Capítulo 1 A decisão
Acordei com o barulho insistente do celular vibrando na cômoda. Seis da manhã.
Mais um dia de trabalho na escola… ou, pelo menos, era o que eu esperava.
Me espreguicei devagar, controlando a respiração para não fazer barulho. Mas, antes que eu pudesse afastar o lençol, uma mão pesada envolveu meu pulso, puxando-me de volta com força.
— Vai levantar para onde? — A voz de André cortou o ar, rouca, arrastada pelo sono e pela irritação. — Ainda nem falei com você.
Engoli em seco. A claridade fraca da manhã filtrava pela fresta da cortina, cortando o quarto ao meio. Respirei fundo, tentando estabilizar o tom de voz.
— Eu vou trabalhar, André. Tenho aula às oito… você sabe.
Ele se levantou de um salto. Antes que eu pudesse reagir, ele me prensou contra a parede fria ao lado da cama. O impacto tirou o ar dos meus pulmões.
— Trabalhar? Trabalhar para quê, Juliana? — Ele aproximou o rosto do meu, os olhos escuros e opacos brilhando de raiva. — Que tipo de homem deixa a mulher sair de casa para ficar dando atenção para filho dos outros?
— É o meu emprego… — sussurrei, desviando o olhar para o chão.
Os dedos dele fecharam-se em volta do meu queixo, apertando com força, obrigando-me a encará-lo.
— Eu não tenho mulher para ficar batendo perna na rua, não. — O tom dele baixou, tornando-se uma promessa perigosa. — Você fica. Hoje você fica. Tá entendido?
Meu coração martelava contra as costelas, um som ensurdecedor no silêncio do quarto. Não era a primeira vez, mas o medo nunca diminuía; ele apenas acumulava.
— André… por favor. Eu preciso ir. Eu dependo desse salário.
Ele soltou uma risada curta. Um som oco, carregado de deboche.
— Você depende de mim. Não de emprego nenhum.
Apertei os lábios, engolindo o gosto amargo do sangue onde meus dentes feriram a parte interna da bochecha. A verdade que eu guardava a sete chaves ecoou na minha mente: eu já não dependia dele. Dependia da minha coragem para ir embora. E ela estava começando a se juntar, pedaço por pedaço.
— Eu vou — repeti. A firmeza na minha própria voz me surpreendeu.
André deu um passo rápido à frente e bateu a porta do quarto, bloqueando a saída com o corpo.
— Você não vai a lugar nenhum, Juliana.
Por um instante, o velho pavor tentou me paralisar. Mas algo quebrou ali dentro. Talvez fosse o esgotamento físico, ou o limite da dignidade.
— André, sai da minha frente. Agora.
Ele me encarou fixamente, como se não acreditasse que eu ousava desafiá-lo. Tentei desviar pelo lado, mas ele foi mais rápido. Arrancou a chave da fechadura com um solavanco, girou o trinco por fora e guardou o metal no bolso da bermuda.
— Pronto. Resolvido. Agora você não sai. — A frieza na voz dele me arrepiou a espinha.
— André, por favor! — Minha voz falhou, entregando o desespero. — Eu preciso trabalhar!
Ele deu um passo na minha direção, encurtando o espaço até que eu pudesse sentir o cheiro azedo de álcool da noite anterior exalando de sua pele.
— Já falei que você não vai. Mulher minha não trabalha fora. — Os olhos dele passearam pelo meu rosto, demorando-se nos meus olhos arregalados, saboreando o controle. — E para de me desafiar, Juliana. Você não é ninguém longe de mim.
Com um movimento brusco, ele pegou minha mochila sobre a cadeira e a jogou no chão. Os cadernos se espalharam pelo piso.
— Eu volto à noite. — Ele caminhou até a porta da sala e, antes de passar, lançou o último aviso: — Tenta sair daí… se conseguir.
A porta bateu com tanta força que as janelas tremeram. Em seguida, o som duplo da tranca do lado de fora.
Fiquei estática no meio da sala. O silêncio que se instalou era pesado, sufocante. Levei os dedos trêmulos ao rosto, tocando a lateral do olho esquerdo. Uma dor aguda e pulsante me fez encolher. Estava inchado. O roxo de dias atrás tinha ganhado uma tonalidade ainda pior.
Peguei o celular com as mãos trêmulas. Desbloqueei a tela com pressa, antes que a centelha de revolta recuasse diante do medo.
Abri a conversa com a única pessoa que restava no meu mundo. Karina.
Ju: Kari… ele me trancou em casa. Levou a chave. Eu não aguento mais, pelo amor de Deus.
A resposta veio quase instantânea, o topo da tela indicando que ela já estava digitando antes mesmo de eu terminar de respirar.
Karina: Ju??? O que ele fez?! Me conta agora!
Ju: Eu tentei ir pro trabalho. Ele me prensou na parede, meu olho tá muito inchado, tá roxo. Kari, eu tô com medo de ele voltar.
O status de "digitando" sumiu por alguns segundos longos e torturantes. Quando voltou, veio como uma enxurrada.
Karina: Amiga, chega. Acabou. Você não vai passar mais nenhuma noite nessa casa.
Karina: Eu vou te ajudar a sair daí. Vou comprar sua passagem para Londres hoje mesmo.
Karina: Você pede demissão da escola, junta suas coisas escondida e vem direto para cá. Você vai ficar comigo.
Meu peito subiu e desceu com força. Londres. Um oceano de distância. Outro idioma. Uma folha em branco.
As lágrimas finalmente transbordaram, quentes, queimando a pele machucada do meu rosto. Mas não eram lágrimas de derrota. Pela primeira vez em anos, o choro trazia o alívio de ser vista, de ser protegida.
Olhei para a mochila caída no chão, para os papéis espalhados e para o meu reflexo distorcido no vidro da janela.
A Juliana que aceitava os termos de André tinha ficado presa naquele quarto. Olhei para a porta trancada e, no lugar do pânico, senti o peso de uma decisão tomada.
Eu ia sobreviver. E ia para longe dele.
