Capítulo 3

Cerrei a mandíbula, engolindo o bolo ardido e ácido que se formava na minha garganta. Forcei-me a erguer os olhos para ele.

Ele estava de costas para mim, tomando um gole d’água com naturalidade, como se o mundo não estivesse desabando ao nosso redor.

— Ela vazou meses do nosso playbook da equipe — cada rotina que a gente treinou até a exaustão — pros nossos maiores rivais. Ela estragou o Nacional pra todo mundo.

Minha voz tremeu, entregando o soluço que eu tentava desesperadamente engolir. — Como capitã do time, eu a coloquei no banco e suspendi as atividades dela. É protocolo padrão. Como é que isso faz de mim a vilã?

Kane se virou, um vinco irritado se aprofundando entre as sobrancelhas.

— Kane, você sempre detestou gente burra, imprudente e que se recusa a seguir regras — insisti.

— Então por quê? Por que a Daisy é a exceção dourada? Hoje você me humilhou na frente de todo mundo pra defender ela. Você jogou a bagunça dela nas minhas costas só pra quê, me colocar no meu lugar?

— Você está sendo completamente irracional agora. — Ele bateu o copo na bancada de granito com um clac seco, o rosto tenso de irritação.

— Eu só não gostei de ver todos vocês se juntando contra uma garotinha indefesa por causa de um dramazinho mesquinho. Qual é o problema nisso?

— E você sequer pensou em mim?!

Dois anos de orgulho engolido e de andar pisando em ovos se estilhaçaram com violência. Meus olhos arderam, quentes e vermelhos.

— Eu sou sua namorada! Quando você me despedaçou na frente do time inteiro pra bancar o cavaleiro branco dela, você parou por um segundo que fosse pra pensar no que eu ia sentir?

Kane nem piscou. Apenas levantou o queixo, soltando uma risada oca e desdenhosa.

— Meu Deus, Wynne, sua imaginação é exaustiva. Você está transformando um incidente completamente banal nesse surto enorme de ciúme paranoico. Você está agindo como uma dona de casa amarga e histérica. É incrivelmente pouco atraente.

Ciúme? Banal?

Eu encarei ele, a mente girando diante da pura audácia.

— Você faz ideia do que o Nacional significava pra mim? — Inclinei a cabeça para trás, piscando com força para impedir as lágrimas de transbordarem.

— Ficar bem colocado naquele torneio significava prêmio em dinheiro e aumento na bolsa. Isso era minha mensalidade do semestre da primavera. Mais importante: era a única maneira de eu conseguir pagar a fisioterapia da minha avó no mês que vem.

— Ela não estragou só um jogo, Kane. Não manchou só alguma “reputação” que você acha que eu ligo. Ela literalmente cortou a linha de vida de todo o meu futuro. Eu a puni como manda o regulamento, e ela merecia pior!

Eu tinha pensado — talvez ingenuamente — que arrancar minhas próprias feridas de uma vez finalmente mostraria a ele o peso daquilo. Que, se ele visse o sangue, entenderia que não era uma briguinha clichê de faculdade.

Eu estava terrivelmente errada.

A expressão dele não amoleceu; o sorriso cruel nos lábios só se endureceu. — Lá vamos nós de novo. Fazendo a mártir, pescando pena. Sinceramente, Wynne, eu estou de saco cheio dessa história de “artista faminta, lar destruído”. Se você não consegue o dinheiro, e daí? O mundo para de girar?

Naquele instante, alguma coisa se quebrou dentro de mim. A voz desesperada e patética na minha cabeça, que passou dois anos inventando desculpas pra ele, simplesmente... morreu.

Eu finalmente vi a verdade com uma clareza cristalina.

Meu maior erro nos últimos dois anos não foi não conseguir atender aos padrões impossíveis dele.

Foi esgotar cada gota da minha alma para amar um monstro — um homem tão empoleirado na própria torre de marfim que o conceito de sofrimento humano cotidiano era completamente estranho para ele.

O mundo dele era construído inteiramente sobre controle e esterilidade. Não havia espaço para empatia. Não havia espaço para amor. E com certeza não havia espaço para mim.

Agarrei os braços do sofá e me pus de pé.

Entre o peso esmagador das emoções e o fato de ter pulado o jantar por completo, uma onda de vertigem me atingiu como um trem desgovernado.

Minha visão afunilou até a escuridão, e meus joelhos cederam, me fazendo cambalear para a frente.

Kane estava bem ali. Instintivamente, o braço direito dele se moveu, e ele deu meio passo para a frente para me segurar.

Mas um segundo antes de as pontas dos dedos roçarem meu suéter, os olhos dele se fixaram no meu rosto — a maquiagem borrada, a pele marcada pelas lágrimas, o emaranhado bagunçado e exausto do meu cabelo.

Ele puxou o braço de volta como se eu desse choque. Deu um passo nítido e deliberado para trás, os traços se retorcendo num nojo sutil.

Agarrei a quina da mesa de centro com a mão trêmula, tentando me firmar.

Ao ver o recuo visceral dele, uma risada oca, trágica, rasgou meu peito.

— Pense o que você quiser — eu soprei, endireitando-me por completo. Sustentei o olhar dele, minha voz carregando uma clareza baixa e aterrorizante. — Kane, acabou.

As pupilas dele se dilataram. Por uma fração de segundo, um choque genuíno rachou a máscara perfeitamente composta.

Mas não durou nem três segundos. A máscara voltou com um estalo, distorcida em algo feio e venenoso.

— Você enlouqueceu, Wynne? Está fazendo birra e terminando tudo por causa de uma besteira mesquinha de colégio?

— Tá bom. Jogue assim. Mas, já que é você quem está puxando o gatilho, não ouse voltar rastejando para mim, chorando, quando a realidade bater.

— Eu não vou me arrepender de porra nenhuma — eu disse, com a voz completamente esvaziada. — Vou arrumar minhas coisas e vou embora daqui hoje à noite. Depois disso, nós não existimos um para o outro.

O silêncio sufocante da sala de estar foi subitamente estilhaçado por um toque de celular.

Vinha do paletó dele, largado sobre o aparador do hall de entrada. Kane foi até lá e puxou o celular.

No instante em que viu a tela, a raiva nos olhos dele mudou, emperrando e virando algo calculista.

De onde eu estava, consegui ver o identificador de chamadas. Daisy.

Kane arqueou uma sobrancelha. Ele não apenas atendeu; deliberadamente tocou no viva-voz. Na mesma hora, a voz frágil e enjoativamente doce de Daisy ecoou pela sala de pé-direito alto:

— Kane... me desculpa incomodar tão tarde. Eu estava fazendo uma corridinha no parque à noite, tentando esfriar a cabeça, e tropecei. Minha perna está sangrando bastante. Eu estou sentada num banco no escuro e estou com muito medo... Você pode, por favor, vir ficar comigo?

Os olhos de Kane correram até mim, captando minha expressão de pedra, antes de a voz dele descer para um tom irritantemente gentil.

— Não se mexe. Me manda a localização. Estou indo.

Ele desligou, apertando o celular, e se virou de volta para mim.

— Ouviu isso? Isso é como se pede desculpas quando alguém faz merda — ele disse, erguendo o queixo.

— Wynne, eu normalmente não dou segunda chance. Mas hoje estou generoso. Aqui vai sua última saída: engole esse orgulho agora, vem comigo e pede desculpas para a Daisy. Tira essa suspensão ridícula, e eu finjo que seu surto psicótico de hoje à noite nunca aconteceu.

Mesmo agora. Mesmo no fim amargo, ele acreditava de verdade que aquilo tudo era blefe, algum joguinho calculado de difícil de conseguir.

Ele ainda queria quebrar o meu último fiapo de coluna, me obrigando a me ajoelhar diante da mesma garota que acabara de incendiar a minha vida.

— Guarde sua caridade condescendente para você — eu cortei, sem perder o ritmo. — Eu conduzi a minha equipe exatamente como eu tinha que conduzir. Eu não tenho nada pelo que pedir desculpas.

Apontei um dedo rígido para a porta da frente.

— Já que você está tão preocupado com ela sentada no escuro, sozinha, você pode dar o fora e ir até ela.

— Você...!

O rosto dele empalideceu de um jeito perigoso. O pomo de Adão subiu e desceu com força quando ele apontou um dedo para mim.

— Você vai se arrepender de tudo o que acabou de dizer!

BAM.

A pesada porta de mogno estremeceu no batente.

Virei as costas, entrei no enorme closet e arrastei para fora a mala barata e surrada que eu tinha trazido no primeiro ano da faculdade. Comecei a arrumar minhas coisas.

Sobre a penteadeira estavam as “oferendas” que Kane me concedera nos últimos dois anos. O colar da Tiffany. A pulseira Love da Cartier.

Um conjunto impecável, lacrado a vácuo, da La Mer. Algumas bolsas Hermès de edição limitada.

Cada item custava mais do que a minha vida valia; e cada item sempre parecera uma algema de veludo.

Durante dois anos, a divisão de classe gritante me fizera encolher dentro desse relacionamento.

Eu tratava aqueles luxos como peças de museu, apavorada de arranhá-los, enquanto continuava passando meu hidratante de farmácia, quase no fim.

Naquela noite, calmamente, abri as gavetas de baixo. Peguei minhas camisetas desbotadas e lavadas demais, meu jeans gasto e uma pilha de livros universitários, enfiando tudo na mala.

Quando as primeiras faixas cinzentas do amanhecer finalmente se espalharam sobre o tapete macio, eu já estava parada na porta do apartamento, com minha mala leve e surrada na mão.

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