Capítulo 3 Entrando em uma fria ( Andrew)

Abro os olhos lentamente, pesados como chumbo, e me vejo imerso num quarto totalmente branco e frio. Sento-me na cama com dificuldade, a cabeça lateja com uma dor que parece dividi-la ao meio. Levo as mãos às têmporas, pressionando com força, como se o toque pudesse acalmar o turbilhão dentro de mim.

— Que bom que acordou! exclama Steve, aproximando-se rápido.

— Steve… o que aconteceu? Por que estou aqui?

— Você bateu o carro, cara. Está no hospital. Como foi capaz de fazer uma loucura dessas?

Ignoro sua pergunta e sua expressão preocupada, quase agradecendo aos céus quando o médico adentra o recinto, fazendo-o calar-se imediatamente.

— Vejo que já recuperou a consciência, senhor Montesino diz o profissional, examinando-me com calma. Vou receitar alguns analgésicos fortes e logo lhe darei alta. Nada grave, mas precisa descansar.

— Ainda bem murmuro, soltando o ar que nem sabia que prendia.

Mais tarde, já de volta ao meu apartamento, me jogo no sofá e ligo a televisão. Estou apenas com um corte na testa que levou oito pontos e alguns arranhões espalhados pelo corpo, mas o que realmente me incomoda é o alarde: o acidente está em todos os noticiários, manchetes grandes e fotos minhas saindo da ambulância. Em momentos como esse, lamento profundamente ser uma pessoa pública , tudo o que faço vira espetáculo, tudo se distorce e ganha proporções absurdas.

A campainha soa ritmadamente, e o barulho penetra como uma faca na minha cabeça dolorida. A empregada vai atender, e segundos depois meu pai entra na sala, os passos pesados e a expressão de fúria estampada no rosto.

— Que porra você aprontou agora, Andrew?

— Pai… o que o senhor faz aqui? Não precisava ter vindo.

— Quando vai tomar vergonha na cara? Já não é nenhum menino, devia agir como o homem que deveria ser!

— Foi um acidente, pai, eu não…

— Você estava completamente fora de controle! Já me informaram a velocidade que andava e que estava alcoolizado. Tive que desembolsar uma fortuna em multas e acordos para tentar abafar o caso , mas como deve ter visto nao adiantou .

— Eu devolvo cada centavo que o senhor gastou.

— Não se trata de dinheiro! ele eleva a voz, batendo a mão na mesa. Estou cansado de ver o nome da nossa família na lama por sua causa. Sua cara está estampada em tablóides sensacionalistas, como se fosse um playboy irresponsável que só sabe gastar e se meter em confusão.

— O dinheiro que gasto é fruto do meu trabalho, nunca peguei um real sequer das contas da empresa ou das suas economias!

— Seja como for, você é o presidente de uma das maiores companhias do país e devia agir à altura do cargo! Ando recebendo críticas de todos os lados por ter escolhido você como sucessor. Por isso decidi,a presidência passa imediatamente para o seu irmão Raul.

Naquele instante, sinto como se uma faca quente e afiada me perfurasse o estômago, parando o meu coração por um segundo.

— Não! Não, não e não! Não entregarei o meu lugar para aquele oportunista! Estudei, me dediquei e me preparei durante anos para chegar onde estou, enquanto ele só passou a vida viajando e se divertindo. Isso não é justo! Eu não aceito, de jeito nenhum!

— Raul, apesar de não entender tanto de negócios quanto você, leva uma vida digna, sem escândalos. É casado com uma mulher de família respeitada. Já você, com trinta anos completos, nunca apresentou ninguém só se cerca de mulheres que não valem nada.

Fito meu pai, o ódio transbordando em cada olhar. Perder a empresa já seria devastador; perder para Raul, meu rival de toda a vida, é algo que não posso admitir. Num impulso desesperado, solto a primeira mentira que me vem à boca:

— Pois o senhor está muito enganado. Ontem foi apenas uma recaída passageira. Há tempos venho tentando mudar… e aliás, eu já não estou sozinho. Estou noivo.

— Como é que é? ele arregala os olhos, totalmente surpreso.

— Em breve vocês serão convidados para o nosso casamento.

— Ninguém nunca ouviu falar disso! Qual o nome dela? De onde ela vem? Quem são os pais dela? Por que escondeu isso de nós?

— Calma, pai. Eu não tive oportunidade de contar, e também… confesso que fiquei com medo da reação de vocês. Ela não vem de uma família rica ou tradicional como a nossa.

— Mas você sabe que eu e sua mãe sempre quisemos ver você assentado diz ele, suavizando o tom.

— Eu a amo muito. Ontem bebi demais porque discutimos feio, e acabei perdendo a cabeça. A mídia sempre aumenta tudo, distorce a verdade.

Ele me observa em silêncio por alguns instantes, e vejo que a mentira começa a ganhar forma. Senta-se ao meu lado e põe uma mão pesada no meu ombro.

— Mulheres são complicadas mesmo! confidencia, com um leve sorriso triste. Tem dias que a sua mãe também me deixa louco. Mas não adianta explodir, tenha paciência. Compre um presente bonito, peça desculpa de coração e verá que tudo se resolve.

— Farei isso imediatamente.

— Estranho a imprensa ainda não ter descoberto ela… geralmente sabem tudo antes de nós.

— Temos sido muito discretos, pai. Queremos construir nosso calmo.

— Acho que julguei você injustamente ! admite ele baixando a guarda. Parece que finalmente está amadurecendo. A presidência continua com você.

Sorrio, um sorriso verdadeiro de alívio tomando conta do meu rosto.

— Muito obrigado, pai.

— Mas em troca, ele me olha firme , eu exijo conhecê-la. E quero que todos a vejam ao seu lado, oficialmente. Nada de esconderijos.

— Está bem, se é o que o senhor quer.

— Vou avisar sua mãe e sua irmã, elas vão ficar radiantes com essa notícia.

Assim que a porta se fecha atrás dele, me jogo no sofá, passando as mãos pelos cabelos, olhando para o teto branco. Agora como vou arrumar uma noiva de verdade? Não é difícil encontrar mulheres que queiram casar comigo, com o meu nome e o meu dinheiro , o problema é que eu não quero me casar. Preciso de alguém que aceite fingir ser minha noiva por um tempo, cumprir o acordo, e depois nos separarmos em paz, sem complicações, para que eu possa voltar à minha vida como antes.

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