Capítulo 4 Por um fio ( savanna)
Essa é a terceira vez que recebo uma cantada barata de um cliente bêbado, e me pego pensando em que crime eu cometi para merecer uma vida tão miserável. Não é que eu seja ingrata, só não consigo me acostumar a esse ambiente tão promíscuo. Quando meu expediente chega ao fim, agradeço aos céus por isso. Assim que entro no vestiário, Nanda já pula em mim, me abraçando.
— Para com isso, Nanda, não gosto dessa melosidade . digo.
— Aposto que vai gostar quando for um garanhão que estiver te agarrando.
— Nunca.
— Pois fique sabendo que agora… que tal nos arrumarmos logo? Daqui a pouco o Ricardinho chega.
— Tem certeza de que você quer mesmo me levar para a balada com vocês?
— Claro, amiga! Hoje é sexta-feira e você está precisando sair um pouco, curtir a noite, beber umas duas ou três, beijar na boca…
— Chega, Nanda! Não vou fazer nada disso.
Algumas horas depois já estávamos prontas. Eu vestia um vestido preto de manga comprida, discreto, uma saia midi e um tênis. Já Nanda usava um vestido vermelho minúsculo, batom da mesma cor e saltos altos; seus cabelos curtos estavam penteados para trás.
— Você vai assim? — pergunta Nanda.
— Assim como?
— Parecendo uma velha.
— Se você quiser, eu não vou…
Ela me abraça apertado e diz:
— Desculpa, tá? Eu só não quero que você se sinta desconfortável.
— Estou confortável assim.
Poucos minutos depois, Ricardinho chegou. Entramos no carro e a viagem foi silenciosa. Descemos e fomos para a fila; depois de mostrarmos os documentos, entramos sem problemas.
Não se ouvia quase nada; a música estava extremamente alta. Na pista, as pessoas dançavam se esfregando umas nas outras, e o cheiro de álcool e cigarro me dava náusea.
— Vamos tomar alguma coisa? sugere Nanda.
Nos encostamos no balcão e um garçom nos atendeu logo em seguida.
— Uma tequila com limão para mim .pede ela.
— Vodka com energético — diz Ricardinho.
Como eu não digo nada, o garçom me olha e sorri:
— E você, princesa? O que vai querer?
— Coca-cola.
— Como assim coca, amiga? Pede alguma coisa que tenha álcool.
— Eu não bebo.
Recebo olhares incrédulos, mas eu definitivamente não me importo: não bebo e pronto.
Se há algo de que me arrependo é de ter aceitado o convite de Nanda. Enquanto ela dança com Ricardinho, eu fico ali sentada, sozinha, deslocada, me sentindo o patinho feio. Vejo como as mulheres aqui são bonitas, com roupas curtas que atraem atenção por onde passam; nos cantos mais escuros, casais se agarrando. Esse lugar exala luxúria.
Me levanto e saio da boate, sentindo um alívio imediato. Lembro que a apenas uma quadra dali havia um ponto de ônibus. Ando rápido em direção a ele, mas por mais que eu caminhe, nunca chego. Noto com pavor que estou atravessando uma rua escura e desconhecida, e a cada passo sinto que estou sendo observada. Minhas pernas tremem, suor frio escorre pelo meu pescoço. Tento me convencer de que nada vai acontecer, e estou quase acreditando quando ouço vozes:
— Mas não é uma gracinha!!!
Me viro e vejo dois homens a um metro de mim. Eles me olham como se eu fosse carne fresca e eles, animais famintos. O pavor toma conta de mim e pequenas lágrimas começam a escorrer.
— Não chore, princesa… nós nem começamos a brincar ainda.
___ O que vocês querem? Eu não tenho dinheiro!
— Só queremos te mostrar a nossa brincadeira favorita.
Começo a correr o mais rápido que consigo, os dois vêm logo atrás. Sinto minhas forças se esvaindo, o suor escorrendo por todo o corpo, e já consigo sentir o cheiro fétido de álcool e tabaco que exalam deles. A cada instante, sinto que não vou conseguir, que não há saída mas não me entrego. Lutarei até o fim.
Olho para trás para ver se estão próximos e acabo pisando em um buraco, caindo de vez.
— Te pegamos, ratinha…
Agora as lágrimas caem em abundância. Tento me levantar, mas a dor no pé é tão forte que volto a sentar. Os homens riem. Começo a me arrastar de quatro, tentando fugir, enquanto eles parecem se divertir com o meu sofrimento. Um deles me acerta um chute na costela e eu caio de costas no chão, gemendo. Ele vem para cima de mim; fecho os olhos imediatamente e peço a Deus, em oração, que me leve pois a morte seria melhor do que o que está por vir.
Continuo de olhos fechados, mas nada acontece. Até que ouço o ronco de um motor e logo em seguida um baque surdo. Abro os olhos e vejo um homem desconhecido lutando com um dos agressores. Ele acerta um soco no queixo do homem, que cai desmaiado na hora, e parte para cima do outro. Os dois travam uma luta corporal, mas o desconhecido é mais forte: acerta um soco no olho, recebe um na boca, e eu mentalmente imploro a Deus que dê a vitória a ele.
Minha súplica é atendida. Ele avança sobre o homem asqueroso, desfere um soco certeiro no maxilar e o derruba. Continua socando o rosto dele até que este fique totalmente inconsciente. Depois se levanta, ajeita o terno de alfaiataria e cospe no rosto do homem caído.
— Seu verme.
É a voz mais máscula e sexy que já ouvi; grossa, com uma leve rouquidão. E pela primeira vez na vida, sinto meu coração bater descontroladamente no peito.
Tento me levantar, mas a dor no pé esquerdo é tão intensa que volto a cair, mordendo os lábios para não gritar. O desconhecido se aproxima e se ajoelha ao meu lado; seu perfume amadeirado invade minhas narinas.
— Vou te levar ao hospital.
Não consigo dizer nada. Ele me pega no colo e eu afundo o rosto na sua camisa, chorando copiosamente, extravasando todo o medo que senti. Ele me acomoda no banco do carro, coloca o cinto de segurança e assume o volante. O motor ruge e logo estamos em movimento. O choro passa; me encolho no assento, querendo apenas esquecer o que aconteceu.
— Você está bem? pergunta o estranho.
— Estou… graças a você. Obrigada.
— Disponha. E o seu pé?
— Dói como o inferno.
— Já estamos chegando.
Algum tempo depois ele estaciona, me pega novamente no colo e entra no hospital. O cheiro forte de remédios me enjoa. Percebo que não é um hospital comum: não está cheio de gente, e assim que chegamos sou atendida imediatamente.
