O Tributo de Sangue da Máfia

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mesomagold · Concluído · 218.4k Palavras

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Introdução

ELE A COMPROU; ELA ROUBOU A ALMA DELE

Anya Koslov foi vendida para quitar a dívida do pai, tornando-se o Tributo de Sangue para a Bratva mais poderosa de Moscou. Agora ela é uma mercadoria nas mãos de Nikolai Markov, um Pakhan tão frio que até monstros temiam ouvir seu nome.

— Por favor… eu faço qualquer coisa — sussurrou Anya, a voz como um fio frágil no silêncio esmagador do salão. De joelhos, ela era só mais uma oferenda numa tradição de séculos, uma dívida paga em carne e sangue.

Ele deu a volta ao redor dela como um predador avaliando sua mais recente aquisição. A voz dele era o próprio inverno, gelada e absoluta.

— Sua vida não é mais sua para negociar.

A mão enluvada dele segurou o queixo dela, obrigando-a a encarar um olhar tempestuoso e impiedoso como a alma dele.

— A partir deste momento, fantasminha, você pertence a mim.

Capítulo 1

“Mais rápido, ratinha!” Sergei Petrov debochou lá de cima, enquanto eu esfregava o piso de mármore. Ele era o filho mais novo da família e estava bêbado de novo; o hálito dele fedia a vodka. “Minha família pagou uma boa grana por você. Você tinha que trabalhar mais!” Ele cuspiu nas minhas mãos ao sair andando.

Eu não saí do lugar. Mantive a cabeça baixa. Eu tinha aprendido essa lição quatro anos atrás, quando a família dele comprou a dívida do meu pai. Fique quieta. Seja pequena e você sobrevive. As palavras martelavam na minha cabeça, um mantra, um escudo contra o medo que morava na minha garganta.

Eu esfregava o mármore da propriedade dos Petrov de joelhos, apoiada nas mãos. Meus dedos estavam vermelhos, em carne viva, por causa da água escaldante. Eu tenho vinte e dois anos, mas, quando peguei meu reflexo na pedra polida, vi um fantasma. Uma criança de olhos vazios e nós dos dedos roxos. Aquela menina de antes, a que ria e vivia num apartamento ensolarado, tinha sumido. Esse fantasma era tudo o que restava.

Meu pai, o detetive Marco Koslov, era um homem bom numa cidade que devora homens bons. Ele tinha tentado lutar contra a corrupção, tentado manter as mãos limpas num mundo construído com dinheiro sujo e sangue. Isso tinha matado ele. Um mês atrás, ele morreu na prisão, esfaqueado no chuveiro por um detento que trabalhava para as mesmas famílias que meu pai tinha tentado derrubar. Às vezes, no silêncio desta casa, eu ainda consigo ouvir a risada dele. Era um som grande, quente. Agora é só um eco que dói.

A família Petrov veio até mim depois da prisão dele com uma proposta simples. “Pague a dívida da sua família trabalhando, ou veja seu irmãozinho, Dmitri, desaparecer no sistema.” Dmitri tem quatorze anos agora, em algum lugar desta cidade, levado por outra família como garantia. Eu não vejo o rosto dele há quatro anos. Eu me agarro à lembrança dele como um menino de dez anos, com o queixo teimoso do nosso pai e os olhos grandes e cheios de esperança da nossa mãe. Ele é o motivo de eu manter os joelhos grudados nesta pedra gelada. Ele é o motivo de minhas mãos nunca pararem.

Eu trabalho dezoito horas por dia. Eu cozinho, eu limpo, eu sirvo em festas onde homens poderosos falam de território e assassinato por cima de vinho caro. Eu me tornei invisível. É o único jeito de continuar viva. Eu sou uma sombra no canto, como um móvel. Eu prendo a respiração quando certos homens passam. Eu faço meus passos tão leves quanto poeira.

À noite, sozinha no quartinho minúsculo que me deram no porão, eu canto baixinho as canções de ninar que minha mãe cantava. Canções folclóricas russas sobre inverno e lobos e garotas que sobreviviam a coisas impossíveis. Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos, me deixando só essas músicas e um aviso. “Neste mundo, Anyushka, mulheres como nós precisam ser espertas. A gente não pode ser forte, então precisa ser inteligente.”

E eu tenho sido inteligente há quatro anos. Eu aguentei toda humilhação, todo golpe, toda noite em que Sergei bebia demais e as mãos dele chegavam perto demais do meu corpo. Eu sobrevivi porque precisava. Porque, em algum lugar de Moscou, Dmitri está me esperando.

E, nesta tarde, eu estava limpando o grande escritório, o coração do poder deles. Viktor Petrov, líder do clã Petrov, estava sentado atrás da mesa enorme, enquanto a fumaça do charuto cubano dele se enrolava e subia em direção ao teto.

Homens importantes viriam esta noite. Eu tinha ouvido os empregados cochichando sobre isso. Reuniões sobre territórios, remessas e tráfico de pessoas.

Meus joelhos doíam de tantas horas ajoelhada. Minhas costas gritavam a cada movimento. Mesmo assim, eu continuava esfregando, porque a alternativa era pior. A alternativa era Viktor Petrov quebrar uma das minhas costelas e botar a culpa em mim por ter relaxado.

A luz da tarde entrava em diagonal pelas janelas altas, desenhando quadrados dourados no mármore que eu tinha acabado de limpar. Era bonito. Eu costumava amar uma luz assim. Eu costumava ficar ali, dentro dela, e sentir o calor. Agora eu só calculava quantas horas de claridade ainda restavam para terminar o trabalho.

O cômodo cheirava a couro velho e charutos cubanos. Juntei meus materiais e me movi em silêncio para a próxima parte.

Eu estava lustrando a madeira escura e enorme da estante de Viktor Petrov quando a porta se abriu e Ivan, o filho mais velho dele, entrou. Eu congelei, virando praticamente parte da mobília, torcendo para que as sombras me engolissem.

— Temos um problema com essa garota Koslov — disse Ivan, a voz num ronco baixo, enquanto o olhar dele vacilava na minha direção.

Minhas mãos pararam por só um segundo, antes de eu me obrigar a continuar. Eles falavam de mim como se eu fosse um objeto. Meu coração não parava de disparar enquanto discutiam o meu destino.

Viktor Petrov estava sentado na poltrona de espaldar alto, com a fumaça do charuto se enrolando ao redor da cabeça dele como uma coroa. — A filha daquele detetive? — Ele apontou para mim. — Que problema?

— Ela já está aqui há quatro anos, pai. Já tiramos proveito suficiente — Ivan fez uma pausa, e o ar do cômodo ficou pesado. — O Tributo de Sangue é daqui a três semanas, e Nikolai Markov está pedindo as melhores oferendas. As outras famílias estão preparando o que têm de melhor. A gente precisa de algo que… impressione. Algo que se destaque.

Eu não sabia o que era o Tributo de Sangue, mas o jeito como Ivan disse aquilo fez meu estômago virar gelo. Oferendas? Como animais? Como propriedade?

Eu vi o rosto endurecido de Viktor se quebrar num sorriso lento, cruel, esticando os lábios. — O detetive que matou os homens de Leonid Markov dez anos atrás. O homem que quase derrubou o sistema inteiro. Cujo depoimento poderia ter destruído todos nós.

Aquele era meu pai. Um homem muito corajoso, que tinha enfrentado a família mais perigosa de Moscou. A família Markov. Mas ele acabou preso e, depois, morreu.

— A filha dele — Ivan concluiu, a voz fria e firme. Eu tentei ligar os pontos, mas ainda não estava claro o que eles estavam tramando. — Se a gente oferecer ela ao Nikolai, não é só pagar uma dívida. A gente está dando a ele vingança, e isso faria ele ficar devendo pra nós. — Ivan terminou, e meus olhos se arregalaram.

O quê?!

Eu sou a oferenda?!

Eu devo ter soltado algum som, um suspiro pequeno que denunciou a minha presença, porque dois pares de olhos gelados se viraram para mim na mesma hora.

Viktor apagou o charuto. A voz dele saiu fria, mandona. — Faça os preparativos. Dê um jeito nela. No equinócio, Anya Koslov vira o Tributo de Sangue.

As palavras eram uma sentença de morte. Eu nem tive tempo de gritar quando um par de mãos ásperas agarrou meus braços.

Fui arrastada imediatamente, meus pés escorregando e raspando no mármore polido.

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