A Luna Que Salvou Seu Alfa

A Luna Que Salvou Seu Alfa

Christina · Atualizando · 370.7k Palavras

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Introdução

—Você está vivo.

Essas duas palavras escaparam da minha garganta no instante em que vi Silas Keaton — meu marido, meu Alfa, o homem que eu traí e vi morrer na minha primeira vida — e eu soube que tinha recebido uma segunda chance impossível, uma chance que eu havia conquistado com sangue e arrependimento quando as mentiras da minha meia-irmã me levaram à morte, num galpão frio. Mas, desta vez, eu não era a garota ingênua que acreditava no veneno da Violet nem nas falsas promessas do Derek e, enquanto eu estava naquela mansão banhada de sol, com a maldição de Silas apertando o coração dele e a pesquisa roubada da minha mãe escondida em gavetas trancadas, percebi que salvá-lo significava enfrentar não só magia sombria, mas também a teia distorcida de traições familiares que tinha destruído nós dois.

Será que eu conseguiria quebrar a maldição que está matando ele, recuperar o legado da minha mãe das mulheres que o roubaram e provar que essa segunda chance no amor vale a pena — mesmo que isso signifique ficar sozinha contra todo mundo que quer nos ver cair?

Capítulo 1

POV da Eileen

Tentei mexer os braços. Não consegui. Eles estavam amarrados atrás de mim, a corda cortando meus pulsos tão apertado que eu já tinha perdido a sensibilidade dos dedos fazia horas. Ou talvez fossem minutos. O tempo tinha parado de fazer sentido em algum ponto entre a terceira costela quebrada e o momento em que eles começaram a rasgar minha roupa.

“Espera aí.”

A voz atravessou a névoa no meu cérebro. Um deles — o grandão com a cicatriz atravessando os nós dos dedos — tinha parado no meio do movimento, a mão grossa congelada na gola do meu vestido.

“O quê?”, rosnou outro. Eu não conseguia ver direito com o meu olho bom, mas reconheci a voz. Foi ele que me acertou primeiro, lá no estacionamento, do lado de fora da farmácia.

“Olha isso.” O Cicatriz nos Nós dos Dedos agarrou meu ombro — com força, me arrancando um suspiro — e puxou para baixo o tecido rasgado do meu vestido. O ar frio bateu na minha pele exposta.

“Caralho.” Ele recuou cambaleando como se eu tivesse queimado a mão dele. “Ela tem a maldita marca da matilha Keaton.”

O outro — o que tinha batido — se enfiou à frente para ver. Eu senti a respiração dele no meu pescoço, quente e fedendo a cigarro. Aí ele ficou imóvel.

“O chefe não falou nada sobre ela ser do Keaton.”

“O que a gente faz?”, perguntou o Cicatriz nos Nós dos Dedos, e eu ouvi o medo na voz dele. Todo mundo tinha medo do Silas Keaton. Todo mundo, menos eu, pelo visto. Eu tinha sido idiota demais para ter medo das coisas certas.

“Eu não sei, cara. Se o Keaton descobre—”

“Ele não vai.”

A nova voz cortou o galpão como uma lâmina. Saltos altos estalaram no concreto, firmes e confiantes. Eu conhecia aqueles passos. Já tinha ouvido mil vezes, quase sempre acompanhados de uma risada baixa e de conselhos gentis.

Violet.

Forçando, ergui a cabeça, piscando através do sangue seco grudado nos meus cílios. Violet estava na porta, recortada pela luz do poste lá fora. Ela parecia perfeita, como sempre. Cabelo alinhado, maquiagem impecável, vestindo um casaco cor creme que provavelmente custava mais do que o aluguel da maioria das pessoas.

Atrás dela, outra figura. Mais alta. Mais larga. Meu coração, que já estava quebrado, se estilhaçou em pedaços menores.

Derek.

“Não para por minha causa”, disse Violet, caminhando na minha direção. Os saltos dela ecoaram no espaço vazio. “O Keaton vai morrer em breve de qualquer jeito. Aquele Alfa aleijado não vai durar muito.”

As palavras me acertaram com mais força do que qualquer soco. “O quê… o que você disse?”

Minha voz saiu errada — rouca e quebrada, mal passando de um sussurro. Mas Violet me ouviu. Ela sorriu.

“Ah, Eileen.” Ela se agachou na minha frente, tão perto que eu senti o perfume dela. Chanel Nº 5. Eu tinha dado aquele frasco de presente no aniversário dela, no ano passado. “Você é mesmo tão burra quanto eu sempre achei.”

Derek entrou no meu campo de visão, tirando um porta-cigarros prateado. Ele acendeu um com calma, de propósito, como se tivesse todo o tempo do mundo. Talvez tivesse. Eu com certeza não tinha.

“Conta pra ela”, disse Violet, ainda com aquele sorriso perfeito. “Ela merece saber, não acha?”

Derek tragou fundo, soltou a fumaça em direção ao teto. “A gente vai matar o seu companheiro, Eileen. Aquela desculpa de Alfa preso a uma cadeira de rodas. Sinceramente, ele é uma vergonha pra toda a estrutura das matilhas.”

Meu peito apertou. Não pelas costelas quebradas, mas por algo mais fundo. “Silas…”

“Não se preocupa”, cantou Violet, estendendo a mão para tocar meu rosto. Eu me encolhi, mas não consegui me afastar. “Vai ser rápido. Bom… mais rápido do que isso aqui, pelo menos.” Ela fez um gesto vago na direção do meu corpo espancado. “A gente precisava de você pra chegar perto dele primeiro. Pra fazer ele confiar em você. E você fez um trabalho tão bom.”

“Você achou mesmo que o Derek te amava?”, continuou Violet, com a voz pingando uma falsa compaixão. “Que ele te queria? Meu Deus, Eileen, você facilitou tudo.”

As lembranças vieram como uma enxurrada, cada uma abrindo um ferimento novo:

A voz da Violet no meu ouvido, suave e preocupada: “Você deve se sentir tão presa, casada com alguém assim. Um aleijado. Não é justo com você.”

A mão dela no meu braço: “O Derek se importa muito com você, sabia? Ele sempre pergunta de você.”

O incentivo gentil: “Você não precisa ficar com o Silas só por causa de algum acordo de família. Você merece ser feliz.”

Cada palavra tinha sido uma mentira. Cada toque, cada confidência de “irmã”, cada momento em que eu achei que a gente era próxima — tudo calculado. Tudo pensado para me afastar do Silas, para me transformar na arma perfeita contra ele.

E eu caí direitinho. Todas. As. Vezes.

“Por quê?” A palavra saiu arranhando da minha garganta. “Por que você me odeia tanto?”

A máscara da Violet rachou. O rosto bonito dela se deformou em algo feio, algo real. “Te odiar?” Ela riu, alto e cortante. “Eu te odeio desde que a gente era criança, Eileen. Desde o primeiro dia em que a mamãe me levou pra aquela casa e todo mundo olhou pra você — a pobre, doce Eileen, sem mãe — com tanta pena e tanto amor.”

“Não é—”

“Não.” A voz dela estalou como um chicote. “Não se atreva a dizer que não era verdade. Você conseguiu o casamento com os Keaton. Você conseguiu a marca. Você teve tudo entregue de bandeja, e era tão patética que nem soube valorizar.”

Derek sacudiu a cinza do cigarro no chão. “A parte mais engraçada? O Keaton caiu na sua. Aquele Alfa poderoso, assustador — rebaixado por uma zé-ninguém que nem enxergava o que tinha.”

As palavras me atravessaram como gelo. Silas... me amava?

Não. Isso não podia ser verdade. Nosso casamento tinha sido arranjado, uma aliança política entre famílias. Ele nunca disse... nunca mostrou...

Mas, mesmo enquanto eu pensava isso, lembranças lampejaram: o jeito como ele olhava pra mim às vezes, quando achava que eu não estava vendo. O tom gentil que ele usava comigo, tão diferente de como falava com todo mundo. A marca no meu ombro, ainda tentando me proteger mesmo agora.

Meu Deus. Meu Deus, o que foi que eu fiz?

“Acaba com isso”, Violet disse friamente, virando o rosto. “A gente ainda tem planos pro Alfa aleijado.”

Os homens vieram na minha direção de novo. Eu não conseguia lutar. Mal conseguia me mexer. Meu corpo já estava quebrado, e agora meu coração também.

Se eu pudesse voltar... se eu pudesse fazer tudo de novo...

Eu escolheria ele. Eu escolheria o Silas. Eu mandaria a Violet pro inferno e o Derek junto. Eu ficaria do lado do Silas Keaton e tentaria de verdade enxergar quem ele era, enxergar de verdade, em vez de acreditar em cada palavra venenosa sussurrada no meu ouvido.

Mas eu não podia voltar. Ninguém ganhava segunda chance.

A dor veio, afiada e definitiva. Eu senti que estava escorregando, a consciência sumindo como água entre meus dedos.

Meu último pensamento não foi de vingança nem de justiça. Foi mais simples do que isso:

Me desculpa, Silas. Me desculpa por tudo.

Aí — nada.


A luz explodiu diante dos meus olhos.

Eu ofeguei, erguendo as mãos por instinto para me proteger. Minhas mãos. Eu conseguia mexer minhas mãos.

Pisquei rápido, tentando entender o que eu estava vendo. Céu azul. Sol da manhã. O cheiro forte de pinheiros e de grama recém-cortada.

O que...?

Olhei pra mim. Vestido branco limpo, sem sangue, sem lágrimas. Meus braços não tinham marca nenhuma, a pele pálida e lisa. Toquei o rosto — sem inchaço, sem lábio cortado. Nada doía.

Nada doía.

“Senhorita Goode? A senhora está bem?”

Eu me virei tão rápido que quase caí. Um homem de uniforme de motorista estava ao lado de um carro preto elegante, me olhando com preocupação. Atrás dele, enormes portões de ferro estavam abertos, revelando uma longa alameda ladeada por carvalhos antigos.

Eu conhecia aqueles portões. Eu conhecia aquela alameda.

“Senhorita Goode?” O motorista se aproximou. “A senhora está pálida. Está nervosa com o casamento? É perfeitamente normal dar aquela hesitada no dia do casamento—”

Dia do casamento.

As palavras ecoaram no meu crânio como um sino.

“Que... que dia é hoje?” Minha voz saiu firme, o que parecia impossível, considerando que o meu mundo inteiro tinha acabado de virar do avesso.

A preocupação do motorista aumentou. “É o dia do seu casamento, senhorita. A senhora vai se casar com o Alfa Keaton esta manhã. Está se sentindo mal? Quer que eu chame alguém?”

Dia do casamento. O meu dia do casamento. O dia em que eu me casei com Silas Keaton.

O dia em que tudo começou.

Isso não era possível. Eu tinha morrido. Eu tinha sentido a minha morte. E agora—

Agora eu estava no Solar Keaton. Nos portões. No meu dia de casamento.

O motorista ainda falava, mas eu já não conseguia ouvir. Meu coração batia tão forte que eu achei que fosse explodir no peito. Minhas mãos tremiam. Meu corpo inteiro tremia.

Silas. O Silas estava vivo. Ele estava vivo e estava aqui e—

Eu precisava encontrar ele.

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