
Trinta Dias para Queimá-lo
Ana Beatriz Oliveira · Concluído · 11.5k Palavras
Introdução
Capítulo 1
Sofia Drummond saiu da prisão com uma lista de sete nomes e trinta dias para garantir que cada um deles pagaria pela farsa que a havia destruído. Não com violência — com a única moeda que eles entendiam: a verdade, exposta pelos próprios mecanismos que eles haviam usado contra ela. No trigésimo dia, ela disse o próprio nome em voz alta diante de uma sala cheia de câmeras, e a lista estava completa.
——
No dia em que saí, fiz uma lista com sete nomes — não para me lembrar de odiá-los, mas para garantir que eu não esqueceria a ordem certa de destruí-los.
A lista existia antes mesmo do papel. Eu a construí durante dezoito meses, em silêncio, nos intervalos entre audiências e consultas com o advogado da defensoria que tinha quase tão pouco interesse no meu caso quanto os promotores. Cada nome entrava na lista não por raiva — a raiva é uma droga que te deixa lenta, e eu precisava ser rápida — mas por precisão. Porque cada nome correspondia a uma peça do mecanismo que me quebrou, e peças de mecanismo se desmontam na ordem inversa em que foram montadas.
O portão abriu às seis e quarenta e dois da manhã de uma terça-feira.
Não havia ninguém me esperando. Eu não queria ninguém. Carreguei o saco plástico com as minhas coisas — uma calça jeans de antes, que ficou larga na cintura porque dezoito meses mudam o corpo, duas blusas dobradas com cuidado de quem não tem muita coisa para dobrar, uma carteira com trezentos e quarenta reais em cédulas que minha irmã havia depositado na secretaria em envelopes separados ao longo de meses, e o celular que ela tinha deixado na véspera com a tela trincada no canto inferior direito. Caminhei até o ponto de ônibus sem olhar para trás. A câmera de segurança acima do portão me filmou de costas, e foi a última imagem que existiu de mim como Sofia Drummond, ex-consultora financeira, condenada por fraude, cumprindo pena.
A partir daquele momento, eu era outra coisa. Ainda não sabia exatamente o quê. Sabia apenas que era alguém com uma lista e trinta dias.
No ônibus, sentada perto da janela com o saco plástico equilibrado entre os joelhos, abri o celular. A bateria estava em doze por cento. Abri o bloco de notas e digitei os sete nomes de memória, na ordem em que havia decidido, meses atrás, que seriam tratados:
-
Renato Cavalcanti
-
Fernanda Leal
-
Dr. Marcos Viegas
-
Cláudio Drummond
-
Patrícia Nunes
-
Rodrigo Assis
-
Eduardo Monteiro
Fechei o aplicativo sem salvar. Alguns aplicativos, quando você fecha sem salvar, perguntam se você tem certeza. Este não perguntou. Eu gostei disso.
Dezoito meses dentro daquele lugar haviam me ensinado uma coisa que a minha carreira inteira não havia: a diferença entre raiva e resolução. Raiva é quente, ocupa espaço, queima combustível de forma ineficiente — você fica tão ocupada sentindo que esquece de fazer. Resolução é fria. Ocupa menos espaço. É o tipo de coisa que você pode carregar por dezoito meses sem que pese.
Eu sabia o que cada um deles tinha feito. Eu sabia o que cada um deles acreditava ter conseguido. E eu sabia, com a precisão de quem passou dezoito meses sem mais nada para fazer além de mapear conexões e calcular sequências, exatamente como cada um seria desfeito.
O ônibus cruzou a Marginal. São Paulo ainda dormia ou fingia dormir — a cidade nunca dorme de verdade, só muda de turno. As luzes dos prédios da Faria Lima piscavam lá longe, douradas e completamente indiferentes à existência de pessoas como eu. Em algum lugar naqueles prédios de vidro espelhado, Renato Cavalcanti chegaria ao escritório às nove da manhã, pediria um café duplo para a assistente, abriria o e-mail com o relatório trimestral que ele mesmo havia mandado falsificar dois anos atrás, e não pensaria em mim nem por um segundo.
Essa era a parte que eu usaria a meu favor.
Eu não precisava de amor para me curar. Eu precisava de trinta dias, uma lista, e a certeza de que cada um deles pagaria.
— Desceu aqui, moça? — o cobrador me olhou com a indiferença de quem faz a mesma pergunta duzentas vezes por dia.
— Próximo ponto — respondi.
Faltavam vinte e oito minutos para Vila Madalena. Faltavam trinta dias para o fim da lista.
Olhei pela janela. Um rapaz em moto tentava furar o engarrafamento. Um cachorro dormia numa marquise. Uma mulher com carrinho de bebê esperava o semáforo. São Paulo sendo São Paulo — enorme, barulhenta, completamente alheia ao fato de que alguém havia saído de um lugar ruim essa manhã e estava prestes a começar a trabalhar.
Preferia não desperdiçar nenhum dos vinte e oito minutos restantes.
Fechei os olhos e, na escuridão atrás das pálpebras, passei em revista cada um dos sete nomes. Não com raiva. Com a atenção metódica de quem está conferindo uma lista de compras antes de entrar no mercado.
O primeiro nome era o mais óbvio. O sétimo era o mais importante. Os cinco no meio eram os que ninguém veria vindo, porque ninguém costuma olhar para o meio — as pessoas olham para o início e para o fim, e o meio fica exposto exatamente por isso.
Dezoito meses é muito tempo para pensar. É tempo suficiente para entender a estrutura de cada elo, a dependência entre eles, a sequência que faz a diferença entre desmontagem ordenada e colapso que volta contra você. Eu havia pensado na sequência por mais tempo do que em qualquer outra coisa. Mais do que na cela, que eu havia deixado de ver depois de três semanas. Mais do que nas audiências, que eu havia aprendido a frequentar com a neutralidade de observadora. Mais do que no futuro, que existia apenas como uma data de saída num calendário.
A sequência era a única coisa que importava agora. A raiva era combustível que eu havia guardado de forma eficiente — não gasto em sentimento, mas convertido em clareza. E a clareza era o que estava sentada comigo no ônibus naquela manhã de terça-feira, enquanto São Paulo acordava e Renato Cavalcanti fazia café no escritório que havia roubado de mim.
Faltavam trinta dias.
A sequência estava clara.
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Última Atualização: 6/25/2026
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