Capítulo 5 E assim começa as mentiras (Andrew)
Me pego pensando no que diabos estou fazendo de madrugada em uma clínica de alto padrão com uma desconhecida. Devia ter parado em qualquer posto de saúde, deixado ela ali e seguido meu caminho mas não; eu insisti em trazê-la para uma das clínicas mais renomadas do país, que, por um acaso, é justamente onde meu amigo Steve trabalha.
Falando nele, lá vem ele vestido com o jaleco branco, os olhos pesados e a cara de quem nnão dorme direito á dias.
— Andrew, meu amigo! Que surpresa… como vai?
— Melhor que você, com certeza. Está parecendo um morto-vivo que voltou à vida.
— Fiz três plantões seguidos essa semana, não tive tempo nem de tomar um banho decente responde ele, esfregando o rosto cansado. Mas mudando de assunto: quem é a moça? E o que vocês fazem aqui a essa hora?
— Longa história, Steve, depois eu te conto com detalhes. Agora me diz: como ela está? Nada grave, espero.
— Hum… teve uma torção forte no tornozelo esquerdo, alguns arranhões e um susto enorme. Vou receitar anti-inflamatórios, analgésicos e recomendar muito repouso nos próximos dias.
— Certo. E manda a conta completa para o meu escritório que já peço para a secretária acertar tudo imediatamente, sem perguntas.
— Feito.
Algum tempo depois, ela aparece mancando devagar, apoiando-se nas paredes, com a bota ortopédica no pé machucado. Seus olhos ainda estão vermelhos de tanto chorar.
— Como você está pergunto, sem saber bem como agir.
— Bem ! responde ela, mas percebo que essa palavra sai forçada, quase sem voz.
— Sei muito bem que aqui não é um hospital público, e eu preciso saber quanto eu te devo… não posso aceitar que pague por mim.
Se eu disser o valor real, ela vai cair para trás de surpresa. Então sorrio de canto e respondo:
— Convenhamos que você não tem condições de pagar por esse atendimento.
— E com base no quê você decide o que eu tenho ou não tenho? rebate, firme, apesar do medo ainda presente. Você não sabe nada sobre mim.
— Me dê seu endereço que eu te levo para casa! corto, mudando de assunto.
— Por que foge da pergunta? Por que não quer me dizer o preço?
— Você podia simplesmente calar a boca e agradecer por eu ter aparecido quando tudo parecia perdido , falo mais duro do que pretendia.
Ela fica calada por um longo tempo, os olhos cheios de lágrimas que insistem em não cair. Até que, sem olhar para mim, solta o endereço baixo.
— Você mora ali? Naquele conjunto abandonado? Isso não é lugar nem para ratos, muito menos para uma mulher sozinha . comento, horrorizado.
— Olha aqui, seu playboy imbecil… vai à merda! Você não sabe nada da minha vida, não sabe o que eu passei para chegar até aqui!
Ela vira e começa a se afastar, arrastando a perna machucada com dificuldade. Perco a paciência de vez, vou até ela e a pego no colo sem cerimônia, mesmo contra seus protestos.
— Me solta, seu…
— Andrew?…
Congelo no lugar. Conheço essa voz de cor, conheço esse tom de surpresa e reprovação.
— Drica? O que você faz aqui, a essa hora da madrugada?
— A pergunta certa é: quem é essa mulher no seu colo, irmão? ela revida, cruzando os braços e me olhando de cima a baixo.
A desconhecida me encara, totalmente perdida, os olhos verdes arregalados.
— Ela é sua namorada?
— Não queridinha, interrompe Drica com rispidez eu sou a irmã dele. E você deve ser mais uma das muitas que ele arrasta por aí, não é? Vou contar para o papai que essa história de noivado é mentira, que você não tem compromisso nenhum e que só faz o nome da família cair no descrédito!
Fico sem saída. Minha mente dispara e, sem pensar nas consequências, solto a primeira coisa que me vem à cabeça , coisa que eu sei que vou me arrepender profundamente depois:
— Mais respeito, Drica. Você está falando com a minha noiva. Com a futura mulher da minha vida.
As duas ficam boquiabertas. A desconhecida abre a boca para contestar, mas eu me inclino e a calo com um selinho rápido, firme e cheio de intenção mesmo que só de aparências.
— Meu Deus… é verdade mesmo? Você realmente vai se casar? Drica pergunta, os olhos cheios de surpresa e alegria.
— Por que toda essa dúvida? retruco, mantendo a postura.
— Vamos combinar que você sempre foi um galinha, irmão! Nunca vi você ficar com ninguém por mais de uma noite ela ri, e depois se volta para a moça. E qual é o seu nome mesmo, cunhadinha?
A mulher nos encara confusa ainda, mas um sorriso tímido começa a surgir em seus lábios.
— Savanna… É um prazer finalmente conhecer a família.
— Savanna, me desculpe a maneira rude como te falei antes diz Drica, suavizando o tom. É que eu não te conhecia e pensei que fosse mais uma aventura passageira dele.
— Eu entendo perfeitamente ! responde ela com calma.
— Amor, me perdoa, mas vou ter que te colocar no chão digo, mantendo o teatro. Não estou aguentando mais te carregar e também preciso te levar para descansar.
— Desculpa, eu não quis…
— Não precisa se desculpar por nada, amor . interrompo, suave.
Coloco ela devagar no chão, mas mantenho o braço ao redor da sua cintura, apoiando seu peso. Inclino-me e deixo a cabeça repousar na curva do seu pescoço e percebo, surpreso, que ela cheira doce, como morangos frescos.
— Que casal mais lindo! Deixa eu tirar uma foto para mostrar para a mamãe
pede Drica, já sacando o celular.
Não tenho tempo nem de responder: ouço o clique em seguida, registrando aquele momento improvável.
— Você não tem jeito mesmo, Drica digo, balançando a cabeça, mas com um sorriso leve. Já são seis horas da manhã e você cheia de energia para fotos.
— O que aconteceu com o seu pé, Savanna?
— Ela escorregou .respondo rápido, antes que ela conte a verdade. Agora, tchau, irmãzinha, que eu vou levar a minha noiva para casa e colocá-la para descansar.
— Mas nós mal começamos a conversar… queria saber mais sobre você!
— Depois eu passo lá com ela, prometo que vocês terão tempo de sobra para conversar.
Drica abraça Savanna com carinho e me dá um beijo na bochecha,e finalmente satisfeita. Assim que entramos no carro e fecho a porta, o silêncio cai sobre nós. Ela me fita com aqueles olhos verdes faiscantes, cheios de perguntas, e diz baixo:
— Agora… você vai me explicar o que foi tudo isso? Por que mentiu para ela? E o que significa essa história de noiva?
