Capítulo 7 KNOX
O corredor ainda zumbia com o barulho pós-aula — celulares na mão, vozes se atropelando, alguém gritando sobre o prazo de um trabalho em grupo —, mas meu cérebro não parava de repetir aquele olhar de meio segundo que ela me lançou. Não o encarão de olhos arregalados que eu costumava receber das garotas que me reconheciam.
Não a avaliação descaradamente sedutora. Nem mesmo a indiferença falsa que algumas tentavam bancar.
Ela tinha olhado pra mim como se eu fosse… irritante.
Como se eu fosse um mosquito que zuniu perto demais.
Como se eu fosse só mais um cara que esbarrou nela e seguiu andando.
Não Knox Reyes.
Não o quarterback. Não o cara cujo nome era sussurrado nos corredores e nas DMs. Só um babaca qualquer que não prestou atenção por onde andava.
Foi… revigorante.
Revigorantemente irritante.
Afastei aquilo da cabeça quando atravessamos as portas duplas e saímos pro pátio.
O ar de março bateu frio e cortante, atravessando a névoa persistente da tequila de ontem à noite.
O sol estava lá fora, mas fraco, uma luz que deixava tudo com cara de chapado e cansado.
Os alunos circulavam — alguns correndo pra próxima aula, outros largados na grama fingindo estudar, um casal se pegando encostado numa árvore como se a decência em público tivesse deixado de existir.
Hunter bateu a mão no meu ombro.
— Você tá bem, mano?
— Dor de cabeça — resmunguei.
Slate olhou de lado, sobrancelha erguida.
— Das loiras e da morena ou do uísque?
— Dos dois. E da aula. E do fato de eu ainda estar respirando o mesmo ar que a Tracy.
Hunter riu.
— Ela ainda tá nessa de “vamos voltar”?
— Ela tá na de “vamos fingir que a gente já esteve junto”. Eu disse pra ela que a gente era só foda fixa. Ela agiu como se eu tivesse pedido em casamento e depois tirado o pedido.
Slate soltou um bufar.
— Clássico da Tracy. Até hoje à noite ela vai estar explodindo teu celular.
— Já começou. Três chamadas perdidas e um áudio que provavelmente tem quarenta minutos.
Cortamos a grama em direção ao estacionamento.
O SUV do Hunter estava estacionado torto na última fileira — o mesmo lugar que ele sempre escolhia porque
mais perto da saída significa fuga mais rápida
Entrei no banco do passageiro enquanto Slate se enfiava atrás.
Hunter ligou o motor, o carro ganhando vida com um ronco sob nós, como se estivesse tão de ressaca quanto eu.
Ele ligou o aquecedor e então olhou pra mim com aquele sorriso de filho da puta que ele sempre usava quando estava tramando alguma coisa.
— Preciso passar na loja de bebidas antes de hoje à noite — disse ele, saindo do estacionamento com uma mão no volante, a outra já rolando a tela do celular.
— A gente tá sem tequila. E sem vodka. E sem qualquer porra que as pessoas bebem quando estão fingindo que são adultos responsáveis.
Eu gemi, encostando a cabeça no vidro frio da janela.
A pulsação atrás dos meus olhos diminuiu um pouco com o contato, mas não o bastante.
— Eu ainda tô de ressaca da festa de ontem — murmurei.
— Meu fígado pediu divórcio hoje de manhã. Eu não vou encostar em nada mais forte que água e arrependimento até pelo menos sexta. Se a gente beber de novo hoje à noite, o Coach vai sentir o cheiro na gente da lateral amanhã.
Hunter riu, alto e despreocupado.
— Vou manter na moral. Só o time. Sem garotas, sem merda.
Slate se inclinou pra frente do banco de trás, os braços cruzados sobre o console central, a sobrancelha arqueada como se tivesse acabado de ouvir a piada de mau gosto.
— Sem garotas? Que tipo de festa é essa? — ele soltou, num tom seco, plano como asfalto.
— Um clube do livro? Um círculo de oração? Vai servir chá de ervas e sentimentos? Talvez um violãozinho acústico e abraços em grupo enquanto a gente fala dos nossos traumas de infância?
Hunter bufou tão forte que quase jogou o carro pra outra faixa.
— Vai se foder — disse ele, abrindo um sorriso grande o bastante pra mostrar os dentes.
— A gente precisa de uma noite em que ninguém tá chorando, ninguém tá gritando e ninguém já tá dando nome pros nossos futuros filhos antes do café da manhã. Só cerveja gelada, uns videogames idiotas, talvez umas mãos de pôquer se a gente tiver afim de perder dinheiro um pro outro. Recarregar antes de os olheiros começarem a respirar no nosso cangote e o Coach botar a gente no banco por olhar torto pra ele. A vida é curta demais pra ficar sóbrio e bater punheta sozinho, mano. A gente é jovem, rico e terminalmente estúpido — vamos usar essa porra.
Slate soltou aquela risada baixa e cética — a que significava que ele já tinha decidido que você tava falando merda.
— Tô fora. Não vou aparecer numa noite triste de macho com controle na mão em vez de uma buceta quente.
— Claro que vai ter garotas, seu paranoico do caralho. — Hunter sorriu, lento e safado.
— O que a gente é, uns monges? É minha casa, não um mosteiro de merda. Mas eu vou manter na moral — nada de ex psicótica, nada de interrogatório de “o que é isso entre a gente” às três da manhã. Só… diversão fácil. Falando nisso… — ele deu um sorrisinho.
—Acho que hoje à noite finalmente vou conseguir comer a Suzie. Tô rodeando aquela há meses. Depois que eu meter nela, posso passar pra próxima. Ficha limpa. Buceta nova. Você sabe como é.
Slate soltou uma risada, recostando-se com os braços abertos sobre o banco como se fosse dono da caminhonete.
—Se você comer ela, não esquece de me ligar —disse, seco.
—Eu também quero entrar. Tradição de revezamento, irmão. A gente começou com essa merda no segundo ano —não dá pra quebrar a sequência agora.
Hunter soltou outra risada, batendo no volante.
—Fechado. Hoje é a noite, rapazes. A Suzie tá me lançando uns olhares. Hoje é a noite. Aí a gente apaga a lousa e segue em frente. A vida é curta demais pra ficar preso numa garota só quando tem um campus inteiro por aí.
Eu bufei, o som áspero na garganta seca.
—Vocês dois são nojentos.
—Diz o cara que teve três garotas diferentes no banheiro ontem à noite —Hunter rebateu, sem perder o ritmo. —Não vem pagar de superior, Reyes. Você é tão ruim quanto. Talvez pior. Pelo menos a gente admite.
Eu não discuti.
Ele não estava errado.
Slate e Hunter eram tão ruins quanto eu —talvez piores.
A gente era tudo igual: três idiotas com talento demais, dinheiro demais e autocontrole de menos.
A gente já tinha dividido garotas antes, passado de um pro outro como se fossem lembrancinhas de festa nas noites em que a brisa começava a baixar e o tédio vinha chegando.
Uma garota, três paus, nada de ciúme, nada de sentimento. Só corpos e alívio e, na manhã seguinte, a caminhada da vergonha. Antes parecia vitória.
Ultimamente só parecia… vazio.
Esfreguei os olhos com a palma da mão.
—Se o Coach descobrir que a gente tá bebendo de novo —e transando— depois da “palestra de foco” da semana passada, ele vai deixar a gente no banco até a gente estar recebendo aposentadoria. Eu não vou explicar pra ele por que meu gráfico de desempenho parece que uma criança bêbada desenhou em espiral só porque eu tava enfiado até as bolas numa garota de irmandade às três da manhã.
Hunter abriu um sorriso ainda maior.
—A gente vai manter isso em segredo. Palavra de escoteiro.
—Você nunca foi escoteiro —Slate resmungou do banco de trás.
—Detalhes. —Hunter dispensou.
Eu fiquei quieto, a cabeça ainda encostada no vidro frio, vendo o campus sumir no retrovisor lateral até os prédios de tijolo vermelho virarem borrões de cor e memória.
Hunter continuou falando —listando quem ele achava que ia aparecer hoje à noite, despejando nomes como uma lista de compras:
—O Jace vai chegar com aquela parada top de linha, o Tyler tá com a geladeira cheia das geladas e, escuta —tô te falando na lata— a Suzie finalmente vai abrir as pernas hoje. Chega de desculpinha de me deixar na mão, chega de “eu não sou esse tipo de garota”. Ela tá me comendo com os olhos há semanas. Hoje é a noite em que ela para de fazer charme e começa a pagar o que deve.
Slate emendava comentários escrotos sem perder o embalo —avaliando quem ia ser “fácil”, quem ia “valer a caça”, quem provavelmente ia chorar depois. A mesma conversa que a gente já tinha tido umas cem vezes. A mesma bravata fácil. As mesmas regras: foder, esquecer, repetir.
Antes parecia bom.
Parecia vitória.
Como se eu fosse o cara com todas as cartas na mão, virando uma por uma enquanto todo mundo se estapeava por migalhas.
A adrenalina da perseguição, o barato da conquista, a satisfação silenciosa de ir embora limpo toda vez.
Agora só parecia… gasto.
Exausto.
Como se eu estivesse rodando a mesma jogada em looping e a defesa já soubesse cada rota.
Minha mente voltou de novo pra garota do moletom. Sardinhas.
O jeito como ela tinha me olhado depois que eu esbarrei nela —não com desejo, não com deslumbramento, nem mesmo com aquela mistura de bajulação e cálculo que a maioria das garotas usa como maquiagem.
Só uma irritação leve. Como se eu fosse um mosquito que zuniu perto demais e ela fosse me dar um tapa depois se eu continuasse.
Sem alarde.
Sem teatrinho.
Sem aquela expectativa de que eu ia parar e notar ela.
Sem virar de imediato pra flertar, sem jogar o cabelo, sem sorrisinho.
Ela só… ajeitou o moletom como se fosse uma armadura, ajustou os óculos e seguiu em frente.
Como se eu não fosse nada demais.
Como se eu fosse só mais um cara que não presta atenção por onde anda.
Que porra.
Balancei a cabeça, tentando desalojar o pensamento como água presa no ouvido.
Isso era idiota.
Eu não fazia isso.
Eu não ficava obcecado por garotas que não ficavam obcecadas por mim.
Eu não repassava esbarrões em corredor como se fossem cenas de filme. Eu não ficava imaginando como alguém era por baixo de um moletom largo ou por que não derretia quando eu soltava um apelido. Eu não dava a mínima pra irritaçãozinha. Eu dava a mínima pras que me queriam —precisavam de mim— não se cansavam de mim.
Esse era o jogo.
Essa era a vitória.
Então por que diabos eu ainda tava vendo a Sardinhas na minha cabeça?
