Capítulo 4

Dei uma última olhada para a cobertura de luxo que mantivera minha autoestima refém nos últimos dois anos.

Sem um pingo de hesitação, girei a maçaneta, deixando o cartão-chave do Kane quieto sobre o aparador na entrada.

Clique.

O som da trava se encaixando me atravessou com uma dor fantasma nos joelhos, arrastando minha mente direto para uma noite chuvosa de um ano atrás.

Eu tinha acabado de sair de um turno com adicional por dobradinha numa lanchonete de esquina e, voltando para casa de bicicleta naquele toró, eu tinha me estraçalhado no asfalto.

Quando empurrei a porta do apartamento, sangrando pela calça jeans e com ralados nos dois braços, Kane nem sequer levantou os olhos da revista financeira.

Só beliscou a ponte do nariz, enojado.

— Vai se lavar. Você vai estragar os tapetes — ele disse, com a voz completamente neutra.

Quando enfim saí do banheiro, cerrando os dentes enquanto passava iodo nos cortes, ele veio até mim e largou o cartão preto sem limite no meu colo, com um peteleco.

Falou com a arrogância casual de um rei dando esmola a uma camponesa:

— Pega. Como minha namorada, não existe motivo nenhum pra você se matar por salário mínimo. Você parece que acabou de sair de uma sarjeta, e isso me constrange.

Naquela época, eu fui burra o bastante para confundir a condescendência dele com um afeto desajeitado.

Mas eu não gastei um centavo daquilo comigo.

Nem quando o coração da minha avó falhou e correram com ela para a UTI — quando o cirurgião-chefe me entregou um ultimato sobre as taxas exorbitantes da ponte de safena — eu só passei aquele cartão porque era como ter uma arma apontada para a minha cabeça. Cada transação ia direto para um caderninho de bolso já desbotado.

Eu trabalhava em três empregos, jurando que devolveria até o último centavo antes da formatura.

Hoje, aquele caderninho estava bem ao lado do cartão preto.

O estalo seco da porta batendo, naquela manhã, tinha cortado o último laço — dinheiro, emoção e o pouco de dignidade que me restava — entre Kane e eu.

Meia hora depois, eu estava dentro do alojamento mais caindo aos pedaços do Campus Leste.

Eu tinha mantido esse quarto individual apertado — uma sobra obrigatória do primeiro ano —, embora ele tivesse praticamente virado um depósito.

Ao empurrar a porta, o ar vinha carregado do cheiro de madeira apodrecida e poeira presa.

Cansada demais até para arrumar a cama, me encolhi no colchão pelado, ainda de roupa.

Mas não havia tempo para lamber minhas feridas. Exatamente às 6h00, meu celular acendeu, vibrando com agressividade contra a madeira. Do outro lado do campus, os grupos explodiam.

O Campeonato Estadual de Futebol Americano tinha acabado de ser oficialmente cancelado.

Às 9h00, eu estava no segundo andar do prédio de Esportes.

Bam!

Um playbook enorme acertou a mesa de mogno com tanta força que folhas soltas de esquemas defensivos se espalharam pelo chão.

O técnico Miller tremia de raiva, as veias nas têmporas ameaçando estourar.

Eu me mantive imóvel, em posição de sentido diante dele.

— Me explica isso! — Miller berrou. — Wynne, você é a capitã das cheerleaders! Você coordena a logística de toda essa pós-temporada! Quarenta e cinco garotos sangraram por isso! Oito meses de preparação!

— E agora você vai olhar nos meus olhos e me dizer como o nosso playbook mestre foi parar, bonitinho como um quadro, dentro do vestiário do nosso rival?!

Enterrei as unhas nas palmas das mãos, forçando-me a manter os pés no chão.

— Técnico, o transporte do playbook ontem—

"Eu não quero ouvir desculpas!" ele rosnou, os olhos arregalados, tomados por uma mistura de fúria e coração partido. "Você faz ideia de quantos olheiros da Divisão I iam estar naquelas arquibancadas hoje? Você tem noção de que esse cancelamento acabou de arrancar bolsas esportivas integrais de pelo menos cinco crianças que não teriam como pagar a faculdade de outro jeito? Como coordenadora, essa cagada catastrófica cai inteiramente nas suas costas!"

Eu sabia que, como chefe da logística, eu carregava a responsabilidade final, mas antes que eu conseguisse abrir a boca para expor a verdade, a porta do escritório escancarou, batendo na parede com um estrondo.

"Coach! Isso não é culpa da Wynne!"

Era o Brody, nosso linebacker titular, com os olhos vermelhos.

Logo atrás dele vinha Chloe, minha co-capitã das líderes de torcida, e um punhado de outros titulares. Eles claramente tinham ouvido falar da execução e correram para cá para interceptar.

Brody marchou até o meu lado, com um músculo pulsando no maxilar. "A Wynne não preparou nem transportou os playbooks ontem. Foi a Daisy, a novata do time!"

"Foi ela", Chloe emendou, com a voz tremendo de nojo.

"Ela pegou as pastas-mestre e, convenientemente, ‘se perdeu’, entregando nosso jogo inteiro de bandeja bem debaixo da porta do time rival. A Wynne é a vítima aqui. Ela demitiu a Daisy na hora ontem à noite, e agora está levando a culpa por isso!"

O alvo mudou na hora. O coach Miller ficou imóvel.

"...Quem?" O coach puxou o ar com aspereza, arrancou o telefone da mesa e latiu para o assistente do lado de fora: "Traga essa garota, Daisy, para o meu escritório. Agora!"

A espera de dez minutos pareceu uma década.

Por fim, passos ecoaram pelo corredor. Daisy apareceu na porta, com cara de que uma brisa mais forte podia derrubá-la.

Ela estava engolida por um moletom branco enorme — uma escolha altamente calculada para fazê-la parecer pequena e frágil.

Os olhos dela estavam inchados como nozes, correndo pela sala como os de uma corça apavorada, antes de despencarem para o chão no instante em que encontraram o olhar fulminante do coach.

"Coach..." ela murmurou baixinho, torcendo a barra da manga. "O senhor queria falar comigo?"

Mas o que de fato fez minha respiração travar foi a figura imponente que entrou pela porta logo atrás dela.

Kane.

Ele estava com a jaqueta do time — o símbolo definitivo de sua autoridade reinante como nosso quarterback estrela.

Ele se inclinou para dentro da sala, posicionando o corpo naturalmente num gesto ferozmente protetor ao lado de Daisy.

O escritório inteiro caiu num silêncio mortal. Todos os olhares viraram para o meu rosto.

Todo mundo ali sabia que Kane era meu namorado. E, ainda assim, lá estava ele, menos de doze horas depois de eu ter terminado com ele. Não havia nenhuma tentativa desesperada de consertar a gente.

Em vez disso, ele desfilava direto para o pelotão de fuzilamento, defendendo agressivamente a garota que, sozinha, tinha destruído minha reputação e o futuro de todos eles.

Eu fiquei completamente paralisada, percebendo de repente que cada lágrima que eu derramara durante a noite era a piada de um enorme — cósmico — mau gosto.

O olhar vazio de Kane passou por Brody e pelos outros, até finalmente se fixar na linha rígida da minha coluna.

Ele soltou um riso baixo, debochado.

"Uau, Wynne", ele disse, com um sorriso cruel puxando os lábios. "Eu achei que você já tinha colocado isso pra fora ontem, quando você e seu grupinho se juntaram pra atacar uma caloura perdida no vestiário. Mas acho que eu subestimei você. Correr pro escritório do coach pra inventar mentira e salvar a própria pele? Isso é um novo fundo do poço."

Ele virou a cabeça, e os olhos dele suavizaram visivelmente ao conferir como Daisy estava, antes de voltar para mim num estalo, o olhar despencando para abaixo de zero.

"Quer falar de destruir o campeonato? Pelo que eu tô vendo, a única pessoa tentando despedaçar este time é você."

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