviar.

“Se isso foi um erro honesto ou uma sabotagem calculada, o fato é que você comprometeu o time inteiro e arruinou o futuro de muita gente.” Mantive a voz neutra, firme. “A partir de agora, você está fora de todos os próximos jogos e eventos do grupo. Você está fora das líderes de torcida.”

A cabeça de Daisy se ergueu num solavanco, me encarando em choque absoluto, antes de as lágrimas começarem a cair ainda mais forte.

“Wynne, eu sei que você sempre me desprezou porque eu venho de uma família comum. Eu sei que você me odeia”, ela soluçou, a voz falhando perfeitamente na hora certa.

“Mas ninguém é perfeito. Eu pedi desculpas! Você vai mesmo tirar o meu único sonho por causa de uma curva errada?”

Os jogadores de futebol americano, que tinham se calado por um instante, explodiram de novo, furiosos com a ousadia dela.

“Que sonho?! Você nem consegue lembrar formações básicas! Você puxa o time pra baixo toda vez que pisa no campo, e agora tá pagando de vítima?”

“Você devia agradecer a Deus por a gente não estar te fazendo pagar o prejuízo financeiro que você causou a este time! Cai fora daqui!”

“Chega!”

Kane rosnou, a voz estalando como um chicote. Ele virou o rosto e olhou para mim. A expressão nos olhos dele era completamente estranha — carregada de nojo puro, sem filtro.

“Wynne, você deveria ser uma líder. Vai mesmo ficar aí parada assistindo um bando de caras intimidar alguém que não tem como revidar?”

Ele zombou, dando um passo à frente, se impondo sobre mim.

“Usando esse seu tiquinho de poder pra acertar contas pessoais? Fazendo papel de patricinha cruel? É, eu esqueci — você sempre foi cúmplice desse tipo de merda.”

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