
Entregue A Um Traficante
jaquelinemoraisolliver · Concluído · 171.8k Palavras
Introdução
Capítulo 1
Liana
Acordei com a voz do meu tio atravessando a casa como um soco.
Pedro: Ô, LIANA! POR QUE CARALHOS VOCÊ AINDA TÁ DEITADA? LEVANTA LOGO E VEM FAZER ALGUMA COISA PRA EU COMER!
Liana: Já tô indo — respondi, com a voz ainda pesada de sono.
Sentei na cama e esfreguei os olhos, tentando ganhar alguns segundos antes de encarar mais um dia. O teto baixo, as paredes manchadas pelo tempo e o cheiro constante de umidade eram sempre o primeiro lembrete de onde eu estava. Às vezes eu me perguntava se todo esse esforço, toda a paciência que eu vinha tendo há anos, realmente ia servir para alguma coisa.
Eu tinha dezessete anos e uma vida que parecia grande demais para os meus ombros.
Há sete anos, eu era só uma criança. Tinha pais, tinha cuidado, tinha uma rotina simples e segura. Hoje, o que me acompanhava eram preocupações constantes, crises de ansiedade e um medo silencioso do futuro. Medo de não conseguir sair dali. Medo de nunca ser ninguém.
Meu tio, Pedro, trabalhava como gandula. Corria atrás de bolas em campos de futebol por um dinheiro que mal dava para sustentar o próprio vício. Eu nunca achei o trabalho dele indigno. Trabalho nenhum é. O que me machucava era ver o homem que um dia tentou me proteger se perder pouco a pouco.
Quando vim morar com ele, eu tinha apenas dez anos. Chorava quase todas as noites, acordava assustada, presa a pesadelos que insistiam em me acompanhar. Eu era uma criança quebrada, e ele um homem que nunca soube lidar com sentimentos. Não sabia conversar, não sabia acolher. Apenas seguia.
Por um tempo, ele tentou. Trabalhou duro, colocou comida em casa, pagou meus remédios caros. Nunca foi carinhoso, nunca me deu um beijo de boa noite ou perguntou como tinha sido meu dia, mas cuidava do jeito dele. E isso, hoje, eu reconheço.
Tudo começou a desmoronar quando as drogas entraram na vida dele.
Vieram os gritos. Depois, a agressividade. A comida passou a faltar antes do fim do mês. Minha terapia foi cortada. O dinheiro sumia rápido demais. Aprendi a medir palavras, passos e silêncios dentro de casa.
Se não fosse a tia Suzane, eu não sei onde estaria.
Ela foi minha professora no fundamental, a mãe da minha melhor amiga, Letícia. Foi quem insistiu, brigou e alertou meu tio quando percebeu que eu precisava de ajuda psicológica. Foi graças a ela que, por um tempo, tudo começou a entrar nos trilhos.
E foi graças a ela, de novo, que voltei à terapia quando tudo desandou outra vez.
Mesmo assim, eu me sentia um peso. Um incômodo. Algo que não era responsabilidade delas, apesar de nunca terem me tratado dessa forma.
Levantei da cama e fui para o banheiro. Tomei um banho frio, como sempre. A água gelada despertava o corpo, mesmo quando a cabeça insistia em continuar cansada. Não molhei o cabelo. Ele era uma das poucas coisas que eu amava em mim. Longo, ruivo, herdado do meu pai. Quando solto, caía pesado sobre minhas costas claras. Às vezes, eu me permitia gostar disso.
Me arrumei com o pouco que tinha. Uniforme da escola, tênis gasto, maquiagem quase inexistente. Um pouco de batom nos lábios apenas para parecer menos cansada.
Antes de sair do quarto, sentei na cama e encarei a foto sobre a mesinha ao lado.
Eu, mamãe e papai. Sorrindo.
Peguei o porta-retrato e o apertei contra o peito.
— Sete anos antes
O nó na garganta veio rápido. Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir.
Eu ainda lembrava de tudo.
Era para ser apenas uma noite comum.
Cinema, pipoca, risadas. Eu estava animada, mais pelo passeio do que pelo filme. Meus pais riam da minha empolgação enquanto saíamos de casa.
No banco, a fila era grande. Papai ficou esperando enquanto mamãe e eu aguardávamos perto da porta. O barulho de carros freando veio primeiro. Depois, motos.
Tudo aconteceu rápido demais.
Mamãe me pegou no colo quando percebeu o que estava acontecendo. Correu comigo para dentro do banco e me colocou atrás de uma porta de vidro fumê.
“Fica quietinha”, ela disse. “Eles não conseguem te ver.”
Eu vi tudo.
Vi quando ela pegou o celular, tentando ligar para alguém. Vi quando um dos homens percebeu. O som do tiro foi seco, alto demais para um lugar fechado. Mamãe caiu antes que eu conseguisse entender o que tinha acontecido.
Meu pai correu até ela.
Outro tiro.
Levei as mãos à boca, prendendo um grito que nunca saiu. Meu corpo inteiro tremia, mas eu não conseguia me mover. Não conseguia fechar os olhos. Não conseguia respirar direito.
O homem que parecia comandar o assalto gritou com o outro, mandou parar, mandou ir embora. As pessoas correram até meus pais. Eu fiquei onde estava, imóvel, como se minhas pernas não funcionassem mais.
Meu pai ainda se mexia no chão. Os olhos dele procuraram algo… e me encontraram.
Os lábios se moveram.
“Eu amo você.”
Foi o que eu entendi.
Quando ele fechou os olhos, eu fechei os meus também.
Eu não gritei. Não corri. Não pedi ajuda.
Apenas fiquei ali, pequena demais para compreender como o mundo podia acabar em questão de segundos.
As sirenes vieram depois. O helicóptero. As vozes misturadas.
Nada disso me alcançou de verdade.
Aquela cena ficou gravada em mim. Não como lembrança distante, mas como marca. Algo que moldou cada medo, cada escolha, cada silêncio que eu carregaria dali em diante.
Abri os olhos ainda sentada na cama, segurando a foto contra o peito.
Respirei fundo.
Mais um dia começava.
E eu precisava encontrar forças, outra vez, para continuar.
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