Capítulo 2 Me preparando

Depois que terminei de falar com a Karina, fiquei parada no meio da sala com o celular ainda na mão, tentando controlar a respiração. As palavras dela rodavam na minha cabeça como um sopro de coragem: “Você vai sair daí, Ju. Hoje começa a mudança.”

​A casa estava mergulhada em um silêncio pesado. André tinha saído poucos minutos antes, batendo a porta com força — o tique padrão de quando queria me lembrar de quem mandava ali.

​Mas, desta vez, eu não estava tão fraca quanto ele imaginava.

​Aproveitei que ele tinha acabado de ir para o trabalho e comecei a me mover rápido. Lavei o rosto com água gelada, usei a pouca maquiagem que tinha para disfarçar o hematoma no olho e prendi o cabelo em um coque firme. Eu precisava ir à escola. Precisava pedir demissão antes que ele voltasse e notasse qualquer mudança na minha rotina.

​Caminhei até a estante e peguei a chave reserva — aquela que eu escondia meticulosamente dentro da capa do meu livro de cabeceira sobre autismo e a ciência ABA. André nunca tocou naquele livro. Nunca teve interesse em nada que fizesse parte do meu mundo.

​Quando saí do prédio, o ar frio da manhã bateu no meu rosto e senti um alívio estranho, quase estrangeiro. Eu estava na rua. Ele não podia me impedir. Pelo menos não naquele momento.

​Cheguei à escola tentando manter a postura, mas a dor latejando na lateral do meu rosto era um lembrete físico do motivo de eu estar ali. No corredor, a diretora, Dona Márcia, me viu e parou imediatamente. Os olhos dela foram direto para o meu rosto, franzindo o cenho.

​— Juliana? — Ela deu um passo na minha direção. — O que aconteceu com você?

​Meu coração acelerou. Eu não queria dar explicações. Não queria pronunciar o nome dele. Respirei fundo, segurando a alça da bolsa com força.

​— Diretora… eu vim pedir minha demissão.

​Ela piscou algumas vezes, chocada.

​— Demissão? Agora, no meio do semestre? — Ela se aproximou mais, abaixando o tom de voz, a preocupação transbordando na expressão. — Ju… isso tem a ver com esse machucado?

​Minha garganta fechou. Um nó doloroso se formou ali e eu apenas balancei a cabeça, engolindo o choro que ameaçava desabar.

​— Eu vou viajar — respondi, forçando a voz a sair o mais firme possível. — Preciso resolver umas coisas e… não sei quando volto.

​Dona Márcia soltou um suspiro pesado. Era o suspiro de uma mulher que entendia muito mais do que eu estava verbalizando. Ela segurou minhas mãos com um aperto quente, maternal.

​— Juliana, eu vou fazer a sua demissão sem justa causa para você não perder nenhum dos seus direitos. Eu sei o quanto você ama essas crianças e sei que nunca deixaria seus alunos se não estivesse precisando muito.

​Senti meus olhos arderem. Todo o meu esforço estudando Pedagogia, a dedicação com os pequenos com autismo e síndrome de Down, o sonho de construir uma carreira linda ali… tudo estava sendo deixado para trás para que eu pudesse salvar minha própria vida.

​— Obrigada… de verdade, Márcia.

​— Pode contar comigo sempre, querida. E se um dia quiser voltar… as portas estarão abertas. Para você, sempre.

​Aquelas palavras quase me desmontaram. Senti que, pela primeira vez em anos, alguém realmente me enxergava de verdade. Saí da sala dela com a papelada assinada e um gosto agridoce na boca. Foi ali, naquele corredor onde eu dei tantas aulas com amor, que percebi: a página tinha começado a virar.

​Quando voltei para o apartamento, ainda era início da tarde. O silêncio da casa me fez tremer. Qualquer estalo na madeira ou barulho no corredor parecia um aviso de que o tempo estava correndo.

​Escondi os documentos e a rescisão no bolso interno da mochila, deixando tudo organizado ao alcance da mão, mas disfarçado sob algumas roupas no armário. Se ele desconfiasse de uma única peça fora do lugar, não haveria segunda chance.

​O entardecer veio arrastado, cada minuto pesando como uma pedra no meu estômago. Foi quando a tela do celular acendeu com a mensagem da Karina. Era a foto do bilhete aéreo.

​Karina: 02h45. Você embarca. Estou te esperando do lado de cá do oceano, Ju.

​Meu estômago deu uma volta completa. Era real. Eu ia fugir para Londres. Mas antes… eu precisava sobreviver àquela noite.

​Perto das 21h, o som terrível da chave girando na fechadura me fez congelar onde eu estava.

​André entrou tropeçando. A camisa social estava amassada, e um rastro de cerveja barata e suor inundou a sala imediatamente.

​— Juliiiaaa… — ele arrastou o nome, jogando a carteira e o chaveiro no sofá com desleixo. — Até que enfim alguém nessa casa para me receber, né?

​Fiquei estática na entrada da cozinha, adotando a postura invisível que passei meses aperfeiçoando para não provocar a ira dele.

​— Boa noite, André…

​Ele soltou aquela risada sarcástica, o som que eu sabia que sempre antecedia a tempestade.

​— Boa noite é o caramba. Eu tô com fome. Cadê minha janta?

​— Eu… já vou preparar.

​— Já deveria estar pronta! — ele gritou, batendo a porta do armário da cozinha com tanta força que os pratos chacoalharam. — Caramba, Juliana! Para que eu tenho mulher dentro de casa?

​Fechei os olhos por um milésimo de segundo. Respira. Não responde. Não confronta.

​Preparei o prato dele o mais rápido que minhas mãos trêmulas permitiram. Ele comeu na mesa da cozinha, reclamando de absolutamente tudo: do sal, da textura da carne, da minha expressão.

​— E esse olho roxo aí? Tá feio isso, hein? — Ele sorriu, os olhos brilhando com uma malícia cruel. — Quem mandou me desafiar logo cedo?

​Meu peito se comprimiu de dor e nojo, mas não deixei nenhuma lágrima cair.

​— Acabou? — perguntei baixinho, recolhendo o prato.

​— Acabou nada. — Ele esticou o braço e pegou um fardo de latinhas que tinha trazido. — Hoje eu vou beber até cair.

​Ele passou as horas seguintes transitando entre a sala e a cozinha, falando sozinho, assistindo TV com o volume no máximo e xingando a tela. De vez em quando, passava por mim apenas para me dar um esbarrão ou soltar uma ameaça velada.

​— Se um dia você pensar em me trair… eu acabo com a sua raça — murmurou por volta das 22h, aproximando o rosto tanto que o bafo de álcool me deu náuseas. — Você é minha, Juliana. MINHA.

​Fiquei rígida como uma estátua. Eu sabia que qualquer reação ali poderia ser o meu fim.

​Pouco depois das onze da noite, o milagre aconteceu. André afundou no sofá de canto, a última lata de cerveja escorregando dos dedos e derramando um filete no chão. Em poucos minutos, ele começou a roncar alto, um som pesado e bruto.

​Esperei. Dez minutos. Vinte. Trinta.

​Quando tive certeza de que o sono dele era profundo, me mexi. Caminhei até o quarto na ponta dos pés, peguei a mochila escondida, enfiei as últimas roupas essenciais, conferi o celular carregado, o dinheiro e o passaporte.

​Ao voltar para a sala, parei por um instante. Olhei para André apagado no sofá, com a boca entreaberta, completamente vulnerável. Por meses, aquele homem tinha sido o meu maior terror. Mas ali, olhando para ele pela última vez, o medo evaporou. O que restou foi uma sede absurda de liberdade.

​Girei a chave reserva na fechadura com uma lentidão milimétrica, quase sem respirar. O trinco deu um estalo suave.

​Antes de passar pelo batente, olhei para trás uma última vez. Para as paredes daquele apartamento, e saí.

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