Capítulo 1 O amor é uma navalha ( savanna)

Assim que o primeiro raio de sol invadiu o quarto, saltei da cama antes mesmo que o despertador soasse. Vesti rapidamente minha roupa de malha e coloquei os fones de ouvido, e em poucos segundos já estava atravessando a avenida silenciosa, os tênis batendo suavemente no asfalto ainda frio. Era exatamente por isso que eu preferia correr nessas horas, o trânsito ainda não havia acordado, o mundo parecia parado e só eu e o silêncio dividíamos a manhã. O vento morno da aurora beijava meus cabelos soltos, trazendo o cheiro doce de café sendo passado nas cozinhas vizinhas e o aroma inconfundível de pão quentinho recém-saído do forno. Cada respiração funda, cada passo ritmado me lembrava, de forma simples e intensa: eu estou viva. Há dias em que essa verdade se esconde tão profundamente dentro de mim que eu quase me esqueço dela.

Antes de voltar para casa, parei na padaria da esquina e comprei uma cesta cheia de pães ainda quentes meu maior vício , e uma garrafa de leite fresco, ainda gelado. Ao cruzar a porta de casa, a primeira coisa que fiz foi correr para o banho, a água quente escorreu pelo meu corpo cansado, afastando o frio da manhã e as tensões que carregava sem saber. Enrolada apenas na toalha, fui até a cozinha e preparei meu café com calma, saboreando cada segundo daquela solidão tranquila. Essa é a maior vantagem de morar sozinha: não há olhares, não há cobranças, não há expectativas, você pode ser exatamente quem é, da maneira que quiser.

Passei o resto do dia jogada no sofá, alternando entre revistas antigas e séries que já conhecia de cor, aproveitando cada minuto de paz. Mas como diz o velho ditado: tudo o que é bom dura pouco. Antes que eu percebesse, a tarde já dava lugar ao entardecer, e chegou a hora de ir trabalhar. Como sempre, fui a última a chegar ao restaurante. Vesti o uniforme, amarrei o cabelo e saí para servir as mesas, sorrindo quando meu coração pedia para se fechar. Um ou dois clientes, embriagados e sem educação, soltaram comentários obscenos em minha direção; eu apenas baixei o olhar e continuei meu caminho, fingindo não ouvir. Ignorei como faço com tantas outras coisas que me ferem.

Ao fim da noite, eu já estava em frangalhos

os pés doíam, a garganta estava seca e a alma parecia pesada. Juntamente com Nanda, minha melhor amiga e única confidente, caminhamos até o ponto de ônibus. A rua estava deserta, apenas nós duas sob a luz fraca dos postes. Eu sabia do perigo, sentia o frio na espinha, mas não havia escolha, as contas não esperam, o aluguel não se adiia e eu precisava sobreviver.

— E você e o Carlinho? Como andam?perguntei, tentando puxar assunto para afastar o medo.

— Ele vai me levar para conhecer os pais dele neste final de semana . respondeu ela, com os olhos brilhando de alegria.

— Sério mesmo?

— Claro! Estou tão ansiosa, tão feliz...

— Viu só como você estava sendo injusta com ele antes? Ele te ama de verdade.

— Talvez não tanto assim amiga, eu precisei usar de todo o meu poder de sedução ! brincou ela, baixando a voz.

— Como assim?

— Ontem tivemos a nossa primeira noite juntos.

— O quê? Você e o Carlinho...? fiquei parada, sem saber o que dizer.

— Por que esse espanto todo, amiga? Você sabe que uma hora ou outra isso acontece num relacionamento. E além disso, eu nunca fui nenhuma virgem ingênua.

— Não quis dizer isso... é só que... — tentei explicar, mas fui salva pela chegada do ônibus.

Sorri aliviada por não ter que terminar aquela frase. Como sempre acontece, não havia nenhum assento livre; tivemos que viajar em pé, agarradas firmemente às barras de ferro, pois se soltássemos, o primeiro sacolejo do veículo nos jogaria ao chão. O ônibus seguia seu curso, parando em pontos vazios, até que chegou a hora de Nanda descer ,. dois quarteirões antes do meu. Ela me deu o abraço apertado de sempre, cheio de carinho, e saltou para a calçada.

Pela janela, vi o que meu coração mais temia, Carlinho estava encostado no seu Siena, esperando por ela. Nanda correu em sua direção como se não se vissem há séculos, jogando-se nos braços dele, e eles se beijaram com uma paixão tão intensa, tão verdadeira, que doeu só de olhar. O motorista deu a partida novamente, e aos poucos aquela cena foi desaparecendo de vista, levando consigo o meu último resquício de tranquilidade.

Sem que eu percebesse, uma lágrima solitária e quente escorreu pelo meu rosto, rolando devagar até cair no uniforme. Odeio ver essas demonstrações de amor. Odeio porque elas me mostram, de forma cruel e nítida, o quanto eu sou desprovida disso. Nunca ninguém me olhou como ele a olha. Nunca ninguém esperou por mim na calçada. Nunca amei e nunca fui amada. Na verdade, eu não apenas não sei amar ,eu tenho medo. Medo de me entregar, de abrir as portas do meu mundo e acabar ferida, usada ou abandonada como tantas outras vezes. Para mim, o amor não é algo bonito ou leve. Para mim, o amor é uma navalha afiada que entra e sai, deixando a alma sangrando sem parar. E eu já tenho cicatrizes demais para querer arriscar mais uma vez.

Definitivamente melhor a dor da solidão do que a dor de um coração partido.

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