Capítulo 2 — Infraestrutura
A primeira semana não era sobre eles. Era sobre mim.
Loreninha — minha prima em segundo grau que ninguém levava a sério nas reuniões de família e que por isso mesmo sabia de tudo sem ser vigiada, que aparecia nos almoços do Natal sorrindo para todo mundo e guardando mentalmente cada detalhe para usar quando necessário — havia alugado o apartamento para mim dois meses antes da minha saída. Dois quartos, Vila Madalena, contrato no nome dela, depósito pago em dinheiro, sem meu CPF em lugar nenhum do documento. Quando cheguei, às oito da manhã, havia uma chave embaixo do tapete gasto na entrada e uma nota colada na porta da geladeira com fita adesiva, escrita com aquela letra redonda dela que parecia de criança mas era só desajeitada: "Tem pão e queijo. Não me ligue daqui a dez dias."
Eu gostava muito da Loreninha.
O apartamento era pequeno e cheirava a tinta nova, o tipo de cheiro que revela que alguém havia pintado às pressas para esconder que a parede estava descascando. Duas janelas. Colchão no chão, sem estrutura. Uma mesa de cozinha de plástico com duas cadeiras de plástico, o tipo que você compra no mercado municipal quando não quer gastar com móveis. Um chuveiro que eu descobri depois que balançava ligeiramente quando a água esquentava.
Fui até a janela do quarto e calculei quanto sol entrava à tarde. Muito — janela virada para o oeste, sem prédio alto do lado. Isso significava que eu precisaria de uma cortina antes de semana que vem, porque não podia ser vista de fora enquanto trabalhava.
Nos dois dias seguintes, organizei o que eu chamava, internamente, de infraestrutura.
Uma identidade operacional — não falsa, apenas nova. Abri uma MEI no portal do governo com o nome "SDrum Consultoria Financeira", CPF meu (o CPF não estava restrito, minha condenação não havia gerado esse tipo de restrição), endereço comercial num coworking da Vila Olímpia que nunca exigia presença física dos clientes. Paguei os primeiros seis meses adiantado por Pix, de uma conta que havia criado na véspera da saída.
Uma conta bancária vinculada à MEI. Um cartão pré-pago para gastos cotidianos — mercado, transporte, café. O dinheiro para financiar as próximas semanas vinha de uma parte dos honorários que eu havia guardado três anos atrás, quando ainda achava que a sociedade com o Renato seria uma escolha profissional razoável. O dinheiro tinha ficado parado numa aplicação em nome da Loreninha durante todo o processo. Ela não precisava saber o que era — eu havia dito a ela que era um reembolso, e ela havia acreditado ou fingido acreditar, que na Loreninha era difícil distinguir as duas coisas.
Um notebook usado, comprado com dinheiro em espécie num bazar de informática da Santa Ifigênia. Sem cadastro. Sem nota fiscal. Com VPN instalada antes mesmo de abrir qualquer outro aplicativo.
Três celulares pré-pagos, chips de operadoras diferentes, comprados em farmácias diferentes em dias diferentes. Dois para usar em operações específicas e depois descartar. Um para manter como linha principal.
Silêncio. Nenhum post em rede social. Nenhum contato com pessoas do passado. Nenhuma menção ao que estava acontecendo.
O silêncio era a parte mais importante de toda a infraestrutura.
Na tarde do terceiro dia, com o cortinado de lençol que havia pendurado provisoriamente na janela do quarto cortando o sol da tarde, sentei à mesa de plástico com o notebook aberto e comecei a reconstruir em documento o que já tinha de memória — agora com organização, com referência cruzada, com a estrutura que eu havia imaginado durante dezoito meses mas que só agora podia colocar no papel.
O caso contra mim havia começado com uma denúncia anônima ao Conselho Regional de Contabilidade apontando irregularidades nos relatórios da Cavalcanti & Associados, a firma de consultoria que eu havia cofundado com Renato há quatro anos. A irregularidade existia, sim — mas não era minha. Era dele. Os documentos que fundamentaram a denúncia eram autênticos, porém seletivos: mostravam apenas metade da operação, a metade em que meu nome aparecia nas assinaturas dos relatórios finais.
A outra metade — a parte em que ficava claro que eu havia documentado minhas objeções por escrito em duas ocasiões, que havia solicitado auditoria interna formalmente por e-mail, que havia ameaçado romper a sociedade e estava em processo de buscar um advogado para isso — nunca chegou ao promotor. Essa parte sumiu entre a denúncia e a instrução processual. Não por acidente.
O advogado que deveria ter apresentado esses documentos em minha defesa era o Dr. Marcos Viegas. Número três da lista.
A testemunha que confirmou ao promotor que eu havia "concordado verbalmente" com o esquema — uma afirmação que invalidou toda a minha linha de defesa ao contradizer a versão de que eu havia tentado resistir — foi Fernanda Leal, minha ex-melhor amiga. Número dois.
O promotor que acelerou o processo sem aguardar a conclusão da perícia completa dos documentos havia sido indicado para o cargo pelo secretário de justiça do estado. O secretário era cunhado de Eduardo Monteiro. Número sete.
E meu tio Cláudio havia congelado os ativos do espólio do meu pai no momento exato em que eu mais precisaria deles para financiar minha defesa.
Cada peça se encaixava com a precisão de algo que havia sido montado por alguém que sabia o que estava fazendo.
Fui fazer chá. A chaleira levou seis minutos para ferver — o fogão era velho e a chama do queimador da esquerda ficava apagando sozinha. Enquanto esperava, fiquei apoiada na pia da cozinha pequena olhando para o notebook aberto na mesa.
Os sete não eram apenas culpados. Eram um sistema. E sistemas se desmontam de fora para dentro, peça por peça, começando pelas que parecem mais sólidas — porque são essas que os outros confiam para se manter em pé. Quando você remove a peça que todo mundo pensava que era inabalável, as outras perdem o ponto de apoio.
Renato Cavalcanti era a primeira peça. A mais visível. A mais confiante de que era intocável.
A confiança era o erro dele.
