O Coração do Dragão

O Coração do Dragão

Eva Monroe · Atualizando · 275.7k Palavras

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Introdução

— Tire a camisa — eu disse.

Kaelen me olhou, surpreso, mas seus olhos começaram a brilhar na luz fraca. — Como é?

— Ontem você estava pegando fogo. Literalmente. Sua pele estava tão quente que deveria ter te matado, mas aqui está você. — Levantei da cama. — Eu preciso ver.

Um sorriso se espalhou pelo rosto dele enquanto ele puxava a camisa pela cabeça, revelando músculos definidos e uma pele que parecia brilhar com luz própria.

— Isso é mesmo sobre ciência, Annabeth? — ele perguntou, e a voz dele tinha baixado, mais grave, mais áspera.

Eu me aproximei, incapaz de me impedir, mesmo sabendo que era uma péssima ideia. Minha mão se ergueu quase sozinha, indo em direção ao peito dele, e eu pressionei a palma contra a pele.

— Merda — ele murmurou, com a voz rouca. — Não faz isso.

— Por quê?

— Porque você não faz ideia do que provoca em mim quando me toca assim. — As mãos dele se fecharam em punhos ao lado do corpo, tremendo com o esforço de mantê-las ali. — Meu autocontrole já vai pro caralho quando você está por perto.

**

Kaelen está fugindo há anos. Três irmãos dragões dourados escondidos entre humanos, tentando sobreviver enquanto uma organização os caça por causa do sangue deles. A última coisa de que ele precisa é se envolver com alguém.

Annabeth confia na ciência e não acredita em magia. Mas o cara que ela salvou de uma surra se cura rápido demais, os próprios olhos dela brilham no espelho, e há sonhos em que ela voa cuspindo fogo.

Quando eles se encontram no campus, Kaelen vê aquele lampejo vermelho nos olhos de Annabeth e entende que ela não é humana. Ela é algo que ele acreditava extinto. E pior: a alma dele a reconhece como sua companheira destinada.

O que você faz quando encontrar sua alma gêmea pode destruir tudo o que você lutou para proteger?

Capítulo 1

Ponto de vista de Kaelen:

As sacolas plásticas cavavam meus dedos enquanto eu caminhava pela rua. O frio não me incomodava tanto quanto deveria, mas eu precisava fingir que incomodava. Eu precisava fingir que era como todo mundo: normal.

Lucian tinha pedido aqueles malditos biscoitos que só vendiam na loja do outro lado da cidade, e Marlen precisava de mais cadernos para a escola.

Sempre tinha alguma coisa. O relógio na praça marcava 8h30, mais tarde do que eu tinha planejado, e os postes de luz tremeluziam com aquele brilho amarelado que fazia tudo parecer mais sujo do que era.

Emberdale era uma cidadezinha minúscula e esvaziava rápido depois de escurecer, pelo que eu geralmente era grato. Menos olhares, menos perguntas, e menos chance de alguém notar qualquer coisa estranha em nós.

Mas, naquela noite, a rua estava vazia demais, quieta demais, exceto pelo som dos meus próprios passos no asfalto.

Senti o cheiro de álcool antes de vê-los.

Três caras, talvez quatro, cambalearam para fora de um beco a uns vinte metros à frente. Um tropeçou no próprio pé e os outros riram com aquelas risadas altas, exageradas, de bêbado.

Merda.

Automaticamente mudei de direção, atravessando para o outro lado da rua, mas o mais alto me viu.

— Ei, você! — ele gritou, a voz ecoando nas paredes dos prédios fechados. — Pra onde você tá indo com tanta pressa?

Continuei andando. Nem rápido nem devagar. Normal. Como se eu não tivesse ouvido.

— Tô falando com você, filho da puta!

Os passos atrás de mim aceleraram. Eram quatro, confirmei ao ouvir o ritmo descoordenado dos movimentos deles. Um arrastava um pouco o pé esquerdo. Outro respirava com um chiado que denunciava fumante crônico.

Eram detalhes que um humano normal não perceberia daquela distância, mas eles grudavam no meu cérebro sem que eu pedisse. Porque eu não era um humano normal. Na verdade, eu nem era humano.

— Você é surdo ou quê? — O mais alto me alcançou e parou na minha frente, bloqueando meu caminho. Ele fedia a uísque e tinha uma mancha de vômito na camisa. — Meu amigo te fez uma pergunta.

— Eu não quero confusão — eu disse, mantendo a voz calma e neutra. — Só estou indo para casa.

— Ahhh, só indo pra casa — repetiu outro, em tom de deboche. Era mais novo, talvez da minha idade, com um corte na sobrancelha que ainda sangrava um pouco. — Que bonitinho. Ouviram isso, rapaziada? O bonitão só quer ir pra casa.

Os outros riram. Um empurrou meu ombro, sem muita força, só testando. As sacolas balançaram na minha mão.

— Com licença — eu disse, e tentei passar por eles. Eu conseguia. Eu podia simplesmente ir embora e eles estariam bêbados demais para me seguir se eu andasse rápido.

Mas o grandalhão agarrou meu braço e apertou. Com força.

Minha primeira reação foi me soltar, quebrar a pegada dele, talvez quebrar o braço dele também se fosse necessário. Teria sido fácil. Fácil demais.

Mas então eu vi o outro problema: uma câmera de segurança meio quebrada no poste do outro lado da rua, provavelmente nem funcionando, mas e se estivesse? E se alguém estivesse assistindo? E se eu usasse minha força de verdade e alguém começasse a fazer perguntas?

A gente estava ali havia três meses. Três meses desde que fugimos da cidade depois que eu curei aquele garoto e as pessoas erradas viram.

Três meses escondidos naquela cidadezinha onde ninguém conhecia a gente e ninguém suspeitava de nada. Lucian estava começando a dormir sem pesadelos de novo, e Marlen tinha parado de me perguntar toda manhã se a gente ia ter que ir embora outra vez.

Eu não podia arriscar. Não por causa de uns idiotas bêbados.

— Me solta — eu disse, e puxei o braço para longe sem usar força demais.

Ele apertou ainda mais.

— Ou senão o quê? O que você vai fazer, bonitão?

O primeiro soco veio antes que eu conseguisse desviar. Pegou na minha bochecha e a dor explodiu, aguda e quente. Eu cambaleei, as sacolas caíram, e eu ouvi os biscoitos do Lucian se estraçalharem dentro do pacote.

— Vai, revida — disse o cara novo da sobrancelha cortada, e me empurrou de novo, mais forte. — Qual é o problema? Tá com medo?

Sim. Mas não deles.

Outro golpe, dessa vez nas minhas costelas. Eu me dobrei, o ar escapando dos meus pulmões. Eu sentia o calor subir pela minha garganta, aquela sensação ardida que sempre vinha antes da transformação quando eu ficava estressado demais.

Não. Ali não. Agora não.

— Para — eu disse, e odiei o som da minha voz, quase como uma súplica. — Já chega.

— Chega? — repetiu o grandalhão, chutando minha perna. — A gente só tá começando, parceiro.

Os chutes vieram de todos os lados então. Costas, costelas, estômago. Encolhi o corpo, tentei proteger a cabeça com os braços.

Cada impacto era um lembrete do quanto eu precisava parecer fraco, do quanto eu precisava agir como humano. Eu sentia meus ossos absorvendo o estrago, meu corpo querendo se curar automaticamente, mas eu segurei. Deixei doer. Deixei os hematomas se formarem.

Pensei em Lucian e Marlen me esperando em casa. Em como Marlen provavelmente já tinha posto a mesa e Lucian tinha feito aquela massa horrorosa que ele vinha fazendo ultimamente porque viu uma receita no TikTok.

Pensei em como eles ficariam assustados se eu não aparecesse, ou pior, se eu aparecesse e dissesse que a gente tinha que ir embora de novo.

Eu não podia fazer isso com eles.

Um pé acertou meu rosto e senti meu lábio se abrir, sangue quente escorrendo pelo meu queixo. Meus ouvidos zumbiam. Um deles estava dizendo alguma coisa sobre minha carteira, mas as palavras vinham abafadas, distorcidas.

Então eu vi as luzes.

Altas, brilhantes, perto demais. O guincho de pneus no asfalto rasgou o ar e, de repente, os caras não estavam mais me chutando, e sim gritando, recuando, pulando para trás.

Um carro preto parou a centímetros de onde um deles estava um segundo antes.

— Que porra é essa?! — alguém gritou.

Eu fiquei no chão, respirando com dificuldade, tentando focar a visão. Uma porta se abriu. Passos rápidos no asfalto.

— Vão embora agora ou eu chamo a polícia! — Era a voz de uma mulher, firme, sem tremor. — Eu tô com o celular na mão, seus filhos da puta!

— A gente só tava se divertindo — resmungou o grandalhão, mas já estava recuando.

— Então vão se divertir em outro lugar. Caiam fora daqui!

Ouvi eles se afastarem, as passadas desajeitadas sumindo rua abaixo em meio a insultos resmungados.

Tentei me levantar e o mundo girou um pouco. Droga. Eu tinha batido a cabeça mais do que pensei.

— Você tá bem?

A mulher se aproximou, os sapatos entrando no meu campo de visão. Tênis brancos, surrados. Levantei a cabeça devagar e...

Foi como se o ar mudasse.

Não sei explicar de outro jeito. Ela se ajoelhou ao meu lado e, quando os dedos dela roçaram meu ombro para me ajudar a sentar, alguma coisa se mexeu sob a minha pele.

Algo quente e estranho e completamente inesperado, que chegou a me impedir de ouvir o que ela disse.

Por um segundo, só um segundo, senti meus olhos arderem, aquele calor dourado que eu normalmente conseguia controlar sem problema nenhum.

Piscar com força e empurrei aquilo para baixo. Quando olhei de volta para ela, seus olhos escuros estavam fixos em mim com uma preocupação genuína. O cabelo castanho-claro estava preso num rabo de cavalo e o rosto dela não tinha maquiagem. Ela devia ter a minha idade ou um pouco menos.

— Você consegue ficar em pé? — ela perguntou.

Assenti, embora não tivesse certeza. Deixei que ela me ajudasse a levantar, a mão pequena dela surpreendentemente firme no meu braço.

Quando eu já estava de pé, ela soltou rápido e deu um passo para trás, como se tivesse acabado de perceber que tinha tocado num estranho ensanguentado no meio da rua.

— Você devia ir ao hospital — ela disse. — Aqueles caras te bateram feio.

— Eu tô bem — menti, limpando a boca com a mão. Ela saiu manchada de vermelho. — Eu só... preciso chegar em casa.

— Você não parece bem.

— Já estive pior. — E, honestamente, eu não estava mentindo sobre isso.

Ela me olhou com aquela expressão que as pessoas fazem quando sabem que você está falando uma idiotice, mas não te conhecem o bastante para dizer na sua cara.

— Pelo menos deixa eu te dar uma carona. Você não devia andar desse jeito.

— Não, obrigado. Sério. Você já fez o suficiente.

Ficamos ali por um momento constrangedor. Ela pareceu querer discutir, mas por fim suspirou e assentiu.

— Como você quiser — disse ela, e voltou para o carro. Antes de entrar, se virou. — Toma mais cuidado, tá? Nem todo bêbado sai correndo quando aparece um carro.

— Vou tomar — eu disse.

Vi ela ir embora, as lanternas traseiras desaparecendo na esquina. Recolhi do chão as sacolas rasgadas, os biscoitos destruídos e os cadernos milagrosamente intactos.

Meu corpo inteiro doía, mas eu já sentia a cura começar, o calor familiar se espalhando pelas minhas costelas, fechando o corte no meu lábio.

Mas eu não conseguia parar de pensar naquele momento em que ela tinha me tocado.

Em como meus olhos tinham reagido sem eu querer.

E em como, pela primeira vez em anos, um humano tinha me feito sentir algo além de cautela.

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